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JANE JOGA E GANHA

(SEE, JANE SCORE)

RACHEL GIBSON


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estritamente proibida.

       Um tanto desiludida, bastante teimosa e cansada de ir a entrevistas s cegas com homens pouco interessantes, Jane Alcott parece levar a tpica existncia de mulher solteira em uma grande cidade. Entretanto, tem uma dupla vida. Durante o dia  jornalista esportiva, encarregada de seguir a uma equipe de hquei, e especialmente a seu goleiro, Luc Martineau. Durante a noite  escritora, a criadora secreta das escandalosas aventuras de uma srie da qual todos falam.
       Luc tem clara sua opinio a respeito desses parasitas chamados jornalistas; incluindo Jane. Quo ltimo precisa  uma reprter entremetida que escava seu passado e se interpe em seu caminho. Mas quando a diminuta jornalista se desfaz de suas roupas cinzas e negras que costuma a luzir as trocando por um atrativo vestido vermelho. Luc comprova que Jane esconde muito mais do que deixa ver.
       Talvez tenha chegado o momento arriscar-se e jogar a um jogo diferente....




Prlogo

        Entre tantos bares cheios de fumaa como h em Seattle, ele teve que entrar no Lose Screw, a casa de jogo clandestino em que eu trabalhava cinco noites por semana servindo cervejas e me asfixiando com a fumaa ranosa do tabaco. Uma descuidada mecha de cabelo negro lhe caiu sobre a fronte ao tempo que deixava um pacote do Camel e um Zippo em cima do balco.
Me v uma Henry's disse com voz spera, e faz rpido. No tenho o dia todo.
       Sempre me assobiaram os tipos sombrios de m disposio. Com apenas um olhar soube que aquele era um homem sombrio, e to mau como uma tormenta eltrica.
De barril ou de garrafa? perguntei-lhe.
       Acendeu um cigarro e me olhou atravs de uma nuvem de fumaa. Seus formosos olhos azuis se tingiram de pecado enquanto baixava a vista at o grifo do barril. Os extremos de sua boca se curvaram formando um sorriso quando apreciou o entalhe de meu prendedor.
       Garrafa respondeu.
       Tirei uma Henry's da geladeira, abri-a e a fiz deslizar sobre o balco.
       Trs e trinta disse.
       Agarrou a garrafa com uma de suas mos e a levou aos lbios; no afastou seu olhar de mim enquanto bebia. Ao deixar a garrafa de novo no balco com um golpe, a espuma saiu pela boca de cristal. Senti que me tremiam os joelhos.
Como se chama? perguntou enquanto tirava a carteira do bolso traseiro de seus gastos Levi'S.
       Bombonzinho respondi. Bombonzinho de Mel.
       Voltou a esboar um sorriso quando me entregou a nota de cinco dlares.
        bailarina de strip-tease?
       Tomei como um elogio.
       Depende.
       Do que depende?
       Devolvi-lhe o troco e aproveitei para roar a palma de sua mo com a ponta de meus dedos. Um calafrio se apoderou de meus pulsos e sorri. Percorri com o olhar seus fortes braos e seu peito at alcanar seus largos ombros. Todos os que me conheciam sabiam que seguia muito poucas regras no que se referia a homens. Eu gostava dos tipos grandes e maus, embora devessem ter dentes e mos limpas. Isso era tudo. OH, sim, preferia-os um tanto pervertidos, embora no fosse imprescindvel, pois viciosa como era, tinha o suficiente para os dois. Desde menina, meus pensamentos tinham sido sempre o sexo como eixo central. Enquanto as bonecas Barbie das outras meninas foram  escola, a minha brincava de mdico.. Jogos que discorriam mais ou menos deste modo: a doutora Barbie examinava o pacote do Ken e depois brincava com ele at deix-lo em estado de coma.
Agora, a meus vinte e cinco anos, em lugar de me dedicar ao golfe ou  cermica como tantas mulheres, meu hobby eram os homens, e os colecionava como se fossem baratos souvenirs de Elvis. Depois de observar os atrativos olhos azuis de mister Maldoso, comprovei os batimentos cardacos e a dor entre minhas coxas e disse a mim mesma que tambm podia consegui-lo para minha coleo. S tinha que lev-lo para casa. Ou coloc-lo na parte traseira de meu carro, ou fazer uma visita ao servio de mulheres.
O que te trouxe por aqui? perguntei finalmente, apoiando os braos sobre o balco e lhe oferecendo uma estupenda vista panormica de meus perfeitos seios.
       Seus olhos pareciam ardentes e famintos quando afastou a vista de meu decote. Ento abriu sua carteira e me mostrou sua identificao.
Estou procurando Eddie Cordova. Disseram-me que voc o conhece. 
Pequena sorte a minha. Um policial.
       Sim, conheo o Eddie.
       Tinha sado com ele uma vez, se o que fizemos podia chamar de sair. A ltima vez que vi o Eddie, foi no lavabo do Jimmy Woo's, em estado de coma. Tive que pisar na sua mo para que me soltasse o tornozelo.
       Sabe onde posso encontr-lo?
       Tratava-se de um ladro de mdio porte e, o que era ainda pior, um pssimo amante, por isso no senti o menor indcio de culpa ao responder:
       Suponho que sim.
       Sim, daria uma mo quele sujeito, e pelo modo em que me olhava podia assegurar que ele queria algo mais que...


       O telefone que estava junto ao computador comeou a soar. Jane Alcott afastou o olhar da tela e da ltima entrega da vida do Bombonzinho de Mel.
Maldito seja grunhiu. Passou os dedos por debaixo dos culos e esfregou os cansados olhos. Por entre os dedos olhou o visor do telefone para saber quem chamava. Respondeu.
Jane disse o editor do Seattle Teme, Leonard Callaway, sem incomodar-se em dizer ol, Virgil Duffy vai falar com os treinadores e os diretores esportivos esta noite. O trabalho  oficialmente teu.
       Virgil Duffy, cuja corporao figurava na lista Fortune 500, era o dono da equipe de hquei dos Seattle Chinooks.
Quando comeo? perguntou Jane ficando em p. Agarrou a xcara de caf e, ao ir beber, deixou cair umas gotas sobre seu velho pijama de flanela.
       No dia primeiro.
       Comear em primeiro de janeiro lhe deixava s duas semanas para preparar-se. Dois dias antes, Leonard lhe tinha perguntado se estava interessada em cobrir o posto do cronista esportivo Chris Evans, que estava de licena por um tratamento mdico contra um linfoma. O prognstico para o Chris era bom, pois no se tratava de um linfoma do Hodgkin, mas lhe manteria afastado do peridico e algum teria que cobrir a informao relativa aos Chinooks. Jane nunca teria sonhado que seria ela.                         
       Entre outras coisas, era colunista do Seattle Times e gozava de certo nome devido a sua coluna mensal Solteira na cidade. No tinha nem idia de hquei.
Sair de viagem com eles nos dia 2 prosseguiu Leonard. Virgil quer esclarecer os detalhes com os treinadores, depois te apresentar  equipe, na segunda-feira, antes que saiam.
       Quando lhe ofereceram esse trabalho, fazia isso uma semana, havia-se sentido surpreendida e inclusive intrigada. Sem dvida, o senhor Duffy deveria ter escolhido outro reprter esportivo para cobrir as partidos de sua equipe. Mas para seu assombro, a oferta de trabalho provinha diretamente dele.
O que pensam os treinadores? Jane deixou a xcara sobre o escritrio, junto  agenda aberta.
Na verdade, eles no se importam. Desde que John Kowalsky e Hugh Miner se retiraram, o estdio no voltou a se encher. Duffy necessita dinheiro para pagar o atacante estrela que contratou no ano passado. Virgil adora o hquei, mas acima de tudo  um homem de negcios. Far algo para que os aficionados vo ao campo. Por isso pensou em ti em primeiro lugar. Quer que vo mais mulheres para ver as partidas.
       O que Leonard Callaway no lhe disse foi que Duffy tinha pensado nela porque sabia que escrevia fofocas para mulheres. A Jane no importava; depois de tudo, essas fofocas a ajudavam a pagar as faturas e, por outra parte, tinham-na feito bastante conhecida entre as mulheres que liam o Seattle Times. Mas as fofocas no davam para pagar todas as faturas. Nem sequer a maioria. A pornografia pagava todo o resto. A srie de relatos pornogrficos A vida do Bombomzinho de Mel, que escrevia para a revista Him, era muito popular entre os leitores masculinos.
       Enquanto falava com o Leonard do Duffy e sua equipe de hquei, Jane escreveu em uma nota adesiva com letras de cor rosa: Comprar livros de hquei.
       Pegou a nota na parte superior da agenda, passou a pgina e estudou seu plano do dia, detalhado sob outro punhado de notas adesivas.
... E recorda que estar tratando com jogadores de hquei prosseguiu Leonard. Costumam ser muito supersticiosos. Se os Chinooks comeam perdendo vrias partidas, culparo-lhe disso e lhe enviaro de volta a casa.
       Estupendo. Seu trabalho estava em mos de jogadores supersticiosos. Separou uma nota antiga da agenda, em que dizia Data de entrega "Bombonzinho de Mel", e a jogou no cesto de papis.
       Depois de uns minutos mais de conversao, pendurou o fone e agarrou a xcara de caf. Como a maioria dos habitantes de Seattle, soavam-lhe os nomes de alguns famosos jogadores de hquei. A temporada era larga e no noticirio King-5 News falavam de hquei quase todas as noites, mas naquele momento s conhecia um dos integrantes dos Chinooks, o goleiro do qual Leonard tinha falado, Luc Martineau.
       Tinham-lhe apresentado ao homem dos trinta e trs milhes de dlares na festa que tinham dado os Chinooks no vero anterior no Press Clube, justo depois de sua inscrio. Estava em metade da sala, com aspecto saudvel e em forma, como se fosse um rei recebendo sua corte. Tendo conhecimento da legendria reputao de Luc, to dentro como fora da pista, Jane se surpreendeu ao comprovar que era mais baixo do que tinha imaginado. No chegava a um metro e oitenta, mas era puro msculo. O cabelo, de um loiro cinza, cobria-lhe as orelhas e o pescoo da camisa, era ligeiramente ondulado e se notava que o penteava com as mos.
       Tinha os olhos azuis e caminhos de cicatrizes pequenas, uma na bochecha esquerda e outra no queixo. No havia nada que objetar em seu aspecto impactantemente varonil. Haviam dito tantas coisas ms dele que no havia uma s mulher naquela sala que no se perguntasse se realmente seria to mau como diziam.
       Usava uma camisa de cor cinza clara e uma gasta gravata de seda vermelha. Luzia um Rolex de ouro no pulso, e uma loira de pneumticas curvas se pegou a ele como uma ventosa.
       A aquele homem gostava de levar as glrias.
       Jane e o goleiro trocaram saudaes e se deram a mo. Ele apenas lhe dirigiu o olhar antes de ir-se com a loira. Em menos de um segundo, Jane desapareceu do mapa para ele. Era o habitual. No geral, os homens como Luc no costumavam prestar muita ateno em mulheres como Jane. Um metro cinqenta e cinco de altura, cabelo castanho escuro, olhos verdes e queixo afiado. No estavam acostumados a formar um crculo a seu redor para descobrir se tinha algo interessante que dizer.
       Se o resto dos integrantes dos Chinooks a ignorassem com tanta rapidez que Luc Martineau, iam ser uns meses bastante duros; embora viajar com a equipe era uma oportunidade muito boa para deix-la passar. Escreveria as crnicas esportivas do ponto de vista de uma mulher. Destacaria os melhores momentos da partida, tal como se esperava que fizesse, mas emprestaria maior ateno a tudo o que acontecesse no vesturio. Nada de tamanhos de pnis ou costumes sexuais..., no trataria dessas coisas. Desejava saber se no sculo XXI as mulheres tinham que seguir enfrentando discriminao.
       Jane se sentou de novo frente ao computador porttil e voltou a centrar-se na histria do Bombonzinho de Mel que tinha que entrega-la ao editor no dia seguinte, destinada a aparecer no nmero de fevereiro da revista. Muitos dos homens que consideravam que sua coluna Solteira na cidade no tratava mais que de fofocas e afirmavam no l-la jamais, no perdiam um s captulo da srie Bombonzinho de Mel. Ningum  exceo de Eddie Goldman, o editor da revista, e de sua melhor amiga do instituto, Caroline Maom, sabia que era ela quem escrevia aqueles lucrativos artigos mensais. E seu desejo era que continuasse sendo um segredo.
       Bombonzinho era o lter ego do Jane. Formosa. Desinibida. O sonho de todo homem. Uma mulher hedonista capaz de deixar exaustos e sem fala com os homens de Seattle, e ao mesmo tempo dispostos a pedir mais. Bombonzinho tinha um enorme clube de fs, e tambm uma dzia de pginas na Web dedicadas a ela. Algumas eram tristes e outras divertidas. Em uma dessas pginas eletrnicas se faziam clculos sobre a possibilidade de que o autor das aventuras do Bombonzinho de Mel fosse um homem.
        Jane gostava daquele rumor. Em seu rosto apareceu um sorriso quando leu a ltima linha que tinha escrito antes que Leonard ligasse. Tinha que para fazer com que os homens pedissem mais.
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
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       A iniciao do novato

       No vesturio no diziam mais que tolices enquanto Luc Lucky Martineau vestia sua roupa e fixava bem seus complementos. A maioria de seus companheiros de equipe estavam de p em torno de Daniel Holstrom, o novato sueco, comentando as possibilidades que oferecia a iniciao. Tinha duas opes: ou deixar que os meninos lhe barbeassem a cabea ao estilo moicano ou convidar toda a equipe para jantar. Como os jantares dos novatos no custavam menos de dez mil dlares, Luc sups que o jovem estreante acabaria parecendo com um punk durante um tempo.
       Daniel, com os olhos muito abertos procurou entre seus companheiros algum sinal que lhe indicasse que estavam brincando. No encontrou nenhum. Todos tinham sido novatos em alguma ocasio, e a todos tinham que passar por algum trote como aquele. Na temporada em que Luc comeou, os cordes de seus patins desapareceram em mais de uma ocasio, e os lenis das habitaes de hotel nas que dormia apareceram cortados.
       Luc agarrou seu stick e se encaminhou para o tnel. Deixou pra trs alguns dos meninos, que esquentavam com maaricos as lminas de seus patins. Junto  sada do tnel, o treinador Larry Nystrom e o diretor esportivo Clark Gamache falavam com uma mulher baixa vestida por completo de negro. Ambos tinham os braos cruzados sobre o peito e olhavam  mulher com o cenho franzido enquanto esta lhes falava. Usava o escuro cabelo recolhido na nuca em um estranho coque.
       Alm de uma moderada curiosidade, Luc prestou escassa ateno a Jane, esquecendo-se dela por completo quando saiu  pista para treinar. Ouviu o suave som das lminas dos patins ao deslizar sobre o gelo, algo lgico depois de passar uma hora s afiando. Enquanto dava umas quantas voltas de aquecimento, notou que o ar frio lhe enchia os pulmes e roava suas bochechas atravs do ralo da mscara.
       Como todos os goleiros, Luc era um membro a mais da equipe, embora estivesse um tanto  margem devido  natureza solitria de seu posto. No havia cobertura possvel para um homem como ele. Quando punham o disco em movimento, os flashs das cmeras estalavam formando um enorme sinal de non. Para ficar partida depois de partida entre os trs paus fazia falta algo mais intenso que a determinao e a garra. Precisava ser o suficientemente competitivo e arrogante para acreditar-se invencvel.
       O treinador de goleiros, Dom Boclair, fez deslizar uma cesta com discos pelo gelo enquanto Luc levava a cabo o mesmo ritual que tinha vindo seguindo durante os ltimos onze anos, tanto nas partidas como nos treinamentos. Rodeava trs vezes a portaria no sentido das agulhas do relgio, e uma vez mais em sentido oposto. Ocupava seu lugar entre os paus e golpeava com seu stick as bases dos postes, primeiro  esquerda e depois a direita. Depois disto se benzia, como um sacerdote que se dirige ao Senhor. Situado sobre a linha azul, e durante os seguintes trinta minutos, o treinador patinava a seu redor, lanando o disco como um franco-atirador para todos os lados e tambm do ponto de pnalti.
       Aos trinta e dois anos, Luc se sentia bem. Bem a respeito ao hquei, e bem respeito a sua condio fsica. Estava, mais ou menos, livre de dor, e o medicamento mais forte que tomava era Advil, um analgsico. Estava jogando a melhor temporada de sua carreira, e a caminho da final de liga, seu corpo se encontrava em excelentes condies. Sua vida profissional ia as maravilhas.
       Mas no podia dizer o mesmo de sua vida ntima.
       O treinador de goleiros lanou um dos discos com todas suas foras, com um marcado efeito, mas Luc o apanhou com sua luva. Atravs do grosso acolchoado, os duzentos e cinqenta gramas de borracha vulcanizada impactaram contra sua mo. Atirou-se de joelhos sobre o gelo ao mesmo tempo que outro disco voava para a direita e golpeava em seus amparos. Sentiu o familiar puxo de dor em seus tendes e ligamentos, mas no era nada que no pudesse suportar. Nada que no queria suportar, e nada que ele fosse admitir jamais pessoalmente.
       Alguns jornalistas o tinham despejado depois da pior poca de sua carreira. Dois anos atrs, quando jogava com os Red Wings, lesou ambos os joelhos. Depois de umas quantas intervenes cirrgicas de risco, incontveis horas de reabilitao, uma estadia na clnica Betty Ford para recuperar-se de seu vcio por tranqilizantes, e a mudana para os Seattle Chinooks, Luc estava de volta e em melhor forma que nunca.
       Aquela temporada tinha algo que demonstrar. Havia tornado a exibir as qualidades que lhe tinham levado a ser um dos melhores. Luc dispunha de um indescritvel sexto sentido, o qual lhe permitia intuir segundos antes a jogada que aconteceria, e se no podia deter o lanamento com suas velozes mos, sempre usava o recurso da fora bruta e a algum movimento tirado da manga.
       Quando acabou o treinamento, Luc vestiu um bermuda e uma camiseta e foi ao ginsio. Ficou montado na bicicleta ergomtrica quarenta e cinco minutos antes de passar para os pesos. Durante uma hora e meia, trabalhou os braos, o peito e o abdmen. Os msculos de suas pernas e das costas ardiam e o suor escorregava pelas tmporas enquanto tomava ar sem parar para pensar na dor.
       Tomou uma lenta ducha, atou uma toalha ao redor da cintura e depois se dirigiu aos vesturios. Ali estavam outros garotos, atirados sobre cadeiras e banquinhos, escutando o que Gamache lhes dizia.
       Virgil Duffy tambm se encontrava na metade da sala, e comeou a falar a respeito da venda de entradas. Aquilo, disse-se Luc, no tinha nada que ver com seu trabalho. Seu trabalho consistia em manter a placar a zero e ajudar que a equipe ganhasse partidas. Assim, ele cumpria com sua misso.
       Luc apoiou um ombro nu contra o marco da porta. cruzou os braos, e posou o olhar na mulher baixa que tinha visto antes. Estava junto a Duffy, e Luc a estudou. Era uma dessas mulheres naturais que optam por no se maquiar. Suas sobrancelhas negras eram a nica nota de cor em seu plido rosto. As calas negras e a jaqueta no deixavam entrever forma alguma, ocultando todo indcio de curvas. De um de seus ombros pendurava uma bolsa de pele, e na mo carregava um copo de papel do Starbucks.
       No era feia, a no ser extremamente... simples. Alguns homens gostavam das mulheres de ar natural. Luc no. Gostava que as mulheres  pintassem os lbios, cheirassem a ps de maquiagem e depilassem as pernas. Gostava das mulheres que se esforavam por ter bom aspecto. E aquela no se esforava absolutamente, isso saltava  vista.
Sem dvida esto cientes de que o reprter Chris Evans se ausentou por ordens mdicas. Em seu lugar, Jane Alcott escrever as crnicas de nossas partidas em casa explicou o dono da equipe, e tambm viajar conosco o resto da temporada.
       Os jogadores permaneceram em silncio, desconcertados. Ningum disse uma palavra, mas Luc sabia que estavam pensando o mesmo que ele: que prefeririam receber um golpe do disco a que um cronista esportivo, e menos ainda uma mulher, viajasse com a equipe.
       Os jogadores olharam para seu capito, Mark Assassino Bressler, depois centraram sua ateno nos treinadores, que tambm permaneciam em silncio. Esperavam que algum dissesse algo, que lhes resgatassem daquele pesadelo baixinho e de cabelo escuro que lhe grudariam como um marisco.
Bom, no acredito que seja boa idia disse finalmente o Assassino, mas um olhar aos gelados olhos cinzas do Virgil Duffy lhe fez calar.
       Ningum mais se atreveu a abrir a boca.
       Ningum exceto Luc Martineau. Respeitava Virgil. Inclusive gostava dele um pouco. Mas Luc estava jogando a melhor temporada de sua vida. Os Chinooks tinham o ttulo de liga ao alcance da mo, e no estava disposto a deixar que uma jornalista jogasse tudo a perder. J tinham escrito muitas coisas ms sobre ele.
Com todos meus respeitos, senhor Duffy, voc perdeu o juzo? perguntou afastando-se da parede.
       Quando estavam viajando, aconteciam certas coisas que no desejava que todo o pas pudesse ler durante o caf da manh. Luc era mais discreto que alguns de seus companheiros, mas a ltima coisa que precisava era uma reprter viajando com eles.
       E, por outra parte, tambm terei que ter em conta o fator m sorte. Algo que se sasse da norma podia enviar ao esgoto sua boa sorte. E que uma mulher viajasse com eles era, claramente, algo fora da norma.
Entendo seus receios, meninos disse Virgil Duffy, mas depois de pensar muito, e de que tanto o Times como a senhorita Alcott me deram sua palavra, posso lhes assegurar que tero intimidade. As reportagens no se misturaro em sua vida privada.
Idiotices, pensou Luc, mas no se incomodou em gastar saliva expressando-o. Ao apreciar a determinao no rosto do proprietrio da equipe, soube que discutir carecia de sentido. Luc tinha que aceit-lo.
Bom, ser melhor que prepare a senhorita para a linguagem rude lhe advertiu Luc.
       A senhorita Alcott centrou sua ateno nele. Seu olhar foi direto e firme. Elevou um dos cantos da boca, como se lhe tivesse surpreendido o comentrio.
Sou jornalista, senhor Martineau -replicou com um tom de voz mais sutil que seu olhar, uma estranha mescla de suave feminilidade e determinao. Sua linguagem no vai incomodar-me.
       Ofereceu-lhe um sorriso desafiante e se encaminhou para sua bilheteria ao fundo do vesturio.
 voc a mulher que escreve essa coluna sobre como encontrar casamento? perguntou Vlad Empalador Fetisov.
Escrevo a coluna Solteira na cidade no Times respondeu.
Pensei que se tratava de uma mulher oriental comentou Bruce Fish.
No, s a mo que pesou um pouco com o delineador de olhos explicou a senhorita Alcott.
       Deus santo, nem sequer era uma autntica cronista esportiva. Luc tinha lido sua coluna algumas vezes, ou ao menos tinha tentado. Escrevia sobre seus problemas, e os de suas amigas, com os homens. Era uma dessas mulheres que gostavam de falar de relaes e aventuras, como se tudo tivesse que ser analisado uma e outra vez. Como se, em qualquer caso, a maior parte dos problemas entre homens e mulheres no fossem simples e sinceramente uma inveno destas ltimas.
Com quem compartilhar habitao enquanto estivermos viajando? perguntou algum da esquerda, e uma onda de risadas relaxou a tenso.
       A conversao se separou do tema da senhorita Alcott para centrar-se na anlise das seguintes quatro partidas, que tinham que disputar em s oito dias.
       Luc recolheu a toalha do cho e a meteu em sua bolsa de lona. Virgil Duffy estava senil, pensou Luc enquanto deixava a cueca branca e a camiseta sobre o banquinho. Ou isso, ou o divrcio pelo que estava passando havia o tornado louco. Aquela mulher provavelmente no entende uma s palavra de hquei. O mais certo era que queria escrever a respeito de sentimentos e problemas de casal. Bom, podia interrog-lo a respeito at que ficasse com o rosto cansado de tanto falar, que ele no ia soltar nada. Depois dos problemas do ltimo ano, Luc j no respondia s perguntas dos jornalistas. Nunca. Que viajasse com eles no ia fazer que trocasse de idia.
       Vestiu a cueca dando as costas  senhorita Alcott, e a olhou por cima do ombro antes de vestir a camiseta. Pilhou-a olhando os sapatos. No era nada novo a presena de mulheres jornalistas nos vesturios. Se a uma mulher no se importava de entrar em uma habitao repleta de homens desbocados, pelo geral seus companheiros estavam acostumados a comportar-se bem com ela. Mas a senhorita Alcott parecia to incmoda como uma velha tia solteirona e virgem. Embora ele soubesse bem pouco de virgens.
       Acabou de se vestir embainhando uns gastos Levi's e um grosso pulver azul. Depois colocou os ps em suas botas negras e colocou o Rolex de ouro no pulso. O relgio tinha sido um presente pessoal de Virgil Duffy depois da assinatura do contrato. Um pequeno detalhe para selar o negcio.
       Luc vestiu sua jaqueta de couro, agarrou a bolsa de lona e se encaminhou ao escritrio do clube. Ali verificou a folha que indicava o itinerrio dos seguintes oito dias e esteve falando um momento com o encarregado do escritrio para assegurar-se de que recordava que ele queria um quarto individual. Durante a ltima estadia em Toronto, compartilhou habitao com o Rob Sutter. Pelo geral, Luc dormia poucos segundos depois de meter-se na cama, mas Rob roncava como uma serra eltrica.
       Luc saiu das instalaes depois do meio-dia, ouvindo o eco de seus passos contra as paredes de concreto enquanto se dirigia  sada. Uma vez fora, a nvoa lhe golpeou o rosto e se introduziu pelo pescoo de sua jaqueta. No parecia que fosse chover, mas era um dia triste e lgubre. O tipo de clima que acostumava imperar em Seattle. Essa era uma das razes pelas quais gostava de jogar fora da cidade, mas no a mais importante. A mais importante era a paz que lhe proporcionava o fato de estar viajando. Embora desta vez tinha um mau pressentimento a respeito: essa paz se via ameaada pela presena da mulher que se encontrava nesses momentos a poucos passos dele, com a bolsa pendurada do ombro.
       A senhorita Alcott estava envolta em um pouco parecido a um indescritvel impermevel apertado  cintura por um cinturo. Era comprido e negro, e o vento da baa fazia ondear as abas. Na mo segurava ainda o copo de papel do Starbucks.
O vo das seis da manh para Phoenix  terrvel disse ele enquanto caminhava em direo ao estacionamento. No se atrase. Seria vergonhoso se o perdesse.
Estarei l respondeu ela quando passou por seu lado. No quer que eu viaje com a equipe, verdade? Deve-se a fato de que sou uma mulher?
       Ele se deteve, se voltou e a encarou. A modesta brisa fazia bater as lapelas do impermevel de Jane, e tambm fez que vrias mechas de sua rabo-de-cavalo se soltassem para ir parar em suas rosadas bochechas. Depois de uma anlise mais detalhada, podia comprovar-se que isso no melhorava muito seu aspecto.
       No. Eu no gosto dos jornalistas respondeu.
        compreensvel, suponho, tendo em conta sua histria.
       Sem dvida, tinha lido sobre ele.
       Que histria?
       Perguntou-se se teria lido aquele maldito livro, Os meninos maus do hquei, no que lhe tinham dedicado cinco captulos, com fotografias e tudo. Mais ou menos a metade do que o autor afirmava ali eram puras fofocas ou simples invenes. E o nico motivo pelo qual Luc no tinha lhe denunciado era que no queria atrair a ateno dos meios.
Sua histria com a imprensa. Jane bebeu um gole de caf e encolheu os ombros. O onipresente seguimento de seus problemas com as drogas e as mulheres.
       Efetivamente, tinha-o lido. E quem demnios utilizava palavras como onipresente? S os jornalistas.
Para sua informao, direi que nunca tive problemas com as mulheres. Onipresentes nem de qualquer outro tipo. Deveria se informar melhor em lugar de acreditar tudo o que dizem.
       Ao menos, respeito a questes delitivas. E seu vcio com tranqilizantes era coisa do passado. Onde ele desejava que ficasse para sempre.
       Luc percorreu com o olhar o cabelo recolhido de Jane, a perfeita pele de seu rosto, e baixou para o resto de seu corpo, embainhado naquele horroroso impermevel. Talvez se tivesse usado o cabelo solto no teria parecido to estirada.
Tenho lido algumas de suas colunas do peridico disse elevando a vista para seus olhos verdes. Voc  a solteira que se queixa da falta de compromisso e que no consegue encontrar  um homem de verdade.
       Ela franziu ligeiramente a sobrancelha e endureceu o olhar.
Te vendo, posso entender seus problemas arrematou ele sem mover um s msculo.
       Bem. Possivelmente assim ela se mantivesse  distncia.
       J no toma nada, est limpo? perguntou Jane.
       Luc sups que, se no respondesse, ela imaginaria certas coisas. Sempre era assim.
       Totalmenterespondeu.
Srio? Jane ergueu as sobrancelhas, que formaram uns arcos perfeitos, lhe dando a entender que punha em dvida suas palavras. 
       Ele deu um passo para ela.
Quer ver como mijo em seu copo de caf? perguntou com o olhar aceso, cabreado, frente a aquela mulher que certamente no tinha feito amor em cinco anos.
       No, obrigado, eu gosto do caf puro.
       Se no estivesse tratando de um jornalista, Luc teria apreciado por uns segundos a acuidade de sua rplica, mas tinha-o  agradado a provocao, gostasse ou no de admiti-lo.
Se trocar de opinio, faa-me saber resmungou Luc. E no creia que o fato de que Virgil Duffy te tenha apresentado aos meninos vai fazer que seu trabalho seja mais fcil.
       O que quer dizer com isso?
Entenda do jeiro que quiser o que quero dizer respondeu ele enquanto se afastava.
       Caminhou o curto trecho que o separava do estacionamento e encontrou sua Ducati cinza em seu lugar, junto aos lugares para deficientes. A cor da motocicleta casava  perfeio com as densas nuvens que penduravam sobre a cidade e tambm com o sombrio estacionamento. Colocou a bolsa na parte traseira da moto e se sentou no assento negro. Com o salto de sua bota apertou a alavanca de arranque e ps em marcha o motor de dois cilindros. No dedicou um s pensamento mais  senhorita Alcott e saiu com toda pressa do estacionamento, deixando atrs de si o rugido do motor. Entrou na Broad, deixando para trs o bar Tini Bigs, caminho da Second Avenue. Depois de umas quantas volta, entrou no estacionamento comunitrio do complexo residencial que vivia e deixou a motocicleta junto a seu Land Cruiser.
       Consultou a hora em seu relgio e agarrou a bolsa pensando que se dispunha a confrontar trs horas de calma. Disse para si mesmo que talvez poderia pr a fita de alguma partida no vdeo e relaxar em frente  enorme tela de seu enorme televisor. Talvez poderia chamar a alguma amiga e ficar para comer. Certa ruiva de pernas longas lhe veio  mente.
       Saiu do elevador no andar dezenove e percorreu o corredor at a esquina nordeste do edifcio. Tinha comprado aquele piso pouco depois de fechar pelos Chinooks, o vero anterior. No lhe tinha apaixonado o interior pois recordava s decoraes da velha srie de desenhos animados Os Supersnicos: pedra, ao e esquinas arredondadas, mas as vistas... As vistas eram impressionantes.
       Abriu a porta e seus planos para o dia se vieram abaixo quando tropeou com uma mochila North Face de cor azul que descansava sobre o carpete. No sof de pele cor azul marinho, um agasalho impermevel vermelho, e ainda por cima de uma das mesinhas de cristal, vrios anis e braceletes amontoados. No aparelho de som rugia msica rap e Shaggy se movia sem parar na tela do televisor do Luc, sintonizada na MTV.
       Marie. Tinha chegado antes do previsto.
       Luc percorreu o corredor e deixou a mochila e sua prpria bolsa sobre o sof. Bateu na porta do primeiro dos trs dormitrios, e abriu. Marie estava estendida sobre a cama, com o curto cabelo escuro recolhido no alto da cabea formando uma espcie de espanador. Tinha restos de nata sob os olhos e suas bochechas estavam plidas. Abraava um ursinho de pelcia contra seu peito.
       O que est fazendo em casa? perguntou-lhe.
       Tentaram te chamar do colgio. No me encontro bem.
       Luc entrou no quarto e se aproximou de sua irm de dezesseis anos, feita um novelo sobre o edredom. Sups que chorava porque se lembrava outra vez de sua me. Tinha passado s um ms do funeral, e pensou que tinha que dizer algo para consolar Marie, embora no sabia realmente o que dizer, e estava convencido de que sempre que o tentava as coisas pioravam.
Pegou gripe? acabou perguntando. A semelhana da garota com sua me, ou pelo menos com o  que lembrava dela, era impressionanante.
       No.
       Resfriou-se?
       No.
       O que aconteceu ento?
       Sinto-me mau, isso  tudo.
       Luc acabara de fazer dezesseis anos quando a quarta esposa de seu pai tinha dado a luz a Marie. Alm de alguma ou outra visita durante as frias, Luc nunca tinha passado muito tempo com ela. Eles viviam em Los Angeles e ele no outro extremo do pas. Tinha estado muito ocupado, com as questes relativas  sua prpria vida, at que ela fosse viver com ele, no ms anterior, no havia tornado a v-la depois do funeral de seu pai, fazia dez anos. E de repente era o responsvel por uma irm que nem sequer conhecia. Era o nico parente prximo que ainda no tinha alcanado a idade da aposentadoria. Era jogador de hquei. Solteiro. Homem. E no tinha nem a mais remota idia do que poderia fazer com ela.
       Quer um pouco de sopa? perguntou.
       Marie encolheu de ombros.
       Por que no respondeu entre soluos.
       Aliviado, Luc saiu rapidamente do quarto rumo  cozinha. Tirou uma lata grande de caldo de frango do armrio e a colocou sob o abridor de latas automtico que havia na mesa de mrmore negro. Sabia que a garota estava passando por um mau momento, mas, por todos os demnios, estava-o deixando louco. Quando no chorava, estava amuada. Quando no estava amuada, tratava-o como se fosse um atrasado mental.
       Luc verteu a sopa em duas tigelas e acrescentou gua. Tinha-lhe proposto que visse um psiclogo, e assim o tinha feito durante a enfermidade de sua me, mas Marie acreditava que j tinha tido o bastante.
       Introduziu as tigelas no microondas e programou o relgio. Alm de lhe enlouquecer, ter em casa uma garota adolescente e temperamental tinha afetado seriamente sua vida social. Ultimamente, s desfrutava de tempo para si mesmo quando saa de viagem. Algo tinha que mudar. A situao no era a adequada para nenhum dos dois. Viu-se obrigado a contratar uma mulher para que ficasse em casa com Marie quando ele estava fora. Seu nome era Glria Jackson e rondava os sessenta. Marie no gostava, mas isso no era nada novo.
       O mais conveniente era encontrar um bom internato para Marie. Ali seria feliz, convivendo com garotas de sua idade que soubessem de maquiagem e de penteados e que gostassem de escutar msica rap. Luc sentiu uma pontada de culpa. Suas razes para envi-la a um internato no eram de tudo altrustas. Queria recuperar sua antiga vida. Isso talvez lhe fizesse parecer um maldito egosta, mas tinha trabalhado muito duro para desfrutar daquele tipo de existncia. Para conseguir elevar-se sobre o caos e alcanar uma relativa calma.             
       Necessito de um pouco de dinheiro.
       O comentrio fez que Luc afastasse a vista das tigelas que davam voltas dentro do microondas e olhasse pra sua irm, que estava apoiada contra o marco da porta da cozinha. J tinham falado a respeito da conta corrente especial em seu nome.
Quando vendemos a casa de sua me e lhe demos alta na Segurana Social...
       Preciso do dinheiro hoje o interrompeu. Agora mesmo.
	Luc tirou sua carteira do bolso posterior da cala.
       Quanto necessita?
       Uns sete ou oito dlares.
       Sete ou oito?
       Digamos dez, para ter certeza.
       Luc sentiu curiosidade e tambm pensou que devia pergunt-lo, assim disse:
       Para que necessita o dinheiro?
       No tenho a gripe disse ela, ruborizando-se.
       O que tem , ento?
Tenho clicas e no tenho nada. Baixou a vista para os ps cobertos por meias trs-quartos. No conheo nenhuma garota do colgio a quem lhe pedir, e j era muito tarde para ir  enfermaria. Por isso vim a casa.
       Muito tarde para que? Do que est falando?
Tenho clicas e no tenho... Marie ruborizou ainda mais.Absorventes. Procurei em seu lavabo, porque pensei que talvez alguma de suas namoradas poderia ter deixado algum. Mas no tem nenhum.
       A campainha do microondas soou justo no momento em que Luc entendeu o problema de Enjoe. Abriu a portinhola e queimou os dedos ao deixar as tigelas de sopa sobre a mesa.
Oh. Tirou duas colheres de uma gaveta e, como no sabia o que dizer, perguntou: Quer bolachas salgadas?
       Sim.
       De algum modo, no lhe tinha parecido uma garota o suficientemente grande. Acaso as garotas comeavam a ter a menstruao a partir dos dezesseis? Supunha que devia ser assim, mas nunca tinha pensado nisso. Tinha crescido como um filho nico, e seus pensamentos sempre tinham estado relacionados com o hquei.
Quer uma aspirina? Uma das mulheres com as que tinha sado tomava seus analgsicos quando tinha dores menstruais. Ao record-la, Luc se deu conta de que o dinheiro e seu vcio tinha sido a nica coisa que compartilharam.
       No.
Iremos ao supermercado depois de comer disse. Necessito de desodorante.
       Ela elevou a vista finalmente, mas no se moveu.
       Tem que ir agora?
       Sim.
       Ele a observou; parecia incmoda e envergonhada. A culpa que tinha sentido minutos antes se viu aliviada. Envi-la a um lugar no qual poderia viver com garotas de sua idade era, claramente, o mais adequado. Em um internato para garotas estariam  corrente de clicas menstruais e outras questes femininas.
       Vou apanhar as chaves disse Luc.
       S teria que encontrar o momento adequado para expor sua idia sem que soasse como se pretendesse livrar-se dela.















2

Intercambio de cumpridos

O que disse? perguntou Caroline Maom quando se dispunha a levar-se a boca uma parte de frango.
Vou me encarregar de escrever as crnicas das partidas dos Chinooks. Viajarei com eles repetiu Jane atendendo  amizade que as unia da infncia.
       A equipe de hquei?
       Caroline trabalhava no Nordstrom's vendendo aquilo do qual era uma completa viciada: sapatos. A primeira vista, Jane e ela eram diametralmente opostas. Era alta, loira, de olhos azuis, pouco menos que um anncio andante de beleza e bom gosto. E seus caracteres tampouco eram muito parecidos. Jane era introvertida, em tanto que Caroline no guardava no tinteiro nenhum pensamento ou emoo. Jane comprava por catlogo. Caroline considerava os catlogos uma ferramenta do Demnio.
Sim, por isso estou nesta parte da cidade. Vim me encontrar com o dono da equipe.
       Aquelas duas amigas eram como o fogo e o gelo, como a noite e o dia, mas compartilhavam experincias e um passado que as mantinha profundamente unidas.
       A me do Caroline fugiu com um caminhoneiro e tinha ido aparecendo e desaparecendo de sua vida a cada certo tempo. Jane tinha crescido sem me. As duas garotas tinham vivido porta com porta na Tacoma, no mesmo desolado bloco de apartamentos. Eram pobres. No tinham onde cair mortas. Ambas sabiam o que era ir  escola calando sapatos de lona quando outros usavam de couro.
       As duas tinham crescido, e cada uma enfrentava ao passado a sua maneira. Jane cuidava do dinheiro como se sempre se tratasse do ltimo cheque de sua vida, entanto Caroline esbanjava enormes quantidades em sapatos de marca, como se fosse Imelda Marcos.
       Caroline deixou o garfo junto ao prato e levou uma mo ao peito.
Tem que viajar com os Chinooks e entrevistar os jogadores enquanto se despem?
       Jane assentiu e reps, enquanto enrolava no garfo macarro com queijo:
No melhor dos casos, no tiraro a cueca at que eu esteja fora do vesturio.
Est de brincadeira, verdade? Que outra razo poderia haver, alm de ver sujeitos pelados, para entrar em um vestirio fedorento?
       Entrevist-los para o peridico.
       Como j os tinha visto todos essa mesma manh, estava comeando a sentir um tanto de apreenso. A seu lado, tendo presente que ela media metro cinqenta e cinco, pareciam gigantes.
       Cr que se dariam conta se tirasse algumas fotografias?
Sem dvida. Jane riu. No so to tolos como poderia pensar.
Pois a verdade  que no me importaria ver uns jogadores de hquei nus.
       E uma vez que os tinha visto todos, v-los nus era um aspecto do trabalho que lhe preocupava. Tinha que viajar com esses homens. Sentar-se com eles no avio. No queria saber como eram sem roupa. S gostava de estar perto de um homem nu quando os dois o estavam. E embora para ganhar o po escrevia a respeito de explcitas fantasias sexuais, em sua vida cotidiana no se sentia cmoda ante a nudez descarada. No era como a mulher que escrevia a respeito de relaes e entrevistas amorosas na coluna do Times. E, em nenhum caso, parecia-se com o Bombomzinho de Mel.
Jane Alcott era uma impostora.
J que no poder tirar fotos disse Caroline enquanto cravava um pedao de frango de sua salada oriental, toma notas para mim.
Isso no  tico em um monto de sentidos reps Jane, e ento recordou o oferecimento do Luc Martineau de mijar em seu caf e se disse que, nesta ocasio, poderia deixar de lado a tica. Vi o traseiro de Luc Martineau.   
       Ao natural?
       Como sua me lhe trouxe para o mundo.
       Caroline se inclinou para diante.
       Como ?
Est bem. Jane recordou seus esculturais ombros e suas costas, a marca de sua coluna vertebral, e a toalha deslizando-se at seus ps, mostrando a redonda perfeio de suas ndegas. Muito bem, de fato.
       No podia neg-lo, Luc era um homem formoso, mas por desgraa sua personalidade deixava muito que desejar.
Droga suspirou Caroline, por que no terminei minha carreira? Poderia conseguir um trabalho como o seu?
       Muitas festas.
Oh, sim. Caroline permaneceu em silencio durante uns segundos, depois sorriu. O que precisa  uma ajudante. Por que no me contrata?
       O peridico no pagaria a uma ajudante.
V com calma. O sorriso desapareceu do rosto do Caroline, cujo olhar descendeu at a jaqueta de sua amiga. Ter que comprar roupa nova.
J o tenho feito disse Jane antes de levar um pedao de queijo  boca.
Quando digo nova refiro a algo um pouco mais atrativo. Sempre vai de negro ou cinza. As pessoas no demoraro para perguntar se est deprimida.
       No estou deprimida.
Talvez no, mas deveria vestir algo com um pouco de cor. Vermelhos e verdes, especialmente. Vais viajar durante toda a temporada com tipos grandes inflados de testosterona.  a oportunidade perfeita para fazer que um deles se fixe em voc.
       Jane viajaria por trabalho. No queria atrair a ateno de ningum. Especialmente de jogadores de hquei. Especialmente se todos eram como Luc Martineau. Quando declinou sua oferta referente ao caf, quase se ps a rir. Quase. Em lugar disso, disse: Se trocar de opinio, faa-me saber. S que no havia dito saber, e sim saberr. Era um idiota, e no tinha perdido todo seu acento canadense. A ltima coisa que queria ou precisava era chamar a ateno de tipos como ele. Refletiu em seu prprio aspecto, em suas calas negras e sua jaqueta negra e sua blusa cinza. Pareceu-lhe que tinha boa aparncia.
        do J. Crew.
       Caroline abriu desmesuradamente seus olhos azuis. Jane sabia o que diria a seguir: que J. Crew no era Donna Karan.
       Exato. De catlogo?
        obvio.
       E negro.
       J sabe que sou daltnica.
No  daltnica. O que acontece  que no distingue que cores casam.
        certo.
       Por isso gostava da cor negra. Tinha bom aspecto vestida de negro, e alm disso no corria o risco de desafinar.
Tem um corpo mido muito bonito, Jane. Teria que explor-lo, ensin-lo. Vem comigo ao Nordy's e te ajudarei a escolher algumas costuras.
Nem pensar. A ltima vez que a deixei escolher minha roupa,comecei a me parecer com o Greg Brady, s que menos gay.
Isso foi no sexto ano, e tnhamos que ir ao Goodwill para comprar roupa. Agora somos maiores e temos dinheiro. Ao menos, voc o tem.
       Sim, e tambm tinha um plano para investi-lo. Tinha pensado em um pouquinho de amor. Ou seja, nada de roupa de marca, e sim em comprar uma casa.
Eu gosto da roupa que uso disse como se no tivessem falado disso umas mil vezes antes desse dia.
       Caroline ps os olhos em branco e trocou de tema.                        
Eu conheci um rapaz.                                                            
       Pequena novidade. Desde que tinha passado a fronteira dos trinta anos na ltima primavera, o relgio biolgico do Caroline parecia haver ficado em marcha e ela no podia deixar de pensar que seus vulos estavam murchando. Resolveu que era o momento de casar-se, e como no desejava manter a Jane  margem, chegou  concluso de que as duas tinham que se casar. Mas o plano do Caroline tinha um problema. Jane estava convencida de que era uma espcie de m que atraa a tios dispostos a lhe romper o corao e trat-la mau, e de que os nicos homens capazes de excit-la e p-la a tom eram os idiotas, por isso tinha decidido comprar um gato e encerrar-se em casa. Mas estava em um beco sem sada. Se ficasse em casa, no tiraria de nenhum lado um novo material para sua coluna Solteira na cidade.
       Tem um amigo acrescentou Caroline.
O ltimo amigo com o que me fez sair conduzia uma caminhonete estilo assassino em serie com um sof na parte traseira.        
Sei, e no achou graa ler sua histria em sua coluna do Times.
Pior para ele. Era um desses tipos que pensa que porque escrevo a coluna estou  desesperada e sou uma brincalhona.
       Esta vez ser diferente.
       No.
       Talvez goste.
Esse  o problema. Se gostar, sei que me tratar como uma merda e depois me dar uma patada no traseiro.
Jane, rara vez deste algum a oportunidade de que te d uma patada no traseiro. Sempre tem um p na porta, esperando encontrar a desculpa adequada para sair.
       Caroline no era a mais adequada para lhe reprovar nada nesse sentido. Ela despachava os meninos por ser muito perfeitos.
       No saiu com ningum desde o Vinny disse Caroline.
       Sim, e olhe como foi.
       Tinha-lhe tirado dinheiro para comprar presentes a outra mulher. Por isso ela sabia, lingerie barata. Jane odiava lingerie barata.
Olha-o pelo lado bom disse Caroline. Depois de se liberar dele, estava to afetada que branqueou os azulejos do banheiro.
       Era um detalhe triste da vida do Jane, mas quando sofria um desengano amoroso e se sentia deprimida, ficava com mania de limpeza. Quando estava contente em troca, tinha certa tendncia a amontoar a roupa no armrio.
       Depois de comer, Jane deixou Caroline no Nordstrom's e conduziu at o Seattle Times. No dispunha de um escritrio prprio no peridico, pois seu trabalho neste se limitava a escrever uma coluna mensal. De fato, em contadas ocasies se aventurava dentro daquele edifcio.
       Havia ficado de falar com o editor de esportes, Kirk Thornton, quem nem sequer tinha tido que dizer a Jane o muito que o assustava deixar o trabalho de Chris em suas mos. Recebeu-a com frieza e apresentou aos outros trs cronistas esportivos, que no se mostraram mais calorosos que Kirk.  exceo de Jeff Noonan.
       Apesar de que raramente passava pelo Seattle Times, tinha ouvido falar de Jeff Noonan. As mulheres do jornal o chamavam o Perseguidor, e era pouco menos que um julgamento para um perseguidor sexual ambulante. No s acreditava que o lugar adequado para as mulheres era a cozinha, mas tambm estava convencido de que, dentro desta, o melhor era que se tombassem sobre a mesa. Pelo modo como a olhou ficou claro que a estava imaginando nua, e lhe sorriu como se algo assim pudesse faz-la sentir adulada. O olhar que lhe dedicou dava a entender que antes que ficar com ele preferia comer raticida.      

       O BAC-111 saiu do aeroporto de Seattle s seis e trinta e trs da manh. Poucos minutos depois, o reator atravessava a capa de nuvens e virava para a esquerda. O sol da manh entrou pelos guichs ovalados como se tratasse dos focos de um estdio. De repente, as sombras foram arrasadas pela aquela luz brutal, e um bom nmero de jogadores de hquei reclinaram seus assentos e se prepararam para as quatro horas que durava o vo. Um aroma que era mescla de loo ps-barba e colnia invadiu a cabine ao mesmo tempo em que o avio conclua a ascenso e adotava a horizontalidade.
       Sem afastar os olhos da folha de itinerrio que sustentava em seu regao, Jane elevou uma mo para regular o ar condicionado que tinha em cima de sua cabea. Estava totalmente concentrada na agenda da equipe. Observou que, em algumas ocasies os vos tinham a hora prevista de sada justamente depois das partidas, enquanto que outras vezes estavam programados para a manh seguinte. Mas  exceo das horas dos vos, o assinalado na agenda era sempre igual. A equipe treinava invariavelmente a vspera de cada partida e levava a cabo uns exerccios ligeiros no dia da mesma. Nunca variava.
       Deixou as folhas com o itinerrio de um lado e agarrou um exemplar do Hquei News. A luz da manh iluminou a seo de reportagens sobre as equipes da NHL. Deteve-se ao ler a coluna dedicada aos Chinooks. O titular dizia: Sua portaria, a chave do xito para os Chinooks.
       Durante as ltimas semanas, Jane tinha estudado as estatsticas da NHL. Familiarizou-se com os nomes dos jogadores dos Chinooks e com as posies em que jogavam. Leu todos os artigos relativos  equipe que pde encontrar, mas continuava sem o ter claro a respeito do jogo e dos jogadores. No tinha mais opo que lanar-se sem rede, esperando no parti-la  no intento. Necessitava do respeito e da confiana daqueles homens. Queria que a tratassem como a um cronista esportivo qualquer.
       Em sua maleta levava dois livros de inestimvel valor para ela: Hquei para principiantes e Os meninos maus do hquei. O primeiro explicava os rudimentos do jogo, no entanto o segundo falava do lado escuro deste e dos homens que o praticavam.
       Sem elevar a cabea, olhou com o passar do corredor, umas filas de assentos mais adiante. Observou a fileira de luzes de emergncia que percorria o carpete azul e se deteve nos mocasins de pele e nas calas cinzas de Luc Martineau. Desde a conversa que mantiveram no estdio Key, tinha investigado com mais interesse sua vida que a do resto dos jogadores.
       Tinha nascido e crescido no Edmonton, Alberta, Canad. Seu pai era canadense e se divorciou de sua me quando Luc acabava de cumprir os cinco anos. Os Houston Oilers tinham escolhido Luc na sexta posio do draft da NHL aos dezenove anos. Tinha sido transpassado a Detroit e, finalmente, a Seattle. Os dados mais interessantes a proporcionavam o livro Os meninos maus do hquei, que lhe dedicava cinco captulos inteiros. O livro explicava com todo detalhe as aventuras do goleiro, de quem dizia que tinha as mos to rpidas dentro como fora da pista. As fotografias mostravam a um bom nmero de atrizes e modelos entre seus braos, e embora nenhuma delas afirmava haver-se deitado com ele, tampouco o negavam.
       Seu olhar posou em sua enorme mos e seus largos dedos tamborilando sobre o brao do assento. Seu Rolex de ouro aparecia por debaixo da manga de sua camisa branca com raias azuis. Fixou-se em seus ombros e no perfil de suas altas mas do rosto e seu reto nariz. Usava o cabelo curto como um gladiador disposto a entrar em combate. Mesmo quando se dizia que s a metade do que dizia aquele livro que devia ser certo, mesmo assim Luc Martineau havia deixado um bom rastro de mulheres em todas as cidades pelas que tinha passado a equipe. A Jane surpreendia que no tivesse o aspecto de um esgotado doente terminal.
       Como o resto dos jogadores, naquela manh Luc tinha o aspecto de um homem de negcios ou de um investidor financeiro, mais do que de um jogador de hquei. J no aeroporto, Jane ser surpreendeu ao ver todos os membros da equipe vestidos com traje e gravata como se dispusessem a ir ao escritrio.
       Algo se interps em seu ngulo de viso. Jane elevou a vista e topou com o Rob Martelo Sutter. Com a cabea inclinada para no se golpear com o teto, parecia ainda mais temvel do que o habitual. Jane ainda no tinha memorizado as caras dos membros da equipe, mas Rob era um desses tipos que eram inesquecveis. Media mais de metro noventa, e pesava cem quilogramas de puros msculos intimidatrios. Nessa poca, luzia um entupido cavanhaque e um olho arroxeado. Tirou o terno, a gravata e arregaou a camisa. Seu cabelo castanho pedia a gritos um bom corte, e usava uma tira de esparadrapo na ponta do nariz. Deu uma olhada  maleta que Jane tinha deixado no assento contguo.
       Importa-te se me sento aqui durante um momento?
       Jane no queria admiti-lo, mas sempre a haviam posto nervosa os tipos muito corpulentos. Ocupavam muito espao e faziam que se sentisse pequena e vulnervel.
No..., no. Agarrou a maleta de pele e a colocou no cho, entre seus ps.
       Rob acomodou sua anatomia no assento e assinalou o peridico que Jane tinha nas mos.
       Tem lido o artigo que escrevi? Est na pgina seis.
       Ainda no.
       Jane procurou imediatamente a pgina seis e observou a foto do Rob Sutter durante uma partida. Tinha a cabea do jogador contrrio imobilizada com uma chave de jud e lhe estava golpeando a cara.
Esse sou eu dando um castigo ao Rasmussen em sua temporada de novato explicou Rob.
       Jane o olhou meio de lado, notando-se em seu olho arroxeado e seu nariz torto.                                                          
       Por que?                     
       Tinha metido trs gols.
       Acaso no  esse seu trabalho?
Claro, mas o meu era lhe tornar as coisas difceis. Rob encolheu de ombros. Conseguir que ficasse nervoso quando me visse se aproximar.
       Jane se disse que o mais prudente era guardar para si as opinies que lhe inspirava o trabalho de Rob.
       O que aconteceu a seu nariz? perguntou.
Passou muito perto de um stick. Rob assinalou ao peridico. O que acha? 
       Deu uma olhada ao artigo; parecia bastante bem escrito.
       -Acha que a manchete chama ateno do leitor?                 
       A manchete?
        como os jornalistas denominam o princpio.......
       Sabia o que era uma manchete.
Sou algo mais que um saco para esquentar os punhos leu em voz alta Pois sim, chamou minha ateno.
       Rob sorriu, mostrando uma formosa e branca fileira de dentes. Jane se perguntou quantas vezes os teriam arrancado e teria tido que rep-los.
Revisei isso vrias vezes disse. Pensei que, quando me aposentar, possivelmente me dedique a escrever artigos em tempo integral. Talvez possa me dar alguns conselhos.
       Introduzi-lo na profisso lhe pareceu muito mais simples do que fazer o que lhe pedia. Seu prprio curriculum no era precisamente brilhante, mas no queria desiludir a Rob lhe explicando a verdade.
       Ajudarei-o no que precisar.
Obrigado. Rob ficou afastou-se um pouco da cadeira apenas para tirar uma carteira do bolso traseiro de sua cala. Quando se sentou de novo, abriu-a e tirou uma fotografia. -Esta  Amlia disse ao tempo que lhe passava a fotografia de uma menina descansando sobre seu peito.
       Que pequenina. Que tempo tem?
       Um ms. No  a coisa mais bonita que viu alguma vez?
       Jane no tinha a inteno de discutir sobre esse tema.
        linda.
       Outra vez mostrando fotos de bebs?
       Jane ergueu a vista e topou com dois olhos claros que a olhavam por cima do assento da frente. O homem lhe passou uma foto.
        Taylor Lee disse. Tem dois meses.
       Jane observou a fotografia de um beb com to pouco cabelo como o tipo que a tinha passado, e se perguntou por que a gente dava por feito que todo mundo estava desejando ver as fotos de seus filhos. Ela no reconheceu o tipo que a olhava por cima do assento at que Rob lhe deu uma pista.
Est calvo como uma bola de bilhar, Fishy. Quando lhe vai sair um pouco de cabelo?
       Bruce Fish, que jogava de extremo, elevou-se sobre o assento e recuperou sua fotografia. A luz se refletia em sua calva, mas uma espessa barba lhe cobria a cara.
       Eu era calvo aos cinco anos, e era muito bonito.
       Jane se esforou para no evidenciar reao alguma. Bruce Fish podia ser muito bom controlando o disco, mas no era um homem atrativo.
       Tem filhos? perguntou a Jane.
No, nunca fui casada respondeu ela, por isso a conversao derivou para que jogadores dos Chinooks estavam casados e quais no e os quais tinham filhos. No era o que se diz uma conversao estimulante, mas aliviou sua preocupao respeito a que os jogadores a deixassem de lado.
       Devolveu a Rob sua fotografia e decidiu pr mos  obra. Queria lhes surpreender com sua investigao, ou como mnimo lhes demonstrar que sabia fazer seu trabalho.
Dada a idade e a carncia de jogadores cedidos, os Coiotes esto jogando melhor do que se esperava este ano disse, recitando o que acabava de ler. O que lhes preocupa especialmente da partida da quarta-feira?
       Ambos a olharam como se tivesse falado em uma lngua incompreensvel para eles. Latim, talvez.
       Bruce Fish se voltou e desapareceu depois do respaldo de assento. Rob guardou a fotografia em sua carteira.
       Aqui chega o caf da manh disse ficando em p.
       Martelo partiu, lhe deixando bem claro que embora era o suficientemente boa para falar de jornalismo e bebs, no o era para falar de hquei. E  medida que o vo prosseguia, lhe fez mais evidente que os jogadores fariam caso omisso dela.  exceo da breve conversa com o Bruce e Rob, ningum lhe dirigiu a palavra. Dava no mesmo; no poderiam eternamente. Teriam que lhe permitir entrar no vesturio e responder a suas perguntas. Acabariam falando com ela, se no queriam enfrentar-se a uma acusao de discriminao.
       No quis o po-doce nem o suco de laranja. Elevou o brao rgido entre os assentos, deslocou-se para o assento junto ao corredor, estendeu seus artigos e os livros, e depois tirou a jaqueta cinza de l. Centrou-se em tentar memorizar as infraes, quando se destacava pnalti e devido a que tipo de falta, e as sempre confusas indicaes arbitrais. Tirou um bloco de papel de notas adesivas de sua maleta, apontou toda uma srie de detalhes e pegou as notas dentro do livro.
       Fazer avanar seu trabalho e sua vida mediante nota adesivas no era a maneira mais eficiente de conseguir que as coisas funcionassem, mas tinha provado com mtodos mais organizados, um programa para seu ordenador porttil, por exemplo, e tinha acabado tomando notas para saber o que era o que tinha que escrever nele. Comprou uma agenda, que utilizava habitualmente, mas nas pginas de cada dia s havia notas adesivas.
       No ano anterior se comprou um computador de bolso, mas no conseguiu acostumar-se. Sem suas notas adesivas, havia sentido algo similar a um ataque de ansiedade, o que a levou a vender aquele aparelho a um amigo.
       Apontou os termos do jogo que lhe eram desconhecidos, pegou as notas no livro e a seguir olhou para a fila de Luc. As mos de este descansavam aos lados de um copo de suco de laranja que havia sobre a bandeja. Procedeu a abrir com seus largos dedos uma bolsinha de aperitivos.
       Algum pronunciou seu nome e Luc se voltou. Seu olhar se posou em algum ponto detrs do Jane, e riu devido a uma piada que ela no captou. Sua dentio era branca e regular, e seu sorriso podia fazer que uma mulher pensasse em muitssimos pecados. Depois a olhou e Jane se esqueceu daquela dentio. Com olhos inexpressivos, ele prosseguiu seu escrutnio descendendo por seu rosto e seu pescoo at a metade de sua blusa branca. Por alguma inquietante razo, Jane deixou de respirar enquanto ele fixava o olhar naquele ponto. O instante se fez eterno, estendendo-se entre eles at que o sobrecenho do Luc se converteu em uma linha reta. Ento, sem elevar a vista, voltou o olhar pra frente. Jane soltou o ar. De novo teve a sensao de que tinha sido julgada e declarada culpada por Luc Martineau.
       No momento no qual o avio tocou a terra, a temperatura no Phoenix era de 23 graus e brilhava o sol. Os jogadores de hquei se ataram as gravatas, vestiram as jaquetas e saram em direo ao nibus. Luc esperou que Jane Alcott passasse por seu lado para levantar-se e sair ao corredor. Enquanto vestia sua jaqueta Hugo Boss, estudou-a.
       Levava a jaqueta de l pendurada no mesmo brao no qual levava uma grande maleta cheia de livros e peridicos. Tinha o cabelo recolhido em um tenso rabo-de-cavalo que lhe roava os ombros ao caminhar. Era muito baixa (apenas chegava ao seu queixo) e, atravs do aroma de colnia e loo ps-barba, percebeu um certo perfume floral.
       De repente a maleta se chocou contra o respaldo de um assento e Jane deu um tropeo. Luc a agarrou pelo brao para evitar que casse, mas a maleta se abriu e os peridicos e os livros foram dar ao cho. Ele a soltou e se ajoelhou a seu lado no estreito corredor, recolheu o livro sobre as regras oficiais da NHL e Hquei para principiantes.
No sabe muito de hquei, no  mesmo? disse ao lhe passar os livros. As pontas de seus dedos se roaram e ela o olhou.
       O rosto de Jane se encontrava a escassos centmetros do seu, por isso pde estud-la com ateno. Tinha uma cutis perfeita e um leve rubor tingia suas suaves bochechas. Seus olhos eram da cor da erva no vero, e pde apreciar as finas linhas das lentes de contato nos extremos de sua ris. Se no se tratasse de uma jornalista que em seu primeiro encontro no lhe tivesse perguntado se tinha deixado as drogas definitivamente, possivelmente tivesse pensado que no era de tudo feia. Inclusive possivelmente tivesse chegado a pensar que no estava mau. Possivelmente.
Sei o suficiente respondeu enquanto afastava sua mo e colocava os livros no bolso dianteiro da maleta.
No me cabe a menor duvida. Luc separou uma das notas da joelheira de sua cala. Nela podia ler-se: Que demnios  marcao ao homem? Agarrou-a pelo pulso e lhe deixou a nota na palma da mo. Parece como se realmente soubesse tudo.
Ficaram em p e lhe agarrou a maleta.
Posso com ela ---protestou Jane ao tempo que metia a nota no bolso da cala.
       Deixa que lhe leve isso.
Se est tentando ser amvel, deve saber que j  tarde.
No quero ser amvel. O que quero  sair daqui antes que o nibus parta.
Oh. Ela abriu a boca para dizer algo mais, mas a fechou imediatamente. Percorreram o corredor, Jane com uma energia que revelava sua agitao. Uma vez dentro do nibus, sentou-se junto ao diretor esportivo. Luc deixou a maleta sobre seu colo e se foi  parte de trs.
       Rob Sutter se aproximou de Luc quando este se sentou.
       Oua, Luckydisse Rob, no te parece bonita?
       Luc percorreu as fileiras de assentos com o olhar at ver a cabea de Jane e as mechas soltas de seu rabo-de-cavalo. No era feia, mas distante de ser seu tipo. Atraam-lhe as mulheres do tipo Barbie, com pernas longas e peito abundante, longas cabeleiras e os lbios pintados de vermelho. Mulheres s que gostavam de satisfazer aos homens e no esperavam mais que sua prpria satisfao. Sabia o que se dizia dele, mas no lhe importava muito. Jane tinha uma bonita pele e seu cabelo estaria melhor se no o estirasse daquele modo, mas seus seios eram pequenos.
       A imagem da blusa branca de Jane cruzou sua mente. Voltou-se para responder a algo que lhe tinha perguntado Vlad Fetisov e, pela primeira vez da decolagem, precaveu-se de sua presena. Fixou-se ento nos dois pontos que se marcavam em sua blusa de seda. Por um instante se perguntou se teria frio ou estaria excitada.
       No especialmente respondeu a Rob.
Achas que  verdade que se deitou com o Duffy para conseguir o trabalho?
        isso o que dizem os meninos?
       Com ele e com seu amigo do Seattle Times.
       A idia de uma moa como Jane dormindo com dois velhos para conseguir um trabalho lhe revolveu o estmago. No entendia por que lhe incomodava algo assim, e com um encolhimento de ombros separou de sua mente Jane e qualquer pensamento a respeito de com quem poderia ou no haver-se deitado ela.
       Estava esperando uma importante chamada de seu representante, Howie. Howie vivia em Los Angeles e tinha seus trs filhos internados em uma escola ao sul de Califrnia. Quanto mais pensava nisso, mais convencido estava Luc de que um internato em Califrnia era a soluo perfeita para Marie, que tinha vivido no sul desse estado durante a maior parte de sua vida. Para ela seria como voltar para lar. Estaria contente e ele recuperaria sua vida de antes. Todos sairiam ganhando.
       Os Chinooks se registraram no hotel as onze da manh, comeram algo e as duas j estavam na pista de gelo do America West Arena para treinar. A equipe estava duas semanas sem perder uma s partida, e Luc j tinha detido cinco pnaltis nessa temporada. A equipe no tinha constitudo uma autntica ameaa para seus rivais na retirada de seu antigo capito, John Kowalsky. Esse ano a coisa era diferente: estavam em plena forma.
s quatro, os Chinooks estavam de volta ao hotel. Luc subiu no elevador para ir ao seu quarto e chamou por telefone a uma amiga. Duas horas depois, saiu do elevador no trreo disposto a desfrutar da vida enquanto pudesse faz-lo.
       Conheceu Jenny Davis em um vo da United a Denver. Serviu-lhe um copo de soda com limo e um pacote de amendoins no qual tinha posto seu nome e seu nmero de telefone. Disso fazia trs anos, e sempre se viam quando ele estava em Phoenix ou ela passava por Seattle. A situao era satisfatria para ambos. Ele a satisfazia. Ela o satisfazia.
       Essa noite se encontrou com Jenny no vestbulo do hotel e foram juntos ao Durant'S. Ali Luc comeu seu habitual jantar antes das partidas: costeletas de cordeiro, salada Csar e arroz selvagem.
       Depois de jantar, Jenny o levou a sua casa, na Scottsdale, onde lhe ofereceu sua sobremesa especial. Conduziu-lhe de volta ao hotel na hora do toque de silncio. Luc adorava sua vida quando estava de viagem. J no hotel, sentia-se totalmente tranquilo, preparado para enfrentar os Coiotes na noite seguinte.
       Conversou durante um momento com seus companheiros no bar do hotel, depois foi a seu quarto. Estava um tanto preocupado por seu joelho direito, por isso agarrou o vasilhame que havia em cima do televisor e percorreu o corredor at a mquina de gelo. Apenas tinha dado a volta para retornar a seu quarto quando viu o Jane Alcott introduzindo umas moedas na mquina de barras de chocolate. Usava o cabelo recolhido no alto da cabea, com algumas mechas soltas. Deu um passo para frente e apertou o boto escolhido; um pacote de M&M's caiu na cesta metlica da mquina.
       Encaminhou-se para seu quarto e ento pde apreciar o traseiro redondo de Jane, com duas vaquinhas estampadas. De fato, havia vaquinhas por todo seu pijama azul. Era de uma s pea. Voltou-se e Luc teve que enfrentar-se a um horror superior ao que implicavam as vaquinhas do pijama: luzia uns culos de armao negra. Os culos eram pequenos e quadrados, e se supunha que lhe davam certo ar de feminista militante. Eram verdadeiramente desagradveis.
       Ao v-lo, Jane abriu os olhos como pratos e ficou sem flego.
       Acreditava que a estas horas j estavam na cama disse.
       Luc no imaginava que uma mulher pudesse parecer to pouco sexy.
O que  isto? perguntou ele apontando com o vasilhame para ela. Prometeu a voc mesma fazer todo o possvel para no voltar a se deitar com algum na vida?
       Ela franziu o sobrecenho.
Talvez se surpreenda, mas estou aqui para trabalhar, no para ir para a  cama com o primeiro que cruzar meu caminho.
Certo, Ok. Luc recordou sua conversao com Sutter e se perguntou se teria deitado com o velho Virgil Duffy para conseguir o trabalho. Tinha ouvido histrias relativas  debilidade de Virgil por mulheres bastante jovens para serem suas netas. De fato, quando Luc se transladou a Seattle, Sutter lhe disse que em 1998 Virgil tinha estado a ponto de casar-se com uma jovenzinha, mas que esta tinha recuperado a prudncia no ltimo momento e o deixou plantado no altar. Luc no estava acostumado a levar em considerao as intrigas e no sabia quanto de certo havia naquela histria. Simplesmente, no podia imaginar Virgil no papel de caa jovens. Duvido muito que encontrasse um pouco de ao com essa aparncia.
       Jane abriu a bolsa dos doces.
Ao que me parece, voc no tem problemas para encontrar ao, Lucky.  Luc no gostou do modo em que pronunciou Lucky, mas no lhe pediu explicaes. Ela as deu de todos os modos. Te vi partir com a loira. Pelo que pude ver, eu diria que  aeromoa. 
       Luc seguiu caminho da mquina de gelo e fez o gesto de tirar o chapu.
        minha prima de segundo grau.
       Jane no deu a impresso de acreditar, mas no importou o mnimo.
       Ela acreditaria no que lhe desse vontade e escreveria aquilo que servisse para vender mais peridicos.
       Para que quer o gelo? Preocupam-se com os joelhos?
       Era muito esperta.
       No.
       -Quem  Gump Worsley? perguntou Jane.
       Gump era uma lenda do hquei, pois tinha jogado mais partidas que ningum como goleiro. Luc admirava suas estatsticas e sua dedicao. Anos atrs, Luc tinha escolhido o nmero de Gump como amuleto da sorte. No se tratava de um grande segredo.
Esteve lendo sobre mim outra vez? perguntou enquanto colocava o gelo no balde. Sinto-me muito lisonjeado acrescentou, mas no se esforou para que suas palavras soassem convincentes.
No h por que.  meu trabalho. -Jane meteu um M&M's na boca, e ao ver que Luc no dizia nada, insistiu: No vai responder a minha pergunta?
       No.
       Ela no ia demorar para entender que nenhum dos moos ia se mostrar cooperativo. Tinham falado e tinham esboado um plano para confundi-la e tir-la do srio. Talvez desse modo retornasse pra casa. Fora do vestirio, mostrariam-lhe fotografias de seus filhos e falariam de algo exceto do que ela desejava ferreamente falar: o hquei. Dentro do vestirio, colaborariam o somente para no serem acusados de discriminao sexual, mas isso seria tudo. Luc no acreditava muito na eficcia do plano. Estava convencido de que lhe tiraria do srio, mas isso no a levaria a voltar para casa. No, depois de falar com ela durante alguns minutos, disse-se que poucas coisas poderiam nocautear a senhorita Alcott.
Entretanto, direi algo. Luc se separou da mquina de gelo e sussurrou a seu ouvido quando passou por seu lado: Segue procurando, porque a histria de Gump  muito interessante.
Procurar tambm faz parte do meu trabalho, mas no se preocupe. No estou interessada em seus pequenos segredos sujos disse a suas costas.
       Luc j no tinha segredos sujos que guardar. Embora houvesse certos detalhes de sua vida pessoal que preferia que no aparecessem nos peridicos; por exemplo, que tinha diferentes amigas em cidades, embora semelhante informao no daria para grandes titulares.  maioria das pessoas a traria sem cuidado. No estava casado, e aquelas mulheres tampouco o estavam.
       Entrou em seu quarto e fechou a porta. S havia um segredo que no queria que ningum conhecesse. Um segredo que o fazia despertar a meia noite suando frio.
       Em cada nova partida, jogava com a possibilidade de que um bom disparo o deixasse coxo por toda a vida, e o que era at pior, acabasse com sua carreira.
       Luc verteu os cubos de gelo sobre uma toalha de mo e tirou as calas. Suspirou, depois se sentou na cama com o joelho sobre o travesseiro e colocou o gelo ao redor daquele.
       A nica que tinha desejado em sua vida era jogar hquei e ganhar a Stanley Cup. Vivia e respirava para consegui-lo, isso era tudo o que sabia. Ao contrrio que alguns meninos, que eram escolhidos pelas equipes profissionais ao acabar a universidade, ele tinha sido selecionado para jogar na NHL aos dezenove anos, com um brilhante futuro pela frente.
       Por um tempo, entretanto, seu futuro se torceu. Caiu em um crculo vicioso de dor e vcio. De recuperao e trabalho duro. E finalmente tinha surgido a possibilidade de ver cumprido os seus sonhos. Mas o trofu Conn Smythe que tinha conseguido no ano anterior ao de sua leso tinha ficado atrs, e ele no estava seguro de seguir dispondo do que se requeria. Alguns includos vrios diretores dos Chinooks se perguntavam se no teriam pago muito por seu goleiro titular, se Luc estaria em condies de reatar sua promissora carreira.
       Como queria que fosse, e sem importar a dor que sentisse jogando, estava disposto a dar a pele para que nada se interpusesse entre ele e a conquista do campeonato.
       Estava cem por cento. Lia as jogadas, parava tudo o que lhe jogassem. Encontrava-se em um bom momento, mas sabia quo rpido pode acontecer de ir do mais alto ao mais fundo do poo. Podia perder a concentrao. Deixar penetrar uns quantos gols fceis de deter. Calcular mal a velocidade do disco, dar muitos passes atrs, e ter que recolher o disco de dentro de seu gol. Qualquer goleiro podia ter uma m noite, mas sab-lo no o fazia sentir melhor.
       Um mal partida no significava uma m temporada. Na maior parte dos casos ao menos. Mas Luc no podia perder mais tempo.



3

Instrumento: o ventre dos jogadores

       O telefone que havia junto ao computador porttil comeou a soar. Jane o observou durante uns segundos antes de levantar o fone.
Ol. Ningum respondeu. O mesmo tinha acontecido nas ltimas sete vezes que tinha tocado o telefone. Chamou a recepo e lhe disseram que no sabiam de onde provinham as chamadas. Jane, entretanto, suspeitava-o.
       Deixou o aparelho desprendido e deu uma olhada no relgio que havia sobre a mesinha de cabeceira. Faltavam cinco horas para a partida. Cinco horas para que acabasse sua coluna Solteira na cidade. Teria que ter comeado a coluna para o Times na noite anterior, mas estava exausta e sentia os efeitos do jet-lag, por isso seu nico desejo tinha sido tombar-se na cama, ler algum dos livros que levava consigo e comer chocolate. Se no tivesse topado com Luc frente  mquina de barras de chocolate, teria comprado tambm um pouco de chocolate branco. Que a pilhasse com seu pijama de vaquinhas j tinha sido suficientemente mau. No queria que ele a visse como uma devoradora de chocolate compulsiva. Embora, para falar a verdade, por que lhe preocupava o que ele pudesse pensar?
       No tinha resposta para isso, mas supunha que o fato de preocupar-se com o que pensassem de si os homens bonitos era algo assim como uma espcie de maquiagem gentica feminina. Se Luc fosse feio, no lhe teria preocupado. Se no tivesse aqueles luminosos  olhos azuis, aquelas compridas pestanas e um corpo de sonho, no se teria privado do chocolate branco, ao que lhe teria acrescentado uma barra de chocolate Hershey. Se no fosse por aquele malvado sorriso que a tinha levado a ter pensamentos pecaminosos e a recordar a imagem de seu traseiro nu, talvez no teria tido que ouvir a si mesma falar de aeromoas como  se tratasse de uma menina ciumenta.
       No podia permitir-se que os jogadores a vissem como outra coisa que no uma profissional de jornalismo. O trato para com ela no tinha melhorado muito desde que chegaram  cidade. Falavam-lhe de receitas culinrias ou de bebs, como se o fato de dispor de um tero a convertesse em uma pessoa naturalmente interessada nessas questes. Se tentava falar sobre o hquei, suas bocas se fechavam como as vlvula de uma torneira.
Jane voltou a ler a primeira parte de sua coluna e fez algumas correes:

       Solteira na cidade
       Cansada de falar de produtos de beleza e de homens resistentes ao compromisso, desconectei da conversao que estavam mantendo minhas amigas e me concentrei em meu coquetel margaritta e nas cascas de milho. Enquanto estava sentada observando a decorao apoiada em louros e chapus, perguntei-me se os homens eram os nicos em experimentar  fobia ao compromisso. O que quero dizer  que aqui estamos, mulheres de mais de trinta anos que nunca estiveram casadas e, excetuando o intento de Tina de ir-se viver com seu antigo chefe, nenhuma de ns viveu uma relao de autntico compromisso. Assim,  coisa deles ou nossa coisa?
       Existe um dito que afirma algo assim: Se em uma habitao com cem pessoas tem dois neurticos, acabaro encontrando-se. Que mais fica? H algo mais profundo que o escasso mostrurio de homens sem compromisso?
       Acaso nos encontramos as umas s outras? Somos amigas porque desfrutamos realmente da mtua companhia? Ou somos todas umas neurticas?

       Cinco horas e quinze minutos depois de ter comeado a escrever, finalmente conseguiu enviar a coluna pelo correio eletrnico de seu computador porttil. Colocou o caderno em sua enorme bolsa e saiu correndo para a porta. Percorreu a toda pressa o corredor at os elevadores, e quase afastou a empurres um casal de ancies para meter-se em um txi. Quando entrava na America West Arena, acabavam de apresentar os Coiotes de Phoenix. Os espectadores estavam como loucos com sua equipe.
       Tinham-lhe dado um passe para as cabines de imprensa, mas Jane queria estar todo o perto possvel da ao. Tinha conseguido um assento a trs filas da pista. Esperava com isso ver e sentir o mximo possvel sua primeira partida de hquei. Realmente no sabia o que podia esperar dessa experincia, o que lhe restou foi rezar a Deus para que os Chinooks no perdessem e a culpassem disso.
       Encontrou seu assento detrs de um dos gols justo no momento no qual os Chinooks saam  pista. O pblico comeou a vaiar, e Jane olhou a seu redor, os pouco educados seguidores dos Coiotes. Em uma ocasio, tinha ido ver uma partida dos Mariners, mas no recordava que os torcedores fossem to rudes.
       Voltou a centrar sua ateno na pista e viu Luc Martineau patinando para onde ela se encontrava, embelezado com todo os seus amparos e preparado para a batalha. Tinha lido mais sobre Luc que sobre qualquer outro jogador, e sabia que tudo o que levava no corpo estava feito  medida. As luzes do estdio se refletiam em seu casaco de cor verde escura. Podia ler-se seu nome ao longo dos ombros de sua camiseta por cima do nmero do legendrio Gump Worsley. Jane ainda no tinha descoberto as razes da lenda.
       Luc rodeou por trs vezes a portaria, voltou-se e a rodeou em direo contrria. Deteve-se sobre a linha de gol, golpeou com o stick nos postes e fez o sinal da cruz. Jane tirou seu caderno, uma caneta e seu bloco de papel de notas adesivas. Na parte superior de uma das notas escreveu: Superstio e rituais?
       O disco ficou em jogo e, os sons da partida chegaram a seus ouvidos: o tamborilar dos sticks, o chiado dos patins sobre o gelo, e o choque do disco contra os amparos. Os torcedores gritavam e assobiavam, e o aroma de pizza e cerveja Budweiser logo encheu o ar.
       A modo de preparao, Jane tinha visto umas quantas partidas em vdeo. Apesar de que sabia que o jogo se desenvolvia a grande velocidade, as filmagens no mostravam a energia frentica nem o modo em que essa energia se transmitia  multido. Quando se detinha o jogo, as infraes se anunciavam por megafones e a msica trovejava at que o disco voltava a ficar em movimento e os jogadores saam atrs dele.
       Enquanto Jane tomava nota de tudo o que via, precaveu-se do que nem os vdeos nem a televiso mostravam. A ao no estava sempre ali onde se disputava a posse do disco. Grande parte da atividade se desenvolvia nos cantos, com os golpes e batidas que se davam enquanto o disco estava no centro da pista. Em muitas ocasies, viu Luc golpeando as pernas de algum jogador do Phoenix que tinha a m sorte de ter passado  distncia equivocada. Ao que parecia lhe agradava muito enganchar os patins dos jogadores da equipe contrria com seu stick, e quando estirou o brao e agarrou pela camiseta o jogador dos Coiotes Claude Lemieux, dois homens que estavam a costas de Jane saltaram de seus assentos e gritaram: Joga como uma garotinha, Martineau!
       Soou o apito, o jogo se deteve, e enquanto Claude Lemieux se levantava do cho, anunciou-se a falta. Martineau, expulso dois minutos por jogo brusco.
       Como os goleiros no podem ser enviados ao banco para cumprir a expulso, Bruce Fish saiu em seu lugar. Enquanto Fish se dirigia ao banco de castigo, Luc se limitou a agarrar a garrafa de gua que tinha deixado em cima da rede da portaria, dar um gole atravs do ralo de seu capacete depois cuspi-lo. Encolheu-se de ombros, desentorpeceu o pescoo e deixou a garrafa de novo dentro da portaria.                              
       Recomeou o jogo.
       O ritmo variava do desenfreio a algo quase ordenado. Quando Jane pensava que ambas as equipes tinham decidido jogar limpo, formou-se um bolo ao redor do disco. E nada avivava mais aos espectadores que ver os jogadores tirar as luvas e atar-se a murros em um canto. Ela no podia ouvir o que era que os jogadores se diziam, mas imaginava. Podia ler seus lbios. At os treinadores, vestidos com traje e gravata, amaldioavam dos bancos. Quando os jogadores da reserva no insultavam a seus competidores, cuspiam. Nunca tinha visto cuspir tanto.
       Jane se deu conta de que as imprecaes do pblico no s se limitavam ao goleiro dos Chinooks. Cada vez que um jogador de Seattle ficava a tiro, os homens que estavam detrs de Jane gritavam: Idiotas! Depois de umas quantas cervejas aumentava a criatividade: oitenta e nove,  um idiota!, ou trinta e nove, ou fosse qual fosse o nmero do jogador.    
       Aos quinze minutos do primeiro perodo, Rob Sutter acertou um jogador dos Coiotes contra a barreira, e os painis tremeram de tal modo que Jane pensou que fossem romper. O jogador caiu no cho e o pblico rugiu.
Martelo,  um bode! gritaram os homens que estavam detrs de Jane, que se perguntou se os jogadores ouviriam as palavras que lhes dirigiam os aficionados entre todo aquele rudo. Sabia que ela teria tido que beber um bom gole de licor antes de reunir a coragem suficiente para dizer a Martelo que ele era um bode. Daria-lhe muito medo encontrar-se com ele depois no estacionamento e receber seu castigo.
       Ao finalizar os dois primeiros perodos, o marcador seguia zero a zero, depois de vrias paradas espetaculares dos dois goleiros. Mas os Coiotes saram muito forte no terceiro perodo. O capito da equipe atravessou a defesa dos Chinooks e saiu disparado a toda velocidade para a portaria contrria. Luc se separou dos paus para encar-lo, mas o capito obteve um disparo que passou por cima de seu ombro esquerdo. Luc roou com seu stick o disco, mas este acabou agasalhado na rede.
       O pblico saltou de seus assentos enquanto Luc patinava at sua portaria. Com muita calma deixou seu stick e sua luva sobre a rede. Ao mesmo tempo em que o marcador eletrnico anunciava o gol, ele elevou a mscara e a deixou no alto de sua cabea, agarrou a garrafa de gua e jogou um jorro dentro de sua boca. De sua posio, Jane observou seu perfil. Sua bochecha parecia um pouco rubra, o cabelo mido tinha pregado s tmporas. Do canto da boca caiu um pouco de gua que lhe molhou o queixo e o pescoo e acabou em sua camiseta. Devolveu a garrafa a seu lugar, colocou a mscara e voltou a calar a luva.
Chupa isso Martineau! gritou um dos homens que estavam detrs de Jane:  Luc elevou a vista e uma das perguntas de Jane obteve resposta: ele ouvia com perfeio o que lhe gritavam os homens que estavam detrs dela. Sem evidenciar reao de nenhum tipo, limitou-se a olh-los. Agarrou seu stick e olhou por uns segundos a Jane. Logo se voltou e se dirigiu ao banco dos Chinooks. Jane no podia imaginar o que tinha pensado Luc daqueles dois homens, mas havia problemas mais importantes que conhecer os sentimentos de Luc. Cruzou os dedos e desejou com todas suas foras que os Chinooks fizessem um gol nos prximos quinze minutos.
       Recorda que estar tratando com jogadores de hquei. Podem ser muito supersticiosos. Se os Chinooks comeam perdendo vrias partidas, culparo a ti disso e lhe enviaro de volta pra casa. depois de comprovar como a tinham tratado, Jane sups que no necessitariam de muitas desculpas.
       Demoraram quatorze minutos e vinte segundos em faz-lo, mas finalmente anotaram. Quando soou a buzina indicando o final da partida o marcador refletia o empate e Jane deixou escapar um suspiro de alvio.
Acabou a partida, pensou. De repente advertiu que o relgio anunciava cinco minutos mais. As equipes se dispuseram a jogar a prorrogao. Ningum; percebeu, por isso o resultado passaria s estatsticas como empate a um. 
       Jane respirou ento tranqila. No podiam culpa-la de ter perdido e envi-la pra casa.
       Abriu sua bolsa e meteu nela o caderno e a caneta. Encaminhou-se ao vestirio dos Chinooks mostrando o passe de imprensa. Sentia um n no estmago enquanto avanava pelo corredor. Era uma profissional. Podia faz-lo. No havia nenhum problema.
Olha-os nos olhos e no baixe a vista, recordou a si mesma enquanto tirava seu pequeno gravador. Entrou no vestirio e se deteve em seco. Homens em diferentes graus de nudez estavam de p em frente s banquetas ou as bilheterias abertas, tirando suas roupas. Muito msculo e suor. Amplos peitos e costas. Uns abdominais espetaculares, um traseiro e...
       Deus do cu! Ficou vermelha e os olhos quase lhe saram das rbitas ao ver o tamanho dos atributos de Vlad Empalador Fetisov. Jane acabou elevando a vista, no antes de descobrir que o que tinha ouvido dizer a respeito dos homens europeus era certo. Vlad no estava circuncidado, e isso supunha um excesso de informao em relao ao que ela desejava saber. Por um segundo Jane pensou em desculpar-se, mas no podia faz-lo, pois equivaleria a admitir que tinha visto algo. Deu uma olhada ao resto de jornalistas esportivos e comprovou que nenhum deles se desculpava. Por que se sentia como se estivesse no colgio espiando no vestirio de meninos?
Tinha visto um pnis antes, Jane. No tem nada de especial. Se tiver visto um, viu-os todos... Ok, de acordo, isso no  de todo certo. Alguns pnis so melhores que outros. Para! Deixa de pensar em pnis! Est aqui para fazer um trabalho, e tem tanto direito a isso como qualquer jornalista.  a lei, e voc  uma profissional. Sim, isso foi o que se disse enquanto se encaminhava para os jogadores e os reprteres esportivos, tentando manter o olhar por cima de seus ombros.
       Mas ela era a nica mulher em um vestirio cheio de corpulentos, rudes e nus jogadores de hquei. No podia evitar sentir-se deslocada.
       Manteve a vista elevada ao tempo que se aproximava do jornalista que estava entrevistando Jack Lynch, o extremo direito que tinha marcado o nico gol dos Chinooks. Tirou seu caderno ao mesmo tempo em que o jogador tirava a cueca. Estava segura de que devia usar cueca largas, mas no estava em disposio de comprov-lo. No olhe, Jane. Acontea o que acontecer, no baixe a vista, disse-se.
       Ps em marcha sua gravadora e interrompeu um de seus colegas.
Depois de sua leso do ms passado comeou disseram que talvez no pudesse acabar a temporada em to boa forma como a comeou. Acredito que este gol acabou com esses rumores.
       Jack ps um p em cima da banqueta que tinha diante e a olhou por cima do ombro. Sua bochecha tinha a marca avermelhada de um golpe, e uma antiga cicatriz lhe cruzava o lbio superior. Tomou seu tempo para pensar a resposta, por isso Jane temeu que no fosse responder.
       Isso espero disse finalmente. Duas palavras. Isso foi tudo.
       O que te parece o empate? perguntou um reprter.
Os Coiotes jogaram duro esta noite. Queramos ganhar,  lgico, mas o empate no est mau.
       Quando se dispunha a formular outra pergunta, algum elevou a voz por cima da sua fazendo-a calar. No demorou para sentir que conspiravam contra ela. Disse-se que, muito provavelmente, no era mais que parania, mas quando se aproximou do pequeno grupo que estava entrevistando o capito dos Chinooks, Mark Bressler, este a olhou aos olhos e respondeu as perguntas dos outros jornalistas.
       Falou com o novato de crista loira ao estilo moicano, caso que se mostraria mais que agradecido de ser entrevistado, mas seu ingls era to pobre que ela logo entendeu um par de palavras. Caminhou para Martelo, mas ele tirou o ltima pea de roupa e ela s passou com um breve cumprimento. Mesmo que no parasse de se repetir que era uma profissional e estava fazendo seu trabalho, no se atrevia a deter-se frente a um homem completamente nu. Ao menos na primeira noite.
       Logo se fez bvio que alguns dos jornalistas tambm se sentiam incomodados ante sua presena, e que os jogadores no iam responder a suas perguntas. Entretanto, o que mais lhe surpreendia era a atitude de seus companheiros do Times, que no a tratavam melhor que aqueles.
       De acordo, poderia seguir escrevendo a coluna que j publicava regularmente, pensou enquanto se dirigia para o goleiro da equipe. Luc estava sentado em uma banqueta em um canto do vestirio, com uma grande bolsa de esporte a seus ps. Tirou tudo exceto a cueca trmica, as meias trs-quartos e uma toalha que levava ao redor do pescoo.A ponta pendurava a meio caminho de seu peito, e enquanto a via aproximar-se, bebeu um gole de sua garrafa de plstico. Um filete de gua escapou pelo canto de seus lbios, percorreu o queixo e caiu sobre seu peito. Deixando atrs de si um rastro de umidade, descendeu por seus marcados msculos peitorais e os abdominais para ir parar ao umbigo. Tinha uma ferradura tatuada na parte inferior do ventre. A sombra da ranhura e os buracos contribuam a profundidade e textura da sua carne, e os cantos se curvavam para cima aos lados do ventre. A parte inferior da tatuagem se perdia sob a cintura do calo, e Jane se perguntou se realmente necessitaria a sorte daquela ferradura tatuada.
No concedo entrevistas disse antes que ela pudesse lhe perguntar nada. Com todas essas coisas que tem lido, suponho que j estar  corrente.
       Ela sabia, mas no se sentia especialmente condescendente. Aqueles tipos a tinham rechaado, e ela queria devolver a afronta. Ps em marcha seu gravadora.
O que te pareceu a partida de esta noite?                             
       Ela no esperava que ele respondesse, e no o fez.               
Deu a impresso de que tocou o disco antes de que entrasse  acrescentou.
       A cicatriz em seu queixo parecia especialmente branca, mas seu rosto seguia sem revelar expresso alguma.
Era difcil concentrar-se quando os aficionados da equipe contrria lhe gritam? insistiu Jane.
       Luc secou o rosto com uma ponta da toalha. Mas no respondeu.
Acredito que me seria muito duro passar por cima de todos esses desagradveis insultos.
       Seus olhos azuis continuavam cravados nos do Jane, mas um canto de sua boca se curvou para baixo, como se tivesse encontrado nela algo incomodo.
At esta noite, no tinha nem idia de quo rudes podiam ser os espectadores de hquei prosseguiu Jane. Os homens que estavam atrs de mim estavam bbados e zangados. No posso imaginar estar a de p, gritando chupa isso no meio de uma multido.
       Luc tirou a toalha do pescoo e disse finalmente:
Oua, se tivesse estado ali me gritando chupa isso duvido muito que agora estivesse aqui me tirando do srio.
       O que quer dizer?
       Porque imagino que tambm teria tomando algo.
        Jane levou uns instantes para captar o que tentava lhe dizer, e quando o conseguiu, em seu rosto apareceu um sorriso malicioso.
       Suponho que no  o mesmo, verdade?
Em efeito. Luc ficou em p e passou os polegares por debaixo da cintura de sua cueca. Agora v se vai dar o lugar a outro. Ao ver que ela no se movia de onde estava, acrescentou: A no ser que queira te sentir um pouco mais incmoda.
       No me sinto incmoda.
       Est vermelha como um tomate.
Aqui dentro faz muito calor mentiu Jane. Era ele o nico que se deu conta? Provavelmente no. Muito.
Sim, a coisa vai estar quente. Fica por aqui e ver um punhado de troncos de boa madeira.
       Jane se voltou e se foi a toda pressa. No devido ao que lhe havia dito a respeito de ver um punhado de troncos de boa madeira, mas sim porque tinha uma hora fixada de entrega da crnica. Sim, tinha hora de entrega, disse-se enquanto saa do vestirio, cuidando de manter alta a vista para no pos-la em algum rgo nu.
       Quando chegou ao hotel eram j dez da noite. Tinha que acabar a coluna e escrever a crnica, tudo antes de meter-se na cama. Ligou seu computador porttil e comeou a escrever a crnica esportiva em primeiro lugar. Sabia que os reprteres do Times iriam l-la com lupa e que procurariam todas as falhas possveis, mas ela estava decidida a que no encontrassem nenhuma. Escreveria sua crnica melhor que qualquer homem.
Os Chinooks empatam contra os Coiotes; Lynch marca o nico gol da equipe, escreveu, mas descobriu imediatamente que redigir uma crnica esportiva no era to fcil como tinha suposto. Era bastante aborrecido. Depois de umas quantas horas de luta procurando as palavras certas e tambm de responder a umas quantas incomodas chamadas telefnicas, desprendeu o fone, apertou o boto de apagar do computador e comeou de novo.  
   
       No instante em que o disco ficou em movimento esta noite no America West Arena, os Chinooks e os Coiotes ofereceram aos espectadores toda uma variedade russa de potentes disparos e incerteza de ndulos brancos. Ambas as equipes mantiveram o ritmo frentico at o final, quando o goleiro dos Chinooks, Luc Martineau, tirou-lhes dos Coiotes um gol cantado sobre a linha. Quando soou a buzina depois da prorrogao, o marcador seguia mostrando empate um a...

       Depois de falar das muitas paradas de Luc, escreveu sobre o gol do Lynch e os fortes disparos de Martelo. At a manh seguinte, uma vez enviado o artigo, no reparou que Luc a tinha estado observando no vestirio. Enquanto ia de um lado para outro como uma bola de bilhar, nem todo mundo tinha feito caso omisso dela. De novo, sentiu um incomodo estremecimento no peito e os alarmes comearam a soar em sua cabea indicando problemas. Grandes problemas com o menino dos olhos azuis e suas legendrias mos velozes.
       Disse-se que o melhor era no gostar dele. Pois, definitivamente, no gostava de nada do que sabia dele.            
       Bom, exceto sua tatuagem.
       Aquela mesma manh  primeira hora, os integrantes dos Chinooks se vestiram de terno e gravata, luzindo suas cicatrizes de batalha, se encaminharam ao aeroporto. Quando faziam meia hora de vo, o qual devia conduzi-los a Dallas, Luc afrouxou a gravata e ficou a embaralhar um mao de cartas. Dois de seus companheiros e o treinador de goleiros, Dom Boclair, se reuniram em uma partida de pquer. Quando jogava s cartas durante os vos longos, era uma das escassas ocasies em que Luc se sentia parte da equipe.
       Enquanto repartia, Luc olhou ao outro lado do corredor do BAC-111 no que viajavam, s consistentes solas de umas pequenas botas. Jane tinha levantado o brao que separava os assentos, deitou-se e ficou dormindo. Jazia de lado, e por uma vez no levava o cabelo preso. Suaves mechas de cabelo castanho caam sobre suas bochechas e a comissura de seus lbios.
Achas que ns passamos muito ontem  noite?                          
       Luc olhou Bressler, elevado sobre o respaldo de seu assento.      
Que seja Negou com a cabea, e depois deixou o baralho sobre a bandeja que tinha diante. Deu uma olhada em suas cartas e viu um par de oitos, ao tempo que o tipo que se sentou a seu lado, Nick Ouso Grizzell, dobrava a aposta. Este no  seu territrio acrescentou. Se Duffy tinha pensado nos forar a levar conosco uma jornalista, como mnimo teria que ter escolhido a algum que soubesse um pouco de hquei.
       Viram o quo vermelha ficou ontem  noite?
       Puseram-se a rir.
Deu uma olhada no instrumento de Vlad. Bressler olhou suas cartas. Uma pediu enquanto descartavam.
       A viu o Empalador?
       Assim .
Quase lhe saram das rbitas os olhos. Luc entregou trs cartas a Dom Boclair, no entanto ele pediu outras trs. Acredito que nunca mais voltar a ser a mesma acrescentou.
       Vlad era famoso por seu enorme material. O nico que no parecia opinar o mesmo era o prprio Vlad, mas todos sabiam tambm que o russo tinha recebido muitos golpes na cabea.
       Luc conseguiu reunir trs oitos e sua vitria ficou refletida na caderneta de Dom.
Quanto tempo estiveram telefonando para seu quarto? perguntou Luc.
       Acabou desprendendo o telefone por volta da meia-noite.
A primeira noite me senti um pouco mal quando todos fomos e ela ficou sozinha no bar do hotel confessou Dom.
       Os outros o olharam como se houvesse dito uma tolice. Quo ltimo queriam era levar a um jornalista com eles, especialmente uma mulher, rondando a seu redor quando relaxavam tentando esquecer-se de tudo. Fosse indo a um clube de strip-tease ou conversando no bar do hotel sobre os seguintes rivais.
Bom tentou retificar Donny enquanto repartia, a questo  que eu no gosto de ver uma mulher sentada sozinha.
       Foi pattico apontou Grizzell.
       Luc olhou por cima de suas cartas e fez sua aposta.
       Voc tambm se sentiu mal, Urso? No me acredito.
No, demnios. Ela tem que desistir Arrojou suas cartas. Hoje no  meu dia de sorte.
       Jogamos muito forte para voc?
O que acontece,  que vou deitar um pouco e ler no resto do vo. Todo mundo sabia que Urso no lia nada que no tivesse fotografias. Ler  fundamental.
       Comprou a Playboy? perguntou Dom.
Comprei Him ontem  noite, depois da partida, mas no a pude arrancar das mos do novato disse referindo-se a Daniel Holstrom. Est aprendendo ingls lendo A vida do Bombonzinho de Mel.         
       Todos soltaram uma gargalhada enquanto Dom apontava a vitria do Bressler na caderneta. Ao viver em Seattle, muitos deles eram seguidores do Bombonzinho de Mel. Liam a coluna mensal para descobrir a quem tinha levado ao xtase comatoso e onde tinha deixado o corpo.
       Luc embaralhou as cartas e deu uma olhada a Jane, que dormia como um anjinho. No havia dvida de que era a classe de mulher que poria o grito no cu se visse um dos meninos lendo histrias pornogrficas.
       A conversao trocou de orientao centrando-se na partida da noite anterior. Ningum parecia ter ficado satisfeito com o empate, e Luc menos que ningum. Phoenix tinha disparado vinte e duas vezes a porta, e ele tinha detido vinte e um dos tiros. No tinha sido uma m noite segundo as estatsticas, mas apesar de todas as paradas, teria gostado de fazer desaparecer aquele nico gol. No necessariamente porque tivesse entrado, mas sim porque o gol tinha sido questo de sorte, mais que conseqncia de um tiro preciso. Alm de ser muito competitivo e mal perdedor, Luc detestava perder por questes infelizes mais que devido s habilidades do contrrio.
       Voltou a olhar Jane, cujo peito ascendia e descendia brandamente enquanto respirava com a boca entreaberta. Acaso o empate da noite anterior tinha sido coisa da m sorte? Uma alterao no transcurso normal da temporada? Provavelmente, mas Luc no podia deixar de pensar naquele maldito gol. Acaso sua vida pessoal estava afetando seu jogo? Deveria falar com seu representante, pois a situao de Marie seguia sem resolver.
       Dormindo, Jane afastou o cabelo do rosto. Ou o que tinha passado se devia ao influxo da cronista esportiva? Um empate, por desconto, no era indcio de m sorte. Mas poderia tratar do princpio se perdessem sexta-feira em Dallas.
Sabia que para os piratas era um signo de m sorte que embarcasse uma mulher em seu navio? disse Bressler, como se lhe tivesse lido o pensamento.                                     
       Luc o ignorava, mas no estranhava. Nada podia alterar a vida de um homem com tanta rapidez como a apario no desejada de uma mulher.

       Na sexta-feira de noite, os Chinooks perderam por pouco, quatro a trs, contra Dallas. No sbado pela manh, enquanto esperava junto ao nibus que devia lev-los ao aeroporto, Luc leu a seo de esportes do Dallas Morning News.
       O titular rezava: Os Chinooks suam sangue e jogam as tripas, o qual devia resumir a partida, pois o novato dos Chinooks, Daniel Holstrom, tinha recebido um golpe de disco na bochecha recm comeado o segundo tempo. Tiveram que atend-lo fora da pista e se retirou lesado. Os nimos se crisparam e as represlias no se fizeram esperar. Martelo se ocupou dos atacantes de Dallas, agarrando a um dos cantos no terceiro tempo e propiciando-lhe um murro no tnel de vesturios.
       Depois disto, as coisas ficaram muito feias, e enquanto os Chinooks ganhavam a batalha dos murros, acabaram perdendo a guerra. A linha ofensiva de Dallas tirou vantagem de todas as superioridades numricas e presenteou Luc com trinta e dois disparos ao gol.
       Essa manh ningum falou muito. Especialmente depois do sermo que lhes passou o treinador Nystrom no vesturio. O treinador tinha fechado a porta aos jornalistas e tinha procedido a fazer tremer as paredes com sua voz impetuosa. Mas no disse nada que no merecessem ouvir. Tinham cometido faltas estpidas e tiveram que pagar o preo.
       Luc dobrou o peridico e o ps sob o brao. Desabotoou-se os botes da jaqueta ao tempo que a senhorita Alcott saa pela porta giratria, a sua esquerda. O sol caiu sobre ela com sua brilhante luz, e a ligeira brisa brincou com as pontas de seu rabo-de-cavalo. Vestia uma saia negra que lhe chegava at os joelhos, uma jaqueta negra e um pulver de pescoo de cisne. Calava sapato baixo, conduzia uma enorme maleta e levava na mo um copo de papel com caf. Chamava a ateno pelos horrveis culos de sol que usava. Os cristais eram redondos e de cor verde mosca. Seguia parecendo absolutamente pouco sexy.
Interessante a partida de ontem  noite. Deixou a maleta no cho, entre os dois, e elevou a vista para seu rosto.
       Voc gostou?
Como disse, foi interessante. Qual era o lema da equipe? Se no poder ganhar, lhes d uma surra?
Algo assim respondeu ele com um sorriso. Por que veste sempre de negro ou de cinza?
       O negro faz com que me sinta bem respondeu Jane.
       Pois parece o anjo da morte.
       Ela bebeu um gole de caf e disse com toda a cortesia de que foi capaz, como se as palavras de Luc no lhe tivessem afetado:
Poderia viver o resto de minha vida sem os comentrios sobre moda do Lucky Luc.
De acordo, mas... Luc no acabou a frase. Meneou a cabea. Levantou a vista ao cu e esperou a que ela mordesse o anzol.
       No demorou para faz-lo.
       Sei que vou arrepender me disto. Suspirou. Mas o que?
Bom, acredito que se uma mulher tiver problemas para encontrar homens, o mais adequado  que arrume um tanto o pacote do presente. Entre outras coisas  melhor que no use culos de sol horrorosos.
Meus culos de sol no so horrorosos, e meu pacote no  da sua conta disse enquanto levava o copo de caf aos lbios.
Ou seja, que eu s posso iniciar a conversao. Voc pe os limites.
       Isso.
        um pouco hipcrita, sabia?
       Sim, claro, como no.
       Ele a olhou diretamente e perguntou:
       Que tal seu caf esta manh?
       Foi bem.
       Continua tomando-o sozinho?
Sim respondeu ela, olhando o de lado cobrindo o copo com a mo.             
       
       
                       

4

Um golpe com o stick

       Jane quase se assustava em dar uma olhada ao redor. Essa manh, olhar a algum dos jogadores dos Chinooks era como olhar os restos de um acidente ferrovirio. Parecia horrvel, mas no podia dar a volta. Sentou-se perto da parte dianteira do avio, ao outro lado do corredor em frente ao ajudante do diretor esportivo da equipe, Darby Hogue, com um exemplar do Dallas Morning News aberto sobre o regao na pgina de esportes. Ela j tinha enviado sua crnica da sangrenta partida da vspera, mas estava interessada em saber o que haviam dito a respeito os reprteres de Dallas.
       A noite anterior, ela e o resto dos jornalistas esportivos tinham esperado na sala de imprensa uma oportunidade para entrar no vestirio dos Chinooks. Tinham tomado caf e Coca-cola e comido um pouco algo parecido com um chille, mas quando o treinador Nystrom por fim saiu, informou-lhes que no concederiam entrevistas.
       Durante a espera, os jornalistas de Dallas tinham estado brincando com ela, lhe contando piadinhas. Inclusive lhe disseram que jogadores se mostravam dispostos a colaborar e respondiam s perguntas. Tambm lhe falaram daqueles que nunca respondiam. Luc Martineau ocupava o primeiro posto na lista dos mais arrogantes.
       Jane dobrou o peridico e o meteu na maleta. Talvez os jornalistas de Dallas tinham sido amveis com ela porque no a consideravam uma ameaa. Possivelmente a teriam tratado de modo diferente se tivessem estado dentro do vestirio fazendo entrevistas. Ela no tinha modo de saber, e tampouco lhe interessava. Foi agradvel descobrir que no todos os reprteres do sexo masculino se sentiam incmodos em sua presena. Aliviou-a saber, que quando escrevesse sua seguinte coluna a respeito de suas experincias, poderia dizer que alguns homens tinham evoludo e que nem todos a viam como uma ameaa para seu amor prprio.
       Tinha enviado j dois artigos ao Seattle Times. E no tinha tido notcias do editor. Nenhuma s palavra de flego ou crtica, o que ela entendia como um bom sinal. Tinha visto que os jogadores passavam de mo em mo seu primeiro artigo, mas nenhum tinha feito comentrio algum.
Li sua primeira crnica disse Darby Hogue do outro lado do corredor.
       Jane calculou que Darby Hogue media pouco mais de metro sessenta. Metro sessenta e cinco com suas botas de vaqueiro. Seu traje azul marinho tinha todo o aspecto de ser feito a medida, e devia custar o que o salrio de trabalhador corrente. Seu cabelo encaracolado era da cor das cenouras e sua pele inclusive era mais branca que a de Jane. Apesar de seus vinte e oito anos, aparentava dezessete. Seus olhos pardos refletiam inteligncia e astcia, e tinha umas longas pestanas ruivas.
       Fez um bom trabalho acrescentou. 
       Por fim algum lhe dizia algo de seu artigo. 
       Obrigado. 
       Ele se inclinou para o corredor.
A prxima vez deveria mencionar nossos tiros ao goldisse em voz baixa.
       Darby era o mais jovem dos ajudantes de diretor esportivo da NHL, e Jane tinha lido em sua nota biogrfica que era membro do MENSA, o clube de pessoas que tm um alto coeficiente intelectual. No duvidou nem por um segundo. Embora parecia haver-se esforado muito para desprender-se de seu ar de intelectual, no o tinha obtido por completo, pois levava um protetor para canetas no bolso da camisa.
Direi uma coisa disse ela acompanhando suas palavras do que esperava fosse um encantador sorriso. Eu no me meterei em seu trabalho se voc no se meter no meu.                 
       Ele piscou.                   
        justo.                            
     	Sim, acredito.         
       Ele se endireitou e colocou a maleta sobre seu regao.
Pelo geral, senta-se na parte de trs com os jogadores ---observou.
       Sempre se sentava na parte de trs porque os assentos dianteiros j tinham sido ocupados pelos treinadores e diretores quando ela embarcava.
Bom, estou comeando a me sentir pessoa non grata ali atrs.confessou.
       O incidente da noite anterior lhe tinha deixado muito claro quais eram os sentimentos dos jogadores.
       Ele se voltou e a olhou nos olhos.
       Aconteceu algo do que eu deveria estar ciente?
       Alm das incomodas chamadas, tinha encontrado o cadver de um camundongo frente  porta de seu quarto na noite anterior. Por seu aspecto devia estar bastante tempo morto. Obviamente, algum o tinha encontrado em algum lugar e o tinha levado at sua porta. No tinha sido como encontrar a cabea cortada de um cavalo em sua cama, embora tampouco acreditava que fosse uma coincidncia. Mas no queria que os jogadores pensassem que era uma delatora que tinha ido correndo contar aos diretores.
       Nada que no possa agentar.
       Jante comigo esta noite e falemos do assunto.
       Jane o olhou fixamente. Por um instante se perguntou se seria um desses homens que davam por certo que ela ficaria com ele s porque os dois eram baixinhos. Seu ltimo encontro tinha sido com um tipo de pouco mais de um metro sessenta com todos os complexos napolenicos imaginveis, quebrado como pessoa por esses mesmos complexos. A ltima coisa que precisava era um encontro com um tipo baixinho. Em particular, com um tipo baixinho que fosse diretor dos Chinooks.
       No acredito que seja boa idia.
       Por que?
       Porque no quero que os jogadores pensem que estamos juntos.
Janto constantemente com jornalistas esportivos. Chris Evans, por exemplo.
       No era exatamente o mesmo. Jane tinha que se manter  margem das fofocas. Apesar de que s mulheres permitiam entrar nos vestirios fazia trs dcadas, as fofocas das confuses das mulheres com suas fontes de informao eram constantes. Estava convencida de que sua credibilidade ou sua aceitao entre os jogadores no podia cair mais para baixo, mas no tinha inteno de comprov-lo.
       Pensei que estaria cansada de jantar sozinha disse Darby.
       O certo era que estava cansada de jantar sozinha, e tambm de olhar para as paredes das habitaes de hotel ou do avio. Talvez um lugar muito concorrido no estivesse to mal.
       S trabalho?                                              
        obvio. 
       Por que no jantamos no restaurante do hotel? props.
       s sete te parece bem?
s sete me parece perfeito. Jane pinou no bolso dianteiro de sua maleta e tirou a folha que tinha o itinerrio da equipe. Onde nos alojamos esta noite?
LAX Doubletree respondeu Darby. O hotel treme cada vez que pousa um avio.
       Maravilhoso.
Bem-vinda  esplndida vida dos esportistas disse ele, voltando a olhar para frente e apoiando a cabea contra o respaldo.
       Jane tinha imaginado que o esgotamento que supunham as quarto partidas fora de casa seria s isso: esgotamento. Embora o tivesse estudado dzias de vezes, olhou de novo o itinerrio Los Angeles, e depois San Jos. J era hora de que voltasse para casa. Queria dormir em sua cama, conduzir seu carro em lugar de ir de nibus, inclusive abrir sua prpria geladeira em lugar do minibar de um hotel. Os Chinooks tinham quatro dias de viagens antes de retornar a Seattle para jogar um bloco de quatro partidas em oito dias. Depois teriam que viajar a Denver e Minnesota. Mais hotis e comidas solitrias.
       Talvez jantar com Darby Hogue no fosse to m idia. Poderia romper a monotonia e resultar em algo esclarecedor.
       As sete em ponto, Jane saiu do elevador e se encaminhou para o restaurante Seasons. Usava o cabelo solto que lhe chegava at os ombros. Vestia uma cala de l negra e um pulver cinza. O pulver tinha uma abertura a um lado do pescoo e as mangas justas, e mesmo que Luc lhe dissesse que parecia o anjo da morte, gostava de seu estilo.
       Perguntava-se se havia alguma razo oculta alm de seu medo em no saber combinar as cores que a fazia decidir-se sempre por cores escuras. Acaso estaria deprimida sem sab-lo, como Caroline lhe tinha sugerido? Sofreria alguma desordem mental ainda sem diagnosticar? Parecia realmente o anjo da morte, ou acaso Caroline era uma desmancha-prazeres e Luc um idiota arrogante? Gostava de acreditar nesse ltimo.
       Darby a esperava na entrada do restaurante, com seu aspecto juvenil devido s calas de cor cqui e  camisa havaiana estampada de cor laranja; por no falar do gel que usava no cabelo. Levaram-nos at uma mesa perto das janelas, e Jane pediu um Martini com limo para manter a raia o cansao, embora s fosse por umas poucas horas. Darby pediu uma cerveja e lhe exigiram que mostrasse o documento de identidade.
       Como? Tenho vinte e oito anos replicou.
       Jane se ps a rir e abriu a carta do menu.
       As pessoas vo pensar que  meu filho se burlou.
       Ele esboou uma careta de desagrado e tirou sua carteira.
Parece mais jovem que eu grunhiu enquanto mostrava sua identificao ao garom.
       Quando chegaram as bebidas, Jane pediu salmo com arroz selvagem, entanto Darby escolheu vitela e batatas assadas.
       Que tal seu alojamento? perguntou.
       Era como qualquer outro.
       Est bem respondeu Jane.
De acordo. Darby bebeu um gole de cerveja. Tem problemas com os jogadores?
       No, simplesmente fogem de mim.
       No gostam que esteja aqui.
Sim, percebi. Jane deu um gole de seu Martini. O acar na borda da taa, a rodela de limo e a mescla perfeita de vodca Absolut Citrn e triplo seco quase a fez suspirar, como se se tratasse de uma alcolatra. Mas converter-se em alcolatra era algo que nunca tinha preocupado a Jane, e isso por duas razes: suas ressacas eram muito fortes, e quando bebia perdia, literalmente, a capacidade de julgamento, s vezes junto com sua calcinha.
       A conversao entre Jane e Darby se separou do hquei para centrar-se em outros temas. Jane se inteirou de que aquele menino tinha obtido uma licenciatura summa cum laude em Harvard  idade de vinte e um anos. Mencionou sua presena no MENSA em trs ocasies, e tambm falou da casa que tinha no Mercer Island, de quinhentos metros quadrados, de seu navio de seis metros de comprimento, e de seu Porsche cor vermelha cereja.
       No cabia dvida: Darby era um cretino. Isso no era necessariamente mau j que alm de ser uma impostora, em certas ocasies Jane se considerava a si mesmo uma cretina. Para acabar com aquela conversao, Jane mencionou seus ttulos em jornalismo e lngua. Darby no pareceu muito impressionado.
       Seus pratos chegaram e ele elevou a vista enquanto passava de manteiga suas batatas assadas.
       Vou sair em sua coluna Solteira na cidade?
       Jane se deteve quando se dispunha a estender o guardanapo sobre seu colo.  maioria dos homens assustava a possibilidade de ser mencionados na coluna.
       Importaria-se?
       Ele abriu os olhos como pratos.
Que seja. Repensou por uns segundos e acrescentou: Mas teria que sair bem na parada. Ou seja, eu no gostaria que ningum pensasse que fui um mal acompanhante.
No acredito que pudesse mentir disse ela. A metade do que escrevia naquela coluna eram mentiras.
       Poderia lhe facilitar as coisas.
       Se o que pretendia era ajud-la, o mnimo que podia fazer Jane era lhe escutar.
       Como?
Poderia dizer aos meninos que no est aqui para escrever sobre o tamanho de seus materiais ou suas manias sexuais disse, o que lhe levou a pensar imediatamente nos quais deles teriam manias sexuais. Talvez Vlad o Empalador. Poderia lhes dar minha palavra de que no se deitou com o senhor Duffy para conseguir o trabalho.
       Jane levou uma mo  boca, com expresso de horror. Tinha imaginado que alguns maliciosos na sala de imprensa davam por certo que ela tinha intercambiado favores sexuais com Leonard Callaway, pois, depois de tudo, era o editor geral e ela era simplesmente a mulher que escrevia aquela estpida coluna para solteironas. Ela no era uma autntica jornalista. Entretanto, nunca teria imaginado que algum pudesse supor que se deitou com Virgil Duffy. Se aquele homem podia ser seu av! De acordo, Duffy era um velho e houve um momento em sua vida em que o nvel de exigncia do Jane estava pelos chos, o que a tinha levado a enrolar-se com tipos dos quais gostaria de esquecer-se para sempre, mas nunca, por nada do mundo, teria ido  cama com algum quarenta anos mais velho que ela.         
       Darby ps-se a rir e cortou uma parte de vitela.
Deduzo por seu gesto de assombro que essas fofocas no so certas.
 obvio que no. Jane agarrou sua taa de Martini e a esvaziou de um gole. A vodca e o triplo seco lhe esquentaram o esfago a caminho do estmago.
Nem sequer tinha visto em pessoa o senhor Duffy at o primeiro dia no vestirio.
       A injustia daqueles comentrios tinha feito trinca em Jane. Fez gestos ao garom de que lhe levasse outro Martini. Pelo geral lhe incomodava pronunciar frases como no  justo. Acreditava que a vida em si no era justa, e que chorar por isso s fazia que as coisas piorassem. Mas aquele era um caso de injustia flagrante e no podia fazer nada a respeito. Se o negasse, duvidava que algum acreditasse.
Se escrever sobre mim em sua coluna, faa ficar bem disse Darby. Eu farei que as coisas sejam mais fceis para ti.
       Jane agarrou o garfo e levou a boca um pouco de arroz.
       O que passa contigo, tem problemas para sair com garotas?
       Havia-o dito em brincadeira, mas ao ver que a Darby lhe acendiam as bochechas, soube que tinha acertado na mosca.
       No primeiro encontro, as mulheres acreditam que sou um pirado.
Pois eu no pensei isso mentiu Jane temendo que lhe crescesse o nariz.
       Ele sorriu, o que fazia que o risco aumentasse.
       Nunca me do uma segunda oportunidade disse.
Bom, talvez se no falasse da MENSA e de seu ttulos universitrios, teria melhor sorte.
       Voc acha?
Sim. Tinha dado conta da metade do salmo quando chegou a segunda taa.
       Talvez poderia me dar alguns conselhos.
       Sim claro, como se ela fosse uma perita.
       Talvez.
       Darby posou nela um olhar carregado de astcia.
       Poderia te facilitar as coisas disse de novo.
       Estou recebendo chamadas incomodas. Faa com que acabem.
Verei o que posso fazer ao respeito disse Darby, sem mostrar-se surpreso.
       Sim, porque so desagradveis.
       Olha-o como uma espcie de trote.
       V v.
Encontrei um camundongo morto frente  porta de minha habitao ontem  noite.
       Ele bebeu um gole de cerveja.                   
       Possivelmente chegou ali sozinho. 
        obvio.
       Quero uma entrevista com o Luc Martineau. 
       No  a nica. Luc  um tipo muito reservado. 
       Pea-lhe.
No sou a pessoa mais adequada para faz-lo. No gosta de mim.
       Jane agarrou o limo e o levou aos lbios. Ao Luc tampouco gostava dela.
       Por que? .
Sabe que pus reparos a sua inscrio. Fui muito franco a respeito.
       Isso era toda uma surpresa. 
       Por que?
Bom,  uma histria antiga, mas se lesou estando em Detroit. Eu no acreditava que um jogador de sua idade pudesse recuperar-se plenamente de duas difceis operaes de joelho. Martineau foi muito bom, possivelmente um, dos melhores, mas onze milhes de dlares ao ano  uma aposta muito forte por um homem de trinta e dois anos que tem os joelhos machucados. Tnhamos contratado um jogador na primeira ronda do draft, um de defesa corpulento, e a um par de extremos. Isso nos debilitava a asa direita. No estava seguro de que Martineau fosse o que necessitvamos.
       Est jogando uma boa temporada assinalou.
At agora. O que aconteceria se lesasse? Uma equipe no pode depender de um s jogador.
       Jane no sabia muito de hquei, e se perguntou se Darby estava no certo. Era possvel que tivessem montado a equipe ao redor de um goleiro de primeira fila? Acaso Luc, que parecia to frio e calmo, sentia a tremenda presso de cumprir com as expectativas que se depositaram nele?      
       
         
       Uma chamada da senhora Jackson fez Luc saber que Marie estava sem ir ao colgio desde que ele partiu de Seattle. A senhora Jackson lhe disse que tinha acompanhado todas as manhs Marie ir ao colgio e que a tinha visto entrar no edifcio. O que tambm soube foi que a garota voltava a sair assim que ia embora.
       Luc pediu falar com Marie e lhe perguntou onde tinha passado todo esse tempo.
       No centro comercial foi a resposta.
       Quando lhe perguntou por que o tinha feito, Marie respondeu:
Todos me odeiam no colgio. No tenho amigos. So estpidos.
       Vamos disse ele, logo far amigos e tudo ir bem.
       Marie comeou a chorar e, como sempre, Luc se sentiu mau e torpe.
       Sinto falta da minha me disse ela. Quero ir pra casa.
       Quando acabou sua conversao com Marie e a senhora Jackson, Luc chamou o seu agente, Howie Stiller. Ao retornar pra casa na noite da tera-feira, esperavam-lhe vrias notificaes do colgio enviadas pelo FedEx.
       Nesse momento a msica do piano chegava at o lugar em que estava sentado, em um canto do bar do hotel. Levou a garrafa de cerveja  boca e deu um comprido trago. Para Marie, retornar pra casa no era uma soluo. Seu lar era o de Luc, mas estava claro que no gostava de viver com ele.
       Deixou a garrafa na mesa e se ajeitou na poltrona. Tinha que falar com Marie sobre o internato, e no tinha nem idia de qual seria a resposta da garota. No sabia se gostaria da idia ou se veria com lgica o benefcio que proporcionaria. S esperava que no ficasse histrica.
       No dia do funeral de sua me, ela tinha tido um ataque de nervos, e Luc no soube o que fazer. Tinha-a abraado torpemente e lhe havia dito que sempre cuidaria dela. E o faria. Daria-lhe tudo que necessitasse, mas isso no impedia que fosse um pobre substituto de sua me.
       Como tinha podido complicar tanto a vida? Esfregou o rosto com as mos e, quando as baixou, viu Jane Alcott caminhando para ele. Sem dvida era muito esperar que passasse longe.
Aguarda alguma amiga? perguntou-lhe ela enquanto se aproximava da poltrona oposta.
       Tinha estado aguardando, em efeito, mas tinha ligado para cancelar o encontro. Depois de sua conversa com Marie, seu humor no parecia o mais adequado para um encontro amoroso. Tinha pensado que talvez poderia passar um momento com seus companheiros em um desses bares do centro. Agarrou sua garrafa e olhou Jane ao tempo que dava um gole. Observou-a olhando-o, e se perguntou se supunha, erroneamente, que pelo fato de ter sido viciado nos tranqilizantes era, por extenso, alcolico. Em seu caso, uma coisa no tinha nada que ver com a outra.   
No. S estou aqui sentado, sozinho respondeu baixando a garrafa.
       Havia algo diferente nela aquela noite. Apesar da roupa escura, parecia mais doce, menos altiva. Um pouco mais bonita, inclusive. Seu cabelo, pelo geral recolhido em um rabo-de-cavalo, caa-lhe sobre os ombros formando uma cascata de cachos. Seus olhos verdes pareciam midos como folhas cobertas de orvalho, seu lbio inferior tinha um aspecto mais turgente, e as linhas formavam uma ligeira curva ascendente.
Acabo de jantar com Darby Hogue disse como se ele o tivesse perguntado.
       Onde?
       Em seu quarto? Isso explicaria o penteado, seu olhar e o sorriso. Luc jamais teria imaginado que Darby soubesse o que teria que fazer com uma mulher, e muito menos conseguir que tivesse esse olhar brilhante. E nunca lhe teria passado pela cabea que Jane Alcott, o anjo da escurido e da morte, pudesse parecer to clida e sexy.
No restaurante do hotel,  obvio respondeu ela. Seu sorriso desapareceu. Onde tinha pensado?
       No restaurante do hotel mentiu ele.
       Jane no acreditou, e pelo que podia supor, levando em conta o que sabia dela, tampouco ia deixar passar a questo.
No me diga que  dos que acreditam que me deitei com Virgil Duffy para obter o trabalho...
No voltou a mentir Luc. Todos perguntavam, embora ele no tinha muito claro se acreditava ou no.
       Estupendo, e agora me deito com Darby Hogue.
       Ele elevou uma mo.
       No  meu assunto.
       Enquanto soavam as ltimas notas do piano, Jane se sentou na poltrona em frente a ele e soltou um profundo suspiro. Necessitava de um pouco de paz.
Por que as mulheres tm que sofrer essa classe de estupidez? disse. Se fosse um homem, ningum me acusaria de me deitar com ningum para promover-me. Se fosse um homem, ningum pensaria que tenho que me deitar com meus entrevistados para obter informao. Limitariam-se a me dar um tapinha nas costas, a me estreitar a mo e a dizer... Fez uma pausa, franziu o cenho e acrescentou: Um bom artigo de investigao.  todo um homem. Um garanho. Passou os dedos pelo cabelo para afasta-los de seu rosto. As mechas caram para trs deixando  vista as diminutas veias azuis de seus pulsos, e em seu pulver se marcaram seus pequenos seios. Ningum te acusa de haver deitado com  Virgil para conseguir seu trabalho.
       Luc a olhou nos olhos.
       Isso se deve porque sou um garanho.
       Todos tinham uma cruz com a que conduzir, e desde o dia em que a penduraram, Luc no tinha tido a energia suficiente para fazer-se de simptico e compreensivo. No dispunha de tempo nem energia para preocupar-se com jornalistas arrogantes. Tinha seus prprios problemas, e um deles era a mulher que nesse momento estava  frente dele.
       Jane o olhou por sua vez e cruzou de braos. A luz fazia brilhar seu curto cabelo loiro. O azul de sua camisa ressaltava o de seus olhos. Depois dos dois martinis que tomou durante o jantar, tudo a seu redor parecia deslumbrante. Ou, com um mnimo, assim tinha sido at que Luc insinuou que ela e Darby se deitavam juntos.
Se tivesse pnis disse, ningum pensaria que fui pra cama com Darby.
Eu no o deixaria to claro. No estamos de todo seguros a respeito da orientao sexual desse rato. Luc se inclinou para agarrar sua cerveja e Jane sentiu que lhe dava um salto o corao quando a camisa dele abriu lhe permitindo entrever a clavcula, a parte superior do ombro e o musculoso pescoo.
       Jane poderia haver esclarecido a Luc suas dvidas sobre esse tema, mas no estava disposta a lhe dizer que durante o jantar Darby tinha pedido que lhe aconselhasse sobre garotas.
Como esto seus joelhos? perguntou ao tempo que apoiava os antebraos sobre a mesa.
       Perfeitamente respondeu ele, levando a garrafa  boca.
       No lhe doem nada?
       Luc baixou a garrafa e limpou com a lngua uma gota que tinha ficado em seu lbio superior.
O que acontece? No est a par de tudo? Pensei que tinha estado mexendo em meu passado.
       Sua presuno era desmesurada; entretanto, por alguma razo que no podia explicar, Jane achava Luc mais interessante que qualquer outro jogador dos Chinooks.
Realmente cr que no tenho nada melhor que fazer que esbanjar meu tempo pensando em voc? inquiriu Jane. Escavando na pequena histria de Luc Martineau?
Meu bem, no h nada pequeno na histria de Luc disse ele, sorrindo.
       A Jane que escrevia a coluna Solteira na cidade teria esgrimido uma engenhosa rplica. Bombonzinho de Mel o teria pego pela mo e o teria levado at o seu quarto. Teria-lhe desabotoado a camisa e teria posado a boca sobre seu peito quente. Teria respirado com fora sobre sua pele, percebendo o aroma de seu quente e forte corpo. Teria comprovado pessoalmente quanto do que se dizia dele era verdade. Mas Jane no era nenhuma dessas mulheres. A Jane autntica era muito inibida e consciente de si mesma, e odiava que o homem capaz de deix-la sem flego fosse o mesmo que podia ver em seu interior e a encontrava to deficiente.
       Jane?
       Ela piscou. 
       ---O que?
       Ele passou a mo por cima da mesa e roou as pontas de seus dedos.
       Encontra-te bem? 
       Sim.
       Luc apenas a tinha roado, mas Jane sentiu que uma espcie de corrente eltrica percorria a palma de sua mo e lhe chegava ao pulso. 
       No. Vou para meu quarto.
       O lcool, a presena de Luc e o esgotamento dos ltimos cinco dias formaram uma mescla que estalou em seu crebro enquanto procurava com o olhar os elevadores. Por uns segundos se sentiu desorientada. Nos ltimos cinco dias se alojaram em trs hotis diferentes, e de repente no conseguia recordar onde estavam os elevadores. Olhou para o mostrador da recepo e os localizou  direita. Sem pronunciar uma palavra, saiu do bar. Aquele encontro no tinha sido nada bom, disse-se enquanto percorria o vestbulo. Luc era to corpulento e abertamente masculino que a tinha alterado por completo. Deteve-se em frente s portas dos elevadores; sentia que as bochechas lhe ardiam. Por que ele? No gostava. Sim, achava-o interessante, mas isso no significava que gostasse. 
       Luc se aproximou dela pelas costas e apertou o boto do elevador.
       Vai subir? sussurrou-lhe ao ouvido.
Sim. Jane se perguntou quanto tempo devia ter permanecido ali como uma parva antes de ter se dado conta de que no tinha apertado o boto.      
       Bebeu? quis saber ele.
       Por qu?
       Cheira a vodca.
       Tomei dois martinis enquanto jantava.
Ah disse Luc ao tempo que se abriam as portas e entravam no elevador. A que andar vai?
       Terceiro.
       Jane olhou as botas, depois deslocou o olhar para os sapatos esportivos, azuis e cinzas, de Luc. Enquanto as comporta se fechavam, ele se apoiou contra a parede do fundo e cruzou uma perna sobre a outra. A prega de seus Levi's roou os laos dos cordes. Elevou a vista e percorreu suas longas pernas e suas coxas, o vulto do ventre e os botes de sua camisa at chegar o rosto. Dos limites do elevador, seus olhos azuis a olhavam fixamente.
       Eu gosto com o cabelo solto.
       Ela colocou uma mecha de cabelo atrs da orelha.
Eu no gosto de meu cabelo. No posso domin-lo, sempre cai sobre meu rosto.
       Isso no tem nada de mau.
       De modo que no? Como pensava, soava como se lhe houvesse dito seu traseiro no  to grande. Ento, por que o comicho que tinha sentido no pulso tinha chegado at seu estmago? As portas se abriram, lhe evitando o mau gole de encontrar uma resposta. Ela saiu primeiro e ele a seguiu.
       Qual  seu quarto?
       O trezentos e vinte e cinco. E a seu?
       Eu estou no quinto andar.
       Ela se deteve.
       Ento errou de andar.
No, no errei. Luc a agarrou pelo cotovelo com sua mo e percorreu com ela o corredor. Atravs do tecido do pulver, ela sentiu o calor de sua palma e seus dedos. No vestbulo dava a impresso de que estava a ponto de cair no cho.
No bebi tanto. Jane se teria detido outra vez se ele no tivesse continuado arrastando-a pelo corredor. Est me escoltando at meu quarto?
       Sim.
       Ela recordou a primeira manh, quando lhe levou a maleta e lhe disse que no estava tentando ser amvel.
       Est tentando ser amvel nesta ocasio?
No. Estarei com os meninos dentro de um instante e no quero ficar me perguntando a todo o momento se haveria chegado ou no ao seu quarto.
Isso te chatearia a diverso, no  assim?                                   
No, mas durante um momento no me permitiria me concentrar em Candy Peaks e seus movimentos de animadora divertida. Candy toma muito a srio, e seria uma descortesia por minha parte se eu no lhe prestasse toda minha ateno.
Est falando de uma dessas garotas que fazem strip-tease?     
       Elas preferem que as chamem bailarinas. 
       V.
       Luc lhe sacudiu o brao.
       Vai escrever sobre isso? perguntou.
No, no me importa sua vida privada. Jane tirou do bolso sua chave magntica. Luc a tirou da mo e abriu a porta antes que ela pudesse queixar-se.
Bem. Na realidade vou encontrar-me com os meninos em um bar que no fica muito longe daqui.
       Ela elevou a vista at as sombras que se formavam no rosto do Luc devido  escurido do quarto. No sabia qual das duas histrias acreditar.
       Por que me conta isso?
Para ver a ruga que se forma em sua frente quando franze o cenho.
       Jane sacudiu a cabea quando lhe devolveu a chave.
Veremo-nos, campe disse ele girando sobre seus calados. 
       Jane observou sua nuca e seus amplos ombros enquanto partia.
       At manh de noite, Martineau.
       Ele se deteve e a olhou por cima do ombro.
Tem pensado em entrar no vestirio?                                   
 obvio. Sou cronista esportiva e isso faz parte de meu trabalho. Como se fosse um homem.
       Mas no o .
       Pois espero que me tratem como se fosse.
Ento aceita um conselho: no baixe a vista disse ele, voltando-se de novo e pondo-se a andar. Desse modo no ruborizar como se fosse uma mulher.  
       Na noite seguinte, Jane se sentou nas cabines para a imprensa e presenciou a batalha dos Chinooks contra os Kings de Los Angeles. Os Chinooks saram forte e colocaram trs gols nos dois primeiros tempos. Dava a impresso de que Luc manteria a portaria a zero pela sexta vez na temporada, at que um estranho disparo se chocou contra a luva do defesa Jack Lynch e passou entre as pernas do Luc at alojar-se na rede. Ao final do terceiro tempo, o resultado era de trs a um, e Jane deixou escapar um suspiro de alvio. Os Chinooks tinham ganhado. Ela no era azarada. Ao menos, no foi essa noite. Continuaria conservando o trabalho quando se levantasse pela manh.
       Recordou com todo detalhe a primeira vez que entrou no vestirio dos Chinooks, e sentiu um n no estmago ao abrir a porta. Os outros jornalistas j estavam entrevistando o capito da equipe, Mark Bressler.
Ao final jogamos bem disse enquanto tirava a camiseta. Tiramos vantagem das superioridades numricas e aproveitamos nossas ocasies. O gelo estava brando esta noite, mas no afetou nosso jogo. Viemos aqui sabendo o que tnhamos que fazer e o temos feito.
       Sem afastar o olhar do rosto do Mark, Jane se aproximou com o gravadora Tirou as notas que tinha tomado durante a partida e lhes deu uma olhada.
Sua defesa lhes permitiu disparar trinta e duas vezes ao gol disse, levantando a voz para fazer-se escutar. Esto tentando os Chinooks fazerem com os servios de um defesa com experincia antes de que se encerre mercado de passes em 19 de maro?
Pensou que a pergunta mostrava que estava informada e conhecia o tema.
Essa  uma pergunta que s pode responder o treinador Nystrom respondeu Mark.
       Tinha sido muito otimista.
Marcou seu gol trezentos e noventa e oito esta noite, como se faz sentir isso? perguntou. Conhecia aquele detalhe porque tinha ouvido falar disso os reprteres de televiso nas cabines de imprensa. Sups que o capito faria algum comentrio ante aquele animador aviso.
       Bem se limitou a responder.
       De novo tinha pecado de otimista.
       Voltou-se e se dirigiu para Nick Grizzell, o escolta que tinha marcado o primeiro gol. As cuecas dos jogadores foram baixando uma aps outra, mostrando seus atributos,  medida que avanava, como se tivessem sincronizado. Manteve o olhar alto e  frente ao tempo que punha em marcha o gravador e registrava as perguntas de outros jornalistas. Seu editor do Times ignoraria se aquelas perguntas as tinha sido formulado por ela. Mas ela sabia, e os jogadores tambm. 
       Grizzell acabava de recuperar-se de uma leso, e lhe perguntou:
       Como se sentiu ao voltar para equipe e marcar o primeiro gol?
Bem respondeu ele, olhando-a por cima do ombro e tirando o calo.
       Jane j tinha suficiente dessa merda.
       Estupendo disse. Citarei sua declarao.
       Olhou para a bilheteria que havia a uns metros de distncia e viu Luc Martineau rindo dela. No havia nenhuma possibilidade de aproximar-se dele e lhe perguntar o que lhe causava tanta graa.
       Alm disso, no tinha a menor inteno de sab-lo.






5

Faz soar

       Jane se ajeitou em seu assento, colocou os culos e estudou a tela do computador porttil. Leu o que tinha escrito at esse momento:

       Seattle pe em xeque os Kings
       Os Seattle Chinooks se impuseram nas seis ocasies em que os jogadores de Los Angeles contaram com superioridade numrica e seu goleiro, Luc Martineau, deteve 23 disparos ao gol. Os Chinooks terminaram impondo-se por trs a um. Os Kings conseguiram colocar um gol em seu marcador nos ltimos segundos da partida, quando um mau disparo ricocheteou na luva do jogador de Seattle, Jack Lynch e acabou agasalhado na rede dos Chinooks.
       Os Chinooks jogaram com rapidez, sem medo, impondo-se a seus oponentes  fora de habilidade e coragem.
       No vestirio, o que gostam  intimidar as jornalistas baixando as calas. Sei de uma dessas jornalistas que gostaria de lhes dar uma boa patada onde mais di.

       Retrocedeu com o cursor e apagou o ltimo pargrafo. S seriam seis dias, disse-se. Os jogadores eram muito supersticiosos e receosos. Sentiam que lhes tinham imposto sua presena, e em realidade estavam certo. Mas era o momento de estacionar essas questes e fazer seu trabalho.
       Deu uma olhada aos jogadores, a maioria dos quais roncavam esgotados no avio. Como ia ganhar sua confiana ou seu respeito se no falavam com ela? Como resolver aquela ofensa e fazer que sua vida e seu trabalho fossem mais singelos?
       A resposta obteve de Darby Hogue.Na noite que chegaram a San Jos telefonou para seu quarto para lhe dizer que alguns dos jogadores iriam a um bar do centro da cidade.
       Por que no vem? props.
        Com voc? disse ela.
Sim. Poderia pr algo mais sexy, desse modo os jogadores talvez esqueam que  jornalista.
       Jane no levava nada sexy na mala, e embora assim fosse, no queria que os jogadores a vissem como essa classe de mulher. Precisava lhes fazer saber que deviam respeit-la como a qualquer outra jornalista profissional.
Me d quinze minutos e nos encontramos no vestbulo disse Jane, imaginando que relacionar-se com os jogadores fora da pista certamente ajudaria.
       Vestiu uma pantalona e um pulver de l e suas botas, tudo isso negro. Era sua cor favorita.
       Foi ao lavabo e recolheu o cabelo na nuca. No gostava que lhe tampasse o rosto, e no queria que Luc pensasse que lhe importava sua opinio. Olhou-se no espelho e apoiou uma mo no lavabo. O cabelo lhe caiu sobre os ombros formando escuras e brilhantes ondas e cachos.
       Tinha-a levado a seu quarto. Convencido de que se encontrava mal ou estava bbada, tinha-a acompanhado para assegurar-se de que chegasse s e salva. Aquele ato de inesperada amabilidade afetou Jane mais do que caberia esperar, sobre tudo porque o tinha feito, na verdade, para desfrutar de sua velada no local de strip-tease. Aquele singelo gesto a tinha impressionado, sem importar se desejava que a impressionassem ou no.
       Inclusive sendo to estpida para cair rendida ante um homem como Luc, com todas as possveis repercusses emocionais e profissionais que isso traria, ele jamais se sentiria atrado por uma mulher como Jane. E no era porque ela pensasse que no era o suficientemente atrativa ou interessante. Mas era realista. Ken conectava com Barbie. Brad tinha se casado com Jennifer e Mick saa com supermodelos. Assim era a vida. A vida real, e ela nunca tinha sido uma mulher preparada para suportar as dores que ocasiona um corao quebrado. Nunca tinha querido ser uma dessas mulheres s que pode deixar para trs quando acaba a relao. Sempre tinha ido ela primeiro. Doa menos. Talvez Caroline estivesse certa a respeito dela. Pensou em suas palavras e sacudiu a cabea. Caroline via muita televiso.
       Agarrou a escova uma vez mais e o penteou para trs. Passo batom de cacau nos lbios, agarrou a bolsa e foi encontrar se com Darby no vestbulo. Assim que o viu, quase ps-se a correr na direo contrria. Jane sabia que ela no era uma deusa da moda, mas tampouco tentava s-lo. Darby, por sua parte, no era um deus da moda, mas sim tentava s-lo. O que acontecia era que os resultados no eram nada afortunados.
       Aquela tarde usava uma cala de couro negra e uma camisa de seda estampada com chamas e caveiras prpura. A cala de couro era um grave engano para qualquer homem que no fosse Lenny Kravitz, mas duvidava que nem sequer este se atrevesse a vestir aquela camisa. Ao olh-lo, Jane compreendeu por que os jogadores dos Chinooks duvidavam sobre a orientao sexual de Darby.
       Tomaram um txi do hotel ao local Big Buddy's, um pequeno bar mais  frente do centro da cidade. Anoitecia e o vento arrastava gotas de chuva e um pouco de p. Ao apear-se, Jane viu a porta de um local e, em cima dela, um pster que dizia Temos as melhores costelas. Perguntou-se por que os Chinooks teriam escolhido aquele antro.
       Dentro do local, havia um televisor virtualmente em cada canto e, depois do balco, um pster de non vermelho e negro do Budweiser. Uma tira de luzes de cores continuava pendurada no espelho desde o Natal. Cheirava a tabaco, lcool ranoso, a molho e a carne assada. Jane sentiu asco.
       Sabia que se a viam com Darby corria o risco de acrescentar lenha ao fogo do rumor segundo o qual eram amantes, mas tambm supunha que no havia nada que pudesse fazer a respeito para evit-lo. Perguntou-se o que era pior, que a considerassem a amante de um tipo que vestia como um palhao ou amante de Virgil Duffy, um homem o bastante velho para ser seu av.
       Ouviu o tilintar das mquinas de milho e viu vrios integrantes dos Chinooks jogando hquei de mesa em um canto. Outros cinco estavam sentados ao balco, olhando a partida dos Rangers e dos Devils. Outra meia dzia rodeava uma mesa ante as jarras de cerveja, terrinas vazias de salada e pilhas de costelas rodas.
Ol, meninos! gritou Darby. Ao ouvir sua voz todos se voltaram para Darby e Jane.
       Os Chinooks pareciam caverncolas depois de dar uma festa com um lanzudo mamute, pois davam a impresso de estar cheios, contentes e relaxados. Mas no pareceu lhes causar muita alegria ver Darby, e menos a ela.
Jane e eu viemos a tomar umas cervejas prosseguiu ao tempo que afastava uma cadeira para Jane, que se sentou junto a Bruce Fish e em frente ao novato da loira crista de moicano. Darby se sentou a sua esquerda, na cabeceira da mesa. As vermelhas chamas e as caveiras cor prpura de sua camisa brilharam sob a tnue iluminao.
       Uma garonete que usava uma justa camiseta com o nome do local, Big Buddy, deixou dois guardanapos sobre a mesa e tomou nota do pedido de Darby. Assim que este pronunciou a palavra Margarita, perguntou-lhe se era maior de idade. Darby mostrou a contra gosto sua carteira de conduzir.
        falso disse um dos Chinooks. S tem doze anos.
Sou maior que voc, Peludo replicou Darby, guardando o documentou na carteira.
       A garonete se voltou para  Jane.
       Aposto que pede um margarita cochichou Fishy.
       Ou uma taa de vinho apontou algum.
       Um suco de frutas aventurou outro.
       Jane elevou a vista para o rosto da garonete.
       Tm gim Bombay Shapphire? perguntou.
       Claro.
Estupendo. Pois tomarei um dry Martini, e com trs azeitonas, por favor. Observou os rostos voltados voltas para ela. Eu adoro as azeitonas acrescentou com um sorriso.
       Bruce Fish soltou uma gargalhada.
       No prefere um Bloody Mary? Digo-o pelo aipo.
       Jane fez uma careta e negou com a cabea.
       Eu no gosto de suco de tomate.
       Olhou em direo a Daniel Holstrom. As luzes do balco lhe davam um tom rosado a sua crista loira de moicano. Perguntou-se se aquele jovem novato teria alcanado a maior idade. Tinha suas dvidas.
       Apresentaram-se duas garonetes mais, embainhadas em suas correspondentes camisetas apertadas, para limpar a mesa. Jane esperava algum outro galanteio subido de tom, pois os jogadores de hquei eram conhecidos por seu rude comportamento com as mulheres, mas no disseram nada alm de alguns agradecimentos. A conversar e desenvolveu ao redor de Jane, e no falaram nada mais significativo nem mais impressionante que o tempo ou o ltimo filme que tinham visto. Perguntou-se se teriam proposto aborrec-la. Suspeitava que possivelmente se tratasse disso, e podia dizer que o mais interessante at o momento tinha sido o reflexo de luz no cabelo do Daniel.
       Bruce, que captou o interesse do Jane pela crista do jogador sueco, perguntou-lhe:
       O que te parece o penteado que usa
       Jane acreditou perceber que Daniel se ruborizava levemente.
Eu gosto dos homens o bastante seguros de sua prpria masculinidade para no lhes importar ser diferentes.
No teve outra alternativa explicou Darby ao tempo que chegavam sua cerveja e o Martini de Jane.  novo na equipe, e todos as recm chegados tm que acontecer uma cerimnia de iniciao.
       O jovem assentiu como se tratasse de algo completamente lgico.
Em meu primeiro ano prosseguiu Darby, encheram meu carro com sua roupa suja.
       Todos em volta da mesa puseram-se a rir.
Minha primeira temporada foi com os Rangers. Rasparam-me a cabea e colocaram meus suspensrios na mquina de gelo confessou Peter Peluso.
       Bruce tomou flego, e Jane sups que poderia ter posto uma protetora mo sobre seu ventre se no tivesse estado sentado a seu lado.
Isso sim que  duro disse. Meu ano de novato, o passei em Toronto, e me atiraram a rua em roupa de baixo um monto de vezes. Asseguro-lhes que sei o que  passar frio. Tiritou para enfatizar sua afirmao.
V disse Jane bebendo um gole de sua bebida. Me sinto afortunada de que s me deixaram um camundongo morto diante da porta e me ligaram durante toda a noite.
       Algumas olhadas culpadas posaram nela por um instante.
Como est Taylor Lee? perguntou a Fishy, decidida a tirar ferro do assunto... no momento. Tal como imaginou, ele se lanou a relatar os mais recentes lucros de sua filha de dois anos, que incluam aprender ir ao lavabo e a repetir a conversao telefnica que tinha mantido com a pequena essa mesma tarde.
       Jane tinha lido um pouco sobre Bruce. Sabia que tinha passado por um desagradvel divrcio, o qual no lhe surpreendeu. Uma vez que conhecia um retalho de suas vidas, supunha que devia ser difcil manter uma famlia unida passando tanto tempo de viagem, sobre tudo se levasse em conta s prostitutas que freqentavam os bares dos hotis.
       Ao princpio Jane no se precaveu de sua presena, mas no lhe levou muito tempo as identificar. Estavam acostumadas a ter vestidos rodeados, curtos e decotados, e todas tinham esse olhar tpico de come homens.
Algum quer jogar dardos? perguntou Rob Sutter aproximando-se da mesa.
Antes que algum respondesse, Jane j se ps em p.
Eu respondeu, e pelo gesto que se desenhou na cara de Martelo ficou claro que no tinha contado com ela.                                      
No espere que te deixe ganhar disse ele.                                    
       Jogar dardos lhe tinha permitido Jane acabar a universidade. No esperava que ningum a deixasse ganhar.
No vai facilitar pra uma garota? disse ao tempo que agarrava a taa.
       Eu no dou vantagens a nenhuma mulher.
       Ela agarrou os trs dardos com a mo livre e cruzou o bar. Martelo no sabia, mas ia sofrer um grande abalo.
       Ao menos me explicar as regras, no?
       Explicou-lhe como jogar 501. Ela, por desconto, j sabia, mas perguntou como se no tivesse nem idia, e ele foi o bastante magnnimo para deix-la comear.
Obrigado disse Jane ao tempo que deixava o Martini em uma mesa prxima e se aproximava da linha. O alvo pendurava da parede a uns dois metros de distncia. Fez rodar o dardo entre os dedos agarrando-o pelo cano, comprovando seu peso. Era de uma marca barata. Ela preferia os que eram fabricados com noventa e oito por cento de tungstnio, com haste de alumnio e voadores Ribtex. A diferena entre os dardos de baixa qualidade como o que tinha entre as mos e os que ela possua era a que pode haver entre um Ford Taurus e um Ferrari.
       Colocou-se na linha, agarrou mal o dardo de propsito e se disps a atirar. No ltimo segundo se deteve.
       No esto acostumados a apostar com estas coisas?
Sim, mas no quero te tirar o dinheiro. Rob a olhou e sorriu como se houvesse dito algo muito divertido. Mas podemos apostar as bebidas. Quem perca tem que pagar as cervejas de todos.
       Ela esboou uma careta de preocupao.
OH. V. Bem, s tenho cinqenta dlares. Acha que d?
Deveria ser suficiente respondeu ele com a arrogncia prpria de um homem seguro de seu xito.
       Durante a seguinte meia hora, Jane deixou que acreditasse que a vitria era dele. Uns quantos jogadores os rodearam olhando e incomodando, mas quando Rob lhe levava duzentos pontos de vantagem e comeava a sentir compaixo por ela, Jane decidiu que j estava bem e ganhou quatro turnos seguidos. Os dardos eram uma coisa sria, e ela soube desfrutar seriamente dando uma surra a Martelo.
       Onde aprendeu a jogar assim? perguntou-lhe ele.
A sorte dos principiantes respondeu ela, esvaziando sua taa de um gole. Quem  o seguinte?
Eu jogarei. Luc deu um passo  frente e agarrou os jogo de dados de Rob. A luz do balco projetava sombras sobre seus largos ombros e um lado de seu rosto. Seu cabelo mido brilhava.
       Oua Luc, ela  uma profissional lhe advertiu Rob.
De verdade? Luc esboou um meio sorriso.  uma profissional, campe?
O fato de que tenha ganho Martelo, converte-me automaticamente em uma profissional?
No. Deixaste Rob acreditar que ia ganhar e depois o esmagaste. Isso sim te converte em uma profissional.
       Jane tentou no sorrir, mas no pde evit-lo.
       Tem medo? perguntou.
No muito. Luc meneou a cabea e um par de mechas loiras caiu sobre sua frente. Preparada?
No sei respondeu Jane. No tem muito esprito esportivo.
       Eu? Luc levou uma mo ao peito.
       Vi voc golpear os postes quando lhe marcam um gol.
       S sou competitivo. Deixou cair a mo de um lado.
Claro. Jane inclinou a cabea e o olhou fixamente nos olhos, cujo azul logo era perceptvel na semipenumbra do bar. Acha que poderia suportar perder?
No tenho a inteno de perder. Luc se dirigiu para a linha. Primeiro as damas.
       Quando de dardos se tratava, Jane no tinha compaixo, e no s era competitiva, mas tambm carecia por completo de esprito esportivo. Se queria que ela atirasse primeiro, no pensava em negar.
       Quanto dinheiro quer apostar?
       Ponho meus cinqenta contra seus cinqenta.
Muito bem. Jane conseguiu um dobro com seu primeiro tiro e anotou sessenta pontos em seu primeiro turno.
       Luc, cujo primeiro dardo ricocheteou contra o alvo, no obteve um dobro at o terceiro tiro.
       V a merda resmungou.
       Com o cenho franzido, caminhou at o alvo e tirou os dardos. Sob o foco de luz, estudou os voadores e as pontas.
Esto frouxos disse. Olhou Jane por cima do ombro e acrescentou: me Deixe ver os teus.
       Ela duvidava que seus dardos estivessem melhores, e caminhou at ele. 
       -As tuas no esto to ruins como os meus disse Luc enquanto comprovava as pontas com o polegar.
       Estava to perto, que se Jane se inclinasse um pouco se haveriam de se tocar com a frente.
Bem disse ela, tentando que sua voz soasse mais ou menos normal, como se o perfume do Luc no a aturdisse. Fica com os trs que queira, e eu ficarei com os outros.
No. Usaremos os mesmos dardos. Olhou-a fixamente. Desse modo, quando eu ganhar no poder chorar.
       Ela cravou seus olhos nele; sua proximidade fazia que o corao pulsasse com fora.
No fui eu a que tem feito ricochetear um dardo contra o alvo no primeiro tiro e depois culpei ao estado das pontas.
       Enquanto o corao lhe pulsava desbocado, ele parecia totalmente frio. Jane deu um passo para trs e ps um pouco de distancia entre o Luc e sua estpida reao.
E bem, pensa passar a noite toda falando, Martineau ---acrescentou, ou me vais permitir que te chute o traseiro?
       -Os dos dardos te fazer sentir importante, no ? disse ele, lhe entregando os dardos que considerava em melhor estado. Acredito que tem um desses complexos tpicos das garotas baixinhas adicionou, e foi unir se a um grupo de companheiros que estavam sentados em uma mesa um tanto afastada.
       Jane encolheu de ombros como se dissesse: Sim, e o que?, e caminhou at a linha. Com os ps perfeitamente afirmados no cho e o pulso solto e relaxado, lanou e obteve um dobro, um triplo e um simples. Luc caminhou at a linha ao tempo que ela retirava os dardos do alvo.
Tem razo disse Jane dirigindo-se para ele, estes so muito melhores. Os entregou. Obrigado.
       Luc fechou sua mo sobre a dela, pressionando os dardos contra sua palma.
       Onde aprendeu a atirar assim?
Em um pequeno bar perto da universidade de Washington. Jane sentia o calor da mo de Luc. Ia l pelas noites para pagar os estudos. Tentou soltar-se, mas ele apertou com mais fora e as pontas dos dardos se cravaram em sua pele.
       No havia por ali bares de strip-tease?
       Luc finalmente a soltou e ela deu um passo atrs.
No, isso ficava do outro lado do lago da universidade respondeu Jane, embora imaginasse que ele sabia exatamente onde havia bares como esses.
       Luc estava tentando deixa-la nervosa, e no o tinha conseguido at que se aproximou dela e lhe disse ao ouvido:
       Trabalhava em um desses bares?
       A pesar do calor que sentiu na nuca, se aprumou para responder, se no como Bombonzinho de Mel, sim com a suficiente frieza.
Acredito que  mais correto dizer que meu tipo no era o adequado para trabalhar em um desses locais.
       Ele baixou a voz, lhe acariciando a bochecha com seu quente flego ao lhe perguntar:
       E isso por que?
       Os dois sabemos o porqu.
       Ele deu um passo atrs e lhe olhou a boca antes de ascender lentamente at os olhos.
       No vestia da cor adequada?
       No.
       Voc no gosta das minissaias?
       No era o tipo de garota que procuram para isso.
No acredito. Sei por experincia que tambm procuram garotas midas. Eu as vi. Fez uma pausa e acrescentou: Embora,  obvio, isso foi em Singapura.
       Est tentando me deixar nervosa para ganhar a partida?
       Luc entreabriu os olhos.
       Estou conseguindo-o?
No mentiu ela e caminhou at o lugar onde estavam os jogadores. Vo acabar com as cervejas ou no?                      
       Rob lhe deu um tapinha na cabea.
        obvio, piralha.
       Piralha? Bom, ganhou um apelido, e devia ser melhor do que sem dvida utilizavam quando ela no estava diante. E lhe tinha dado um tapinha na cabea como se de um co se tratasse. Vou progredindo, pensou enquanto olhava Luc levantar a mo, lanar o dardo e crav-lo no centro do alvo.
A Luc incomoda mais perder que a qualquer outra pessoa que conhea lhe disse Bruce.
Talvez no ganhe advertiu Peter. Talvez lhe d a volta no marcador.
Esqueam, meninos. Jane meneou a cabea enquanto Luc cravava o segundo dardo fora da rea de pontuao e amaldioava como todo jogador de hquei.
       No vou deixar ganhar nada.
Perder talvez lhe faa jogar como um co raivoso manh de noite no Compac Center.
Sim, lembrem de quando perdeu por um mnima no boliche e na noite seguinte se levou por diante ao Roy recordou Darby.
Isso devia estar mais relacionado com os insultos que trocaram do que tivesse perdido nos boliches. 
       -Esse goleiro  muito rancoroso.
       Essa noite jogaram no estilo antigo.
Fosse qual fosse a razo, encetaram-se em meio da pista e, colega, foi bonito de ver.
       Quanto foi isso? quis saber Jane.
       No ms passado.

       No ms passado, e ainda restava mais de meia temporada pela frente. Luc seguia ante a linha de lanamento, olhando o alvo como se tratasse da meta de todos seus desejos. Um retalho de luz cruzou o barato carpete de cor vermelha e iluminou seus sapatos de pele e suas calas negras. Ento, como se dispusesse a lanar um mssil, cravou o dardo no dobro vinte conseguindo um total de sessenta e cinco pontos. Com a cara de poucos amigos entregou os dardos e Jane compreendeu que no estava satisfeito com a diferena de setenta e cinco pontos.
Se obtiver dez pontos adicionais pelo mais profundamente que crava os dardos, ainda teria possibilidades de ganhar disse ela. Na prxima vez, ponha algo mais de suavidade e algo menos de msculo.
       A suavidade no vai comigo.
       Como se ela no se desse conta! Colocou-se em posio, e justo quando estava a ponto de lanar o dardo, Luc disse a suas costas:
       Como pode recolher o cabelo to forte?
       Outros jogadores riram como se Luc fosse um tipo realmente divertido.
       Jane baixou o brao e o olhou.
Isto no  hquei disse. No se insulta o oponente no jogo de dardos.
       At agora replicou ele com um sorriso.
       Jane decidiu que lhe daria uma surra. Enquanto Luc continuava burlando-se dela, seus trs tiros somaram cinqenta pontos. De longe a sua pontuao mais baixa.
       Est a cento e dezesseis pontos atrs de mim.
No por muito tempo grunhiu ele. Aproximou-se da linha e conseguiu um dobro e um simples de vinte.
       Tinha chegado o momento de que lhe aporrinhasse um pouco.
Oua, Martineau. O que tem em cima dos ombros  uma cabea ou s um vcuo?
       Ele a olhou.
       No te ocorre nada melhor que dizer?
       Os outros Chinooks pareciam muito impressionados.
       Darby se aproximou dela e lhe sussurrou ao ouvido:
       No conseguiu impression-lo.
       Que demnios significa vcuo? perguntou Rob.
       Darby respondeu por ela.
       Significa vazia ou oca.
       Por que no diz simplesmente isso, Piralha?
       Sim. No pode chatear ningum usando palavras como essa.
       Jane franziu o cenho e cruzou de braos.
A vocs qualquer frase que no comece com Puta que pariu fica incompreensvel.
       Luc lanou seu terceiro dardo e anotou um total de oitenta pontos. Era o momento de deixar de se fazer de tonta e jogar a srio. Jane caminhou at a linha, elevou o brao e esperou que comeassem os comentrios. Mas Luc permaneceu em silncio, sem tentar p-la nervosa. Conseguiu fazer um triplo vinte, mas quando se dispunha a concentrar-se outra vez, Luc disse:
       Alguma vez usa roupa que no seja cinza ou negra?
        obvio respondeu ela sem olh-lo.
Tem razo. Ento, justo quando ia lanar, acrescentou: Seu pijama de vaquinhas  azul.
Como sabe que tem um pijama de vaquinha? perguntou um dos meninos.
       Luc no respondeu e ela o olhou. Ali estava, rodeado por seus companheiros, com as mos em jarras e um sorriso em seus lbios.
A outra noite sa de meu quarto habitao para comprar um pacote de M&M's explicou. Pensei que j estariam todos na cama, assim sa em pijama. Luc me espiou.
       Eu no estive espiando  ningum.
Pois sim que o fez. Jane lanou o dardo e conseguiu um dobro de dez. Luc esperou at o preciso momento em que ela se dispunha a lanar o terceiro dardo, para dizer: 
        E usa culos de lsbica.
       Jane nem sequer deu no alvo. Fazia anos que no lhe ocorria algo assim. 
No  verdade! exclamou, e imediatamente se deu conta de que possivelmente se mostrou muito veemente.
       Luc ps-se a rir.
So uns culos horrveis, com pequenas e quadradas armaes de cor negra, como as que usam as garotas de hoje em dia.
       Os Chinooks riam a gargalhadas.
culos de lsbica... repetiu Darby, partindo o peito de risada,
       Jane desencravou os dardos do alvo.
       No o so. So perfeitamente heterossexuais.
Deus do cu, o que acabava de dizer? culos heterossexuais? Aqueles tipos acabariam deixando-a louca. Respirou fundo para acalmar-se e passou os dardos a Luc. No permitiria que aquela turma de descerebrados a desconcentrasse.
No sou lsbica acrescentou. Embora no h nada mau em s-lo. Se fosse, levaria-o com orgulho.
Isso explicaria os sapatos interveio Rob.                                  
       Jane olhou os ps.
O que tm de mau meu Doutor Martens?                         
       Pela primeira vez na noite, Stromster se decidiu a falar:    
       So sapatos de homem disse.
       -Sapatos de homem? Jane o olhou. Antes te defendi quando falaram de sua crista de moicano. Esperava algo mais de voc, Daniel.     
       Baixou o olhar e pareceu repentinamente interessado por algo que havia do outro lado do local.
       Luc arrojou os dardos e anotou oitenta e oito pontos. Quando Jane se disps a lanar, todos os Chinooks comearam a burlar-se dela. A coisa se fez politicamente incorreta quando decidiram que se ela vestia com cores escuras era porque estava deprimida por ser lsbica.
No sou lsbica insistiu. Era filha nica e tinha crescido sem meninos ao redor,  exceo de seu pai,  obvio, mas ele no contava. Seu pai era um homem srio que nunca brincava sobre nada. Ela no tinha experincia confrontando as brincadeiras a que estava sendo submetida.
Tranqila, meu bem interveio Luc. Se eu fosse garota, tambm seria lsbica.
       Jane se disse que tinha duas opes. Zangar-se ou relaxar-se. Era jornalista, uma profissional. No estava viajando com a equipe para fazer amigos e, certamente, no estava ali para que se burlassem dela como se tivesse voltado para os tempos do colgio. Mas a aproximao profissional no tinha dado resultado, e tinha que admitir que preferia ser objeto de brincadeiras a que fizessem caso omisso dela. Por outra parte, esses tipos tambm se metiam com os jornalistas homens.
       Luc, realmente te converteu em uma prima Donnadisse.
       Luc riu entre dentes e seus companheiros o imitaram. Durante o resto da partida, Jane tentou tomar a dianteira, mas eram muito bons e levavam muitos anos de vantagem. Ao final, ganhou Luc por uma diferena de quase duzentos pontos, mas perdeu a batalha dialtica.
       De algum modo, graas a ter suportado aquelas brincadeiras e palavres, subiu alguns pontos na valorizao dos Chinooks. Riram de suas opinies, de sua maneira de vestir, de seus sapatos e de seu penteado, mas pelo menos no a tinham ignorado. Sem dvida se tratava de um progresso.
       Quando finalizasse a partida da noite seguinte, talvez quisessem falar com ela. No esperava que se convertessem em seus amigos, mas possivelmente no lhe fizessem passar to maus momentos no vesturio. Possivelmente lhe concedessem alguma entrevista e lhe dessem uma pausa usando cueca quando ela passasse.
       
       Do ralo de sua mscara, Luc viu cair o disco. Bressler o tirou de um golpe do crculo central e a batalha entre Seattle e San Jos comeou.
       Luc se benzeu, mas quando tinham jogado dez minutos do primeiro tempo, a sorte lhe abandonou por completo. O extremo direito dos Sharks, Teemu Selanne, aprontou um tanto. Foi um gol fcil. Luc deveria hav-lo detido. Toda a equipe acusou o golpe.
       Quando terminou o primeiro tempo, dois jogadores dos Chinooks necessitaram de pontos de sutura, e Luc tinha encaixado quatro gols. Dois minutos depois de ter dado comeo o segundo tempo, Grizzell recebeu uma tremendo batida na metade da pista. Caiu ao cho e no se levantou. Tiveram que tir-lo na maca. Ao cabo de dez minutos, Luc no bloqueou bem o disco com sua luva e o quinto gol dos Sharks subiu ao marcador. O treinador Nystrom substituiu Luc pelo segundo goleiro da equipe.
       O espao que separa a gol do banco  o caminho mais comprido na vida de um goleiro. Todo goleiro teve alguma vez uma m noite, mas para Luc Martineau era mais que isso. Tinha tido muitas noites ms durante a temporada que tinha jogado em Detroit para se se sentir cmo estivesse coma cabea sobre o machado. Havia-se desconcentrado, sentia que tinha perdido a sincronizao. Apesar de ver a jogada antes que tivesse lugar, atuava um segundo depois. O que lhe passava? Era a primeira partida mal de uma rpida descida? Um golpe de m sorte ou uma tendncia? O princpio do fim?
       Uma apreenso e um medo real que jamais se atreveu a admitir ocuparam seu peito e percorreu sua nuca. Sentiu-o ao tempo que se sentava no banco para ver o resto da partida dali.
Todo mundo tem uma noite m lhe disse o treinador Nystrom no vestirio. Roy a teve o ms passado. No se preocupe, Luc.
Nenhum de ns jogou como devia esta noite lhe disse Sutter.
Deveramos ter jogado melhor para voc apontou Bressler. s vezes esquecemos de lhe proteger.
       Luc, entretanto, no se livraria de sua frustrao com tanta facilidade. Nunca tinha culpado a ningum, era o responsvel nico pelo modo como jogava.
       Quando o avio decolou de So Francisco, sentou-se na cabine s escuras revivendo seu passado, e no precisamente os melhores momentos. A terrvel dor nos joelhos, as operaes e os meses de reabilitao. Seu vcio aos tranqilizantes e as horrorosas dores corporais e as nuseas que sentiu quando deixou de tom-los. E, em ltima instncia, sua incapacidade para jogar o que mais queria.
       O fracasso sussurrou em seu ouvido caminho de casa, lhe dizendo que tinha perdido a sorte. O resplendor da tela do computador porttil de Jane Alcott e o som das teclas lhe asseguraram que todo mundo saberia em breve. Na seo esportiva do peridico poderia ler a crnica de sua desastrosa noite.
       No aeroporto de Seattle, Luc se dirigiu ao estacionamento para estadias de larga durao e deu uma olhada em Jane, que carregava seus pertences em um Honda Prelude.  Olhou-o ao passar, mas nenhum dos dois disse nada. Ela no parecia necessitar que a ajudasse com as malas, e ele no tinha nada o que dizer ao anjo da morte e da escurido.
       As primeiras gotas de chuva molharam o pra-brisa de seu Land Cruiser enquanto percorria os quarenta e cinco minutos que o separavam do centro de Seattle. Nunca havia voltado to triste pra casa.
       A luz da lua atravessava as altas janelas enquanto ele se movia por seu apartamento. Tinha ficado acesa uma luz, que iluminava diretamente um pacote do FedEx que repousava sobre a mesa. Chegou a seu dormitrio e acendeu a luz. Deixou a porta entreaberta e deixou sua bolsa no cho junto  cama. Tirou-se a jaqueta e a pendurou no armrio. Desfaria a mala no dia seguinte. Encontrava-se cansado, aliviado de ter chegado em casa, e no desejava outra coisa que tombar-se na cama.
       Estava afrouxando o n da gravata justo quando Marie bateu na porta e a abriu. Usava calas de pijama e uma camiseta da Britney Spears. Parecia que tinha dez anos.
       Sabe o que, Luc?
Ol. Luc olhou seu relgio. Era mais de meia-noite; por que no podia esperar  manh seguinte? Perguntou-se se Marie teria continuado se ausentando do colgio desde que tinham falado da ltima vez. Temia inclusive averigu-lo
       . O que acontece?
       Abriu muito seus olhos azuis e sorriu.
Queria te perguntar sobre o baile disse ela com um amplo sorriso e os olhos muito abertos.
       Que baile?
       O baile da escola.      
Luc se lembrou do sobre do FedEx que estava na cozinha. Encarregaria-se dele ao dia seguinte.
       Quando ?
       Dentro de umas semanas.
       Talvez dentro de umas semanas ela j no vivesse ali. Mas no tinha por que sab-lo naquele instante.
       Quem te pediu que v com ele?
       Abriu inclusive um pouco mais os olhos e se afastou dele dentro do quarto.
       Zack Anderson. Est no ltimo ano.
       Merda.
Toca em uma banda! acrescentou Marie. Usa um aro no lbio e tem piercings no nariz e nas sobrancelhas. Tambm tem tatuagens
       Merda. Merda. Luc no tinha nada contra as tatuagens, mas os piercings eram algo muito distinto. Deus bendito.
       Em que banda toca?
       Os Parafusos Lentos.
       Genial.
Tenho que comprar um vestido. E uns sapatos. Marie se sentou na borda da cama e juntou as mos entre os joelhos. A senhora Jackson disse que me levaria s compras. Olhou-o com expresso de splica. Mas  muito velha.
Eu sou um tio, Marie; no tenho nem idia de comprar vestidos para bailes de fim de curso.
Mas tem um monto de namoradas. Sabe muito de vestidos bonitos.
       Para mulheres. No para meninas. E muito menos para sua irm, sobre tudo se era para ir a um baile ao que provavelmente no ajudaria. Inclusive em caso de ajudar, no iria com o tal Zack dos Parafusos Frouxos ou como se chamasse. O tipo com o aro no lbio e o piercing no nariz.
       Nunca tive um encontro confessou Marie.
       Luc deixou cair as mos aos lados e a olhou atentamente. Observou que suas sobrancelhas pareciam muito espessas e seu cabelo parecia um pouco seco. Saltava  vista que necessitava de uma me. Uma mulher que lhe desse uma mo. No a algum como ele.
       Como gostam os meninos que se vistam as garotas? perguntou.
       O mais curto possvel, pensou Luc.
Manga longas. Pensamos que as mangas longas e os pescoos de cisne esto muito bem. E os vestidos longos, para que no possamos nos aproximar muito.
       Ela se ps-se a rir.
       Fala srio.
Juro por Deus que sim, Marie disse ele. Tirou a gravata e a deixou na mesinha de noite. Ns no gostamos que mostrem muita pele. Ns gostamos que vistam como se fossem monges.
       Agora sei que est mentindo.
       Voltou a rir e ele pensou que era vergonhoso que no a conhecesse melhor. Era seu nico parente e no sabia nada dela. E cabia a possibilidade de que no chegasse a conhec-la melhor. Uma parte de si mesmo desejava que as coisas fossem diferentes. Desejava passar mais tempo em casa, e saber o que era que Marie necessitava.
Amanh depois da aula te darei meu carto de crdito. Luc se sentou junto a ela e se desatou os sapatos. Compra o que necessite e eu darei uma olhada quando o trouxer a casa.
       Marie ficou em p, encolheu de ombros e fez uma careta com os lbios.
       De acordo disse, e foi para o seu quarto.
       Merda, ia se  zangar outra vez. Mas realmente esperava ela que ele a acompanhasse a comprar um vestido para o baile de fim de curso? Como se fosse sua noiva? Como poderia zangar-se por algo assim? Nem sequer gostava de ir s compras com mulheres de sua mesma idade.













6

Emprestada

       Quando Jane por fim se obrigou a sair da cama na manh seguinte, vestiu uma calcinha, um prendedor velho e um moletom e levou a roupa suja  lavanderia. Enquanto esperava a que se fizesse a lavagem, abriu um exemplar da revista People e ficou ali lendo.
       No tinha que ir a nenhuma parte esse dia. No tinha que redigir nenhum artigo com urgncia. No tinha que fazer nada relacionado com seu trabalho at a partida da noite seguinte. Comprou uma Coca-cola na mquina vendedora, sentou-se em uma cadeira de plstico, e desfrutou do mundano prazer de observar como funcionava a secadora. Extraiu a seo imobiliria do peridico local e estudou as casas em venda. Graas aos ganhos suplementares das crnicas de hquei, tinha calculado que quando chegasse o vero teria economizado o dinheiro suficiente para pagar vinte por cento do preo de uma casa, mas quanto mais procurava mais decepcionada se sentia. Com duzentos mil dlares no se podia comprar grande coisa.
       No caminho pra casa se deteve no supermercado para comprar a comida da semana. Era seu dia livre, mas ao seguinte os Chinooks se enfrentavam com os Chicago Blackhawks no Key Arena. Jogavam em casa as quintas-feiras, sbados, segunda-feira e quarta-feira de noite. Trs dias depois dessa ultima partida, voltariam a sair de viagem. De volta ao avio. De volta aos nibus e a dormir em hotis.
       Escrever a crnica da derrota dos Chinooks por seis a quatro contra os Sharks foi uma das coisas mais duras com as que tinha tido que lutar em sua vida. Depois de conversar e jogar aos dardos com os jogadores, sentia-se como uma traidora, mas tinha que cumprir com seu trabalho.
       E Luc... V-lo encaixar seis gols tinha sido to desagradvel como v-lo sentado no banco. Olhando fixamente para diante, com o rosto inexpressivo... sentiu-se mal por ele. E se sentiu mal porque tinha que ser a que contasse os detalhes do ocorrido; mas, de novo, era seu trabalho, e o fez.
       Quando chegou a casa, havia uma mensagem do Leonard Callaway na secretria eletrnica lhe pedindo que se encontrassem  manh seguinte em seu escritrio do Times. Jane pensou que aquela mensagem no pressagiava nada bom respeito a seu trabalho como cronista esportiva.
       E estava certa. Despediu-a.
Decidimos que o mais conveniente  que no siga cobrindo as partidas dos Chinooks. Jeff Noonan o far em lugar do Chris  disse Leonard.
       Estavam jogando-a e lhe dando seu posto ao perseguidor andante.
       Por que? O que passou?
       Ser melhor que no entremos nisso.
       Os Chinooks no tinham jogado as melhores partidas da temporada na ltima semana, por no falar do espetacular fagote do Luc.
       Acreditam que sou azarada, verdade?
       Acreditam que  uma possibilidade.
       Adeus a sua oportunidade de escrever um artigo importante. Adeus vinte por cento de sua nova casa. E tudo porque alguns estpidos jogadores de hquei pensavam que lhes dava m sorte. Bom, no podia dizer que no o tivessem advertido ou que no o esperasse, em certa medida. Mesmo assim, ter estado sobre aviso no fazia que ficasse mais fcil assimil-lo.
Quais so os jogadores que acreditam que lhes dou m sorte?  Martineau?
       No entremos nisso insistiu Leonard, mas no o negou.
       Seu silncio a feriu mais do que deveria hav-lo feito. Luc no significava nada para ela e, sem dvida, ela no significava nada para ele. Menos que nada. O sempre se negou a que viajasse com a equipe, em primeiro lugar, e Jane estava segura de que era ele quem estava por trs de sua demisso. Esboou um sorriso apesar de que o que desejava era gritar ou espernear ou acusar a seu chefe de demisso improcedente ou sexismo Ou... qualquer outra coisa. Talvez inclusive que tivesse caso. Mas talvez no constitua uma garantia boa o bastante, e fazia tempo que sabia que no teria que ir queimando pontes. Ainda ficava a coluna Solteira na cidade no Times.
Bom, obrigado por me haver dado a oportunidade de escrever crnicas esportivas disse ao Leonard lhe estreitando a mo. Viajar com os Chinooks foi uma experincia que jamais esquecerei.
       Seguiu com o sorriso posto at que saiu do edifcio. Estava to zangada que tinha vontades de pegar a algum. Algum com olhos azuis e uma ferradura tatuada justo em cima de suas partes ntimas.
       Sentia-se trada. Tinha chegado a pensar que estava fazendo progressos, mas os jogadores lhe tinham dado as costas. Possivelmente se no tivesse ganho nos dardos, se no tivesse falado com eles a seu estilo, e se eles no a tivessem apelidado Tiburoncito no se sentiria to trada. Mas assim era como se sentia. Inclusive se havia sentido mal fazendo seu trabalho, relatando os acontecimentos da ltima partida. Assim era como a pagavam? Desejava que todos sofressem os efeitos de uma epidemia de p de atleta. Ao mesmo tempo.
       Durante os dois dias seguintes, no saiu de seu apartamento. Sentia-se to deprimida que limpou todos os armrios. Enquanto branqueava o lavabo, subiu o volume do televisor e s se sentiu um pouco afetada quando ouviu que os Chinooks tinham perdido com os Blackhawks por quatro a trs.
       A quem culpariam esta vez?
       Ao terceiro dia, seu aborrecimento no tinha diminudo, e sabia que s existia um modo de livrar-se dele. Tinha que encarar-se com os jogadores se queria recuperar sua dignidade.
       Sabia que estariam no Key Arena, patinando um pouco antes da partida, assim, sem pensar duas vezes, vestiu uns jeans e um pulver negro e conduziu at Seattle.
       Entrou pela sobreloja e seu olhar se dirigiu diretamente para a portaria vazia. S havia uns poucos jogadores treinando. Com um n no estmago, Jane desceu as escadas e se encaminhou para o vestirio.
Ol, Fishy disse quando se cruzou com ele no tnel de vestirios. Estava esquentando a p de seu stick com um maarico.
       Ele elevou a vista e apagou o maarico.
       Esto os meninos no vestirio? perguntou Jane.
       A maioria, sim.
       Luc est?
No sei, mas no gosta de falar com ningum nos dias de partida.
       Pior para ele. A sola de suas botas chiaram sobre o piso de borracha do corredor e as cabeas se voltaram para ela no momento em que entrou no vestirio. Elevou uma mo.
Deixem as cueca no lugar disse enquanto se dirigia ao centro daquela habitao cheia de homens semidesnudos. S vou ocupar uns minutos de seu tempo, e prefiro que no sincronizem sua baixada de cueca.
       Olhou-os um por um, jogou os ombros para trs e manteve a cabea alta. No viu Luc. O maldito bode talvez tivesse se escondido.
Estou convencida de que j sabem que no vou cobrir mais as partidas dos Chinooks, e eu gostaria que soubessem que jamais esquecerei o tempo que passamos juntos. Viajar com vocs, moos, foi... muito interessante. aproximou-se do capito Mark Bressler e lhe deu a mo. Boa sorte para a partida desta noite, Assassino.
       Ele a olhou durante uns segundos; parecia como se Jane tivesse deixado um pouco nervoso  aquele central de mais de cem quilogramas de peso.
Obrigado disse ele finalmente correspondendo ao aperto de mos. Ver a partida aqui?
       No. Tenho outros planos respondeu Jane. 
       Voltou-se para olhar o resto de jogadores uma vez mais.         
       Adeus, boa sorte, e espero que este ano ganhem a liga.
       Sorriu, deu meia volta e saiu. Tinha-o feito, disse enquanto percorria o corredor. No a tinham feito ir com o rabo entre as pernas. Tinha-lhes demonstrado que tinha classe e dignidade e que era capaz de ser magnnima.
       Desejou que todos sentissem remorsos de conscincia. Autnticos remorsos de conscincia. Observou os ladrilhos de borracha enquanto percorria o tnel de vestirios, mas se deteve um segundo quando se encontrou de frente a um peito de esculturais msculos, uns marcados abdominais e uma ferradura tatuada justo por cima das cueca. Era Luc Martineau. O olhar do Jane subiu pelo peito, a mandbula e a boca, at alcanar a profunda sensualidade de seu lbio superior, chegando a seu reto nariz e seus formosos olhos azuis, que a olhavam fixamente.
       Voc! exclamou ela.
       Ele arqueou lentamente uma sobrancelha ao tempo que Jane explorava.
Voc  o culpado disse Jane. Sei que foi voc. Suponho que no te importava que eu necessitasse do trabalho. Voc falha como goleiro e me despedem. Sentiu que lhe ardiam os olhos e isso a avivou ainda mais A quem culparam pela ltima derrota? E se hoje perdem, a quem iro culpar? Voc... voc... gaguejou. A parte racional de seu crebro lhe disse que fechasse a boca, que o deixasse enquanto pudesse. Que seguisse caminhando e deixasse Luc para atrs agora que ainda conservava sua dignidade.
O mau era que j tinha ido muito longe para escutar  parte racional de seu crebro.

Chamou-lhe de pedao de tolo? perguntou Caroline essa mesma noite enquanto as duas estavam sentadas no sof de Jane observando as chamas da chamin de gs atrs dos falsos troncos. Por que no te soltou o cabelo e lhe chamou cabea de chourio tambm?
       Jane grunhiu. Tinham passado umas quantas horas, mas seguia retorcendo-se de vergonha.
Deixa-o j suplicou subindo os culos sobre a ponta do nariz. O nico consolo que fica  que nunca mais voltarei a ver Luc Martineau.
       Mas nem sequer tinha pensado que pudesse esquecer o modo em que ele tinha reagido: uma espcie de sobressalto seguido de risadas. Jane tinha querido morrer nesse mesmo instante, mas no podia lhe culpar por haver rido dela. Provavelmente no lhe tinham chamado pedao de parvo da escola primria.
Que droga disse Caroline antes de levar a taa de vinho aos lbios. Tinha recolhido seu brilhante cabelo loiro em um perfeito rabo-de-cavalo e, como sempre, estava preciosa. Tinha pensado que poderia me apresentar ao Rob Sutter.
Martelo? Jane meneou a cabea e bebeu um gole de seu gim-tnica. Sempre tem o nariz torto e algum olho arroxeado.
       Caroline sorriu com expresso sonhadora.
       Sei disse.
       Est casado e tem uma filha.
       Hummm, bom, a algum solteiro, ento.
       Pensava que saa com algum.
       Assim , mas no vai funcionar.
       Por que?
No sei respondeu Caroline com um suspiro, e deixou a taa de vinho sobre a mesinha de caf. Lenny  bonito e rico, mas to aborrecido.
       O que significava que devia ser bastante normal. Caroline tinha um talento natural para engrandecer qualquer mnimo defeito.
       Quer que vejamos a partida? perguntou Caroline. 
       Jane negou com a cabea.
       Que seja.
       Tentava-lhe a idia de passar os canais com o controle remoto e ver como ia o marcador. Mas isso s faria que as coisas piorassem.
Talvez percam os Chinooks. Isso possivelmente te faria sentir melhor.
       Absolutamente.
No. Jane apoiou a cabea no sof estofado com motivos florais. No quero voltar a ver uma partida de hquei nunca mais.
       Mas no era certo. Queria estar nas cabines de imprensa ou ocupando um assento perto da ao. Queria sentir a energia, presenciar uma partida, a luta nas esquinas, ou ao Luc efetuando uma parada perfeita.
Justo quando acreditava que estava fazendo progressos com os meninos da equipe, do-me uma patada no traseiro. Ganhei Rob e Luc jogando dardos, e mexeram comigo dizendo que usava culos de lsbica. E essa noite j no me chamaram por telefone. Sei que no fomos amigos, mas pensei que estavam comeando a confiar em mim e a me aceitar. Repensou durante uns segundos e acrescentou: So uns energmenos.
       Caroline deu uma olhada a seu relgio.
Estou aqui um quarto de hora e ainda no me falou do que realmente importa.
       Jane no teve que lhe perguntar a sua amiga a que se referia. Conhecia muito bem Caroline.
Acreditava que tinha vindo a me apoiar, mas o nico que quer  que te conte histrias do vestirio.
Vim para te apoiar... voltou-se por volta de Jane e estendeu um brao sobre o respaldo do sof. Mais tarde.
       J no devia aos jogadores nenhuma classe de lealdade, e alm tampouco ia escrever um livro sobre eles.
De acordo disse, mas no  como achas. No era em plano um monto de corpos musculosos e eu a nica mulher. Bom, era assim, mas tinha que manter o olhar alto, porque cada vez que aparecia um jogador, tirava a cueca.
Tem razo disse Caroline estirando-se para sua taa de vinho. No  como eu tinha imaginado.  melhor.      
Falar com um homem nu se estiver totalmente vestida  muito mais duro do que pensas. Esto suados e sufocados e no tm vontades de falar. Faz-lhes uma pergunta e eles se limitam a grunhir em resposta.
Soa como se estivesse falando dos ltimos trs homens com os que estive enquanto fazamos amor.
No  to divertido como fazer o amor, me acredite. Jane meneou a cabea. Alguns simplesmente no me dirigiam a palavra, e isso dificultava em extremo meu trabalho.
Sim, estou ciente dessa parte. Caroline assentiu com a cabea. Mas me diga, qual  o que est melhor?
       Jane repensou durante uns segundos.
Bom, todos esto muito bem. Tm pernas fortes e torsos poderosos. Mark Bressler provavelmente seja o mais musculoso, mas Luc Martineau tem uma ferradura tatuada no ventre que te d vontade de se pr de joelhos e beij-la para que lhe d sorte. E seu traseiro..., simplesmente  perfeito. levou-se o copo frio  frente. O mau  que  um casulo.
       Ou seja, que voc gosta.
       Jane baixou o copo e olhou pra Caroline. Gostava? Gostava de Luc? O tipo que tinha feito que a despedissem? A raiva que sentia por Luc e a dor que lhe provocava superavam a fria que sentia contra todos os outros jogadores juntos. Quando repensava nisso se dizia que com toda probabilidade no estava sendo racional, pois no o conhecia e ele no conhecia ela. O que se passava  que ela acreditava que tinham ido riscando uma possvel amizade e, para falar a verdade, tinha que admitir que tambm se foi encaprichando ligeiramente dele. No, encaprichando era uma palavra muito forte. Interessando descreveria melhor seus sentimentos.
Eu no gosto disse, mas tem um desses acentos canadenses que s se detectam em certas palavras.
       OH, OH.
       O que acontece? Eu disse que no gosto.
Sei o que disse, mas sempre lhe deixaram louca os homens com acento.
       Desde quando?
       Desde o Balki em Primos lejanos.
       A telecomedia?
Sim, voc adorava Balki porque tinha acento. No te importava que fosse um perdedor que vivia com sua prim.
No, eu adorava Bronson Pinchot. No Balki. Jane ps-se a rir. E esse mesmo ano, voc perdia o traseiro pelo Tom Cruise. Quantas vezes vimos Top Gun
Pelo menos vinte. Caroline bebeu um gole de vinho. J naquela poca lhe atraam os perdedores.
       Eu o denomino ter expectativas realistas.
 mas bem como te vender  baixa porque padece o tpico complexo de abandono.
       Est bbada? .
 	Caroline negou com a cabea.
No, li sobre este tema em uma revista enquanto esperava na consulta de meu ginecologista na semana passada. Como sua me morreu, tem medo de que todo aquele a quem ame te abandone.
O que demonstra que se escrevem um monto de tolices nas revistas. E ela deveria sab-lo. Faz uma semana me disse que tinha um complexo com o de deixar as relaes porque tinha medo de ficar pendurada. Lembra-se.
       Caroline se encolheu de ombros.
       Obviamente, trata-se do mesmo complexo.
       Claro.
ficaram contemplando o fogo da chamin durante uns quantos minutos mais. Finalmente, Caroline sugeriu:
       Saiamos. 
        quinta-feira. 
       Sei, mas nenhuma das duas trabalha amanh.
       Talvez passar a noite fazendo p dos ouvidos escutando a uma banda de rock fosse justo o que Jane necessitava para tirar da cabea a partida de hquei que deveria ter estado presenciando. Se saassem do apartamento, ela poderia evitar ligar o televisor. Baixou a vista para observar sua maltratada camiseta verde e seu jeans. Necessitava de um novo material para sua coluna Solteira na cidade.
       De acordo, mas no vou trocar me de roupa.
       Caroline, que essa noite usava um pulver Tommy Hilfiger com uma bandeira americana no peitilho muitos justos, olhou a Jane, arregalou os olhos e disse:
       Ao menos te ponha as lentes de contato.
       Porqu?
Bom, no queria te dizer nada porque te quero e tudo isso, e porque sempre te estou dizendo como deveria te vestir e eu no gostaria que se sentisse mal, mas os indesejveis da ptica Eye Care lhe mentiram.
       Jane no achava que seus culos estivessem to mal.
       Est segura de que no ficam bem?
Sim. Se te disser isto  porque no quero que as pessoas pensem que eu sou a garota e voc o menino.
       Voc tambm, Caroline?
       -O que te faz acreditar que as pessoas dariam por obvio que voc  a garota e eu o menino? perguntou Jane ao tempo que ficava em p e se dirigia ao lavabo. Cabe a possibilidade de que as pessoas pensassem que voc  o menino. produziu-se um silncio na outra habitao e Jane tirou a cabea pela porta. E bem?
       Caroline se aproximou da chamin para pint-los lbios olhando-se no espelho que pendurava em cima do suporte.
       E bem, o que?
       Voltou a colocar a batom em sua pequena bolsa de mo.
O que te faz acreditar que as pessoas dariam por obvio que voc  a garota e eu o menino? voltou a perguntar.
OH, est falando a srio? Suponho que acha isso engraado.
       Na manh seguinte, s nove em ponto, o telefone do Jane comeou a soar. Era Leonard. Chamava-a para lhe dizer que Virgil e ele, junto  equipe de direo dos Chinooks, tinham reconsiderado sua precipitada deciso. Queriam que voltasse a ocupar seu posto como cronista esportiva. Eles que queriam que estivesse na cabine de imprensa durante a partida da noite seguinte contra St. Louis. Ao ouvir aquilo Jane no soube o que responder. Jogou-se na cama e se limitou a escutar o que Leonard dizia.
       Ao que parecia, depois de sua visita ao vestirio, a equipe tinha jogado uma maravilha. Bressler marcou trs tantos depois de que deu a mo, e Luc voltou a ser o excelente goleiro de sempre. O resultado foi seis a zero, e Luc superou em paradas o seu rival, Patrick Roy.
       Da noite para o dia, a sorte de Jane Alcott tinha mudado.
No sei, Leonard -disse enquanto afastava o edredom amarelo e se sentava em um canto da cama. Tinha ressaca devido  sada da noite anterior e lhe custava pensar com clareza. No posso voltar a ocupar o posto e me perguntar uma e outra vez se vou ser despedida cada vez que os Chinooks perderem uma partida.
       No ter que voltar a preocupar-se por isso.
       No acreditou, e se decidisse ocupar de novo o posto, no ia lanar-se de cabea como da vez anterior. Para falar a verdade, ainda estava muito afetada. 
       Eu pensarei disse isso.
       Depois de pendurar o fone, preparou-se uma xcara de caf e comeu um par de bolachas para acabar com a sensao de vazio. No tinha se metido na cama at as duas da manh, e estava arrependida de ter esbanjado o seu tempo e seu dinheiro saindo pra beber. Tinha sido incapaz de pensar em algo que no fosse sua demisso.
       Enquanto comia, refletiu sobre a nova oferta de Leonard. Os Chinooks a tinham tratado como a uma leprosa e a tinham culpado de suas derrotas, e agora, de repente, pensavam que lhes dava boa sorte? Acaso queria submeter-se aos caprichos daquele bando de supersticiosos que tiravam a cueca diante dela e a incomodavam com chamadas noturnas?
       Quando acabou de comer, meteu-se na ducha e fechou os olhos enquanto a gua quente caa sobre seu corpo. Realmente queria viajar com um goleiro capaz de atravess-la com o olhar? Apesar de que lhe acelerasse o pulso, sem importar se isso era ou no o que ela desejava? Disse-se que no. Mesmo que Luc e ela se gostassem, o qual claramente no era certo, j que ele s tinha olhos para mulheres altas e preciosas.
       Cobriu a cabea com uma toalha e colocou os culos enquanto se secava. Depois escolheu um prendedor transparente, uma camiseta branca da universidade de Washington, e um velho jeans com buracos nos joelhos.
       Soou a campainha da porta e, quando olhou pela mira, viu um homem com culos de sol Oakley, bem penteado e de bom aspecto, idntico a Luc Martineau. Abriu a porta porque acabava de pensar nele, e no estava segura de que no se tratava de uma m passada de sua imaginao.
       Ol, Jane a saudou Luc. Posso entrar?
       Uma novidade, Luc mostrando-se amvel. J no tinha dvida alguma: era uma m passada de sua imaginao.            
       Por que?
       Queria falar do que passou.
       Ocorreu de novo. Disse falarr em lugar de falar, e soube que aquele era o autntico Luc.
       Quer dizer sobre minha demisso, da que voc  culpado.
       Tirou os culos de sol e os guardou no bolso de sua jaqueta de pele. Tinha as bochechas rosadas e o cabelo alvoroado, e atrs dele estava estacionada sua motocicleta.                                              
Eu no fiz com que lhe despedissem. Ao menos, no diretamente. Ao ver que ela no respondia, perguntou: Vai me convidar para entrar ou no?
       Jane tinha o cabelo envolto em uma toalha e o ar frio lhe tinha deixado a pele arrepiada. Optou por deixa-lo entrar.
       Sente-se disse enquanto ele a seguia at o salo.
       Deixou-lhe a ss um momento para ir tirar a toalha e secar o cabelo. De todos os homens do mundo, Luc era o ltimo que ela teria imaginado ter sentado na sala de sua casa.
       Penteou-se e secou o cabelo o melhor que pde e, durante um par de segundos, pensou em pintar os olhos e os lbios. Mas desprezou a idia imediatamente. O que fez sim foi trocar os culos pelas lentes de contato.
       Com o cabelo mido, retornou  sala. Luc estava de costas pra ela, estudando as poucas fotografias que havia sobre o suporte da lareira. Tinha deixado a jaqueta no sof. Vestia uma camisa branca, com os punhos arregaados mostrando seus musculosos antebraos. Uma ampla ruga lhe percorria as costas at entrar nos jeans Lucky Brand. Sua carteira aparecia por um dos bolsos e as costuras emolduravam seu traseiro. Olhou-a de cima abaixo por cima do ombro.
Quem so essas duas? perguntou Luc apontando a foto do meio, na qual aparecia junto de Caroline, ambas de toga e canudo, no alpendre da casa de seu pai, em Tacoma.
Minha melhor amiga, Caroline, e eu na noite em que nos graduamos no instituto MT. Tahoma.
       Ou seja viveste por aqui toda a sua vida?
       Sim.
       No mudou muito.
       Ela se aproximou dele.
       Embora agora esteja mais velha disse.
       Luc a olhou de novo por cima do ombro.
       Quantos anos tem?
       Trinta.
       Ele mostrou seus dentes brancos com um sorriso que venceu todas as defesas de Jane, levando-a a cravar os dedos no carpete beis.
       Srio? perguntou.-se conserva bem para sua idade.
       OH, Deus. No queria aprofundar mais nesse tipo de declaraes, pois sem dvida no levavam a parte nenhuma. No queria que ele a deslumbrasse com seu sorriso. No queria sentir comiches nem ter pensamentos pecaminosos.
       Por que veio?                   
Darby Hogue me ligou. Luc colocou uma mo no bolso da cala e deslocou o peso do corpo de um p a outro. Me disse que tornaram a lhe oferecer o trabalho e que o rechaou.
       No o tinha rechaado. S havia dito que tinha que pensar.
       E o que tem isso que ver com voc?
Darby acredita que devia falar com voc e lhe convencer de que o aceite.
       Voc? Voc pensa que sou o anjo da morte e a escurido.
        um anjo da morte muito bonito.
       OH, Senhor.
       Foi uma m escolha. A mim no... -Jane se deteve porque no podia lhe mentir dizendo que no gostava dele. Porque gostava. Inclusive contra sua prpria vontade. Assim comps uma meia verdade: No sei sequer se eu gosto.
       Luc riu entre dentes, como se soubesse que mentia.
 o que disse ao Darby. Esboou um sorriso encantador, e voltou-se sobre seus ps. Mas ele acredita que eu posso te fazer mudar de opinio.
       Duvido.
Supus que diria isso. Luc caminhou at o sof e tirou algo do bolso de sua jaqueta de couro. Assim vou te dar uma oferenda de paz.
       Estendeu-lhe um pequeno livro de bolso com uma fita rosa ao redor. A linguagem do hquei: o jargo, o saber popular, tudo o que nunca aprender na televiso.
       Surpreendida, aceitou-o.
Voc o comprou?                                                   
       Sim. E pedi  garota da livraria que pusesse o lao.    
       Estava lhe dando um presente. Uma oferenda de paz. Algo que poderia utilizar. No um pouco tipicamente masculino, como flores ou chocolate ou roupa ntima barata. Tinha pensado nela. Tinha prestado ateno. Nela.
       No tinham fita negra, assim escolhi a rosa.
       Jane sentiu que seu corao comeava a dar saltos em seu peito, e soube que estava metida em uma boa confuso.
       Obrigado.                                         
       No h de que.
       Olhou o rosto de Luc, deixando para trs o sorriso e o brilho de seus olhos azuis. Uma confuso grande e terrvel, do tipo que vestem camisas brancas e jeans. Do tipo que ficava com garotas tipo Barbie porque podiam faz-lo. 









7

Pinta mida


       Luc baixou o olhar para encontrar-se com os olhos verdes de Jane, e soube que seu presente tinha surtido efeito. Tinha a abrandado, levando justo onde ele queria. Mas antes da t-la apanhada por completo, disposta a ficar em suas mos como um disco cansado do cu, seu olhar ficou receoso. Deu um passo para trs e o ceticismo lhe fez franzir o cenho.
Darby te pediu que viesse me fazer de boba? perguntou ao tempo que agarrava o livro.
       Merda.
No respondeu Luc. A verdade era que Darby tinha lhe sugerido que lhe levasse flores, mas o livro tinha sido idia dele. Foi minha idia, mas todos queremos que volte.
Parece-me difcil de acreditar que todo mundo  queira, especialmente os treinadores.
       Tinha razo. Nem todo mundo queria que voltasse, especialmente os diretores. Depois da derrota ante So Jos, a equipe tinha procurado algum a quem culpar. Algo no ar ou no alinhamento dos planetas. Algo mais que a penosa atuao da equipe. Esse algo tinha sido Jane. Tinham amaldioado e jogado pestes sobre ela no vestirio, mas ningum tinha chegado a pensar que a despediriam. Em particular, Luc. Depois de lhe dizer que necessitava do trabalho, no tinha podido tirar da cabea a imagem do Jane vivendo na rua por culpa de algo que ele havia dito. Dado o tamanho de seu apartamento, com toda probabilidade necessitava de dinheiro. Estava limpo e, para sua surpresa, nem tudo ali era de cor negra, mas todos seus pertences cabiam na sala. Alegrava-se de ter ido v-la.
Disse aos diretores que foi nosso amuleto de boa sorte disse, o que era verdade. Depois de me chamar pedao de tolo, entre outras coisas, jogou um dos melhores partidos de sua vida. E Bressler colocou seu primeiro hat-trick da temporada, trs tantos nada menos, depois de que lhe deu a mo.                                                      
       Jane sorriu.
        srio que acredita?
       Luc nunca duvidava dos amuletos.
 obvio, mas se estou aqui  porque sei o que  necessitar de um trabalho e que lhe neguem essa oportunidade.
       Jane baixou a vista para seus ps nus. Luc aproveitou para estudar seu cabelo mido. As pontas tinham comeado a frisar-se sobre os ombros. Perguntou-se o que sentiria tendo aquele cabelo enredado entre os dedos. Advertiu o quo baixa que era, quo pequenos eram seus ombros e quo jovem parecia com aquela camiseta da Universidade de Washington. No foi a primeira vez que se fixou na forma que lhe marcavam os mamilos, e de novo se perguntou se teria frio ou se estaria excitada. Uma corrente clida percorreu suas veias para assentar-se em seu ventre. Sentiu-se um pouco excitado e se surpreendeu de que essa reao tivesse sido provocada por Jane Alcott. Era baixa e tinha seios muito pequenos, e ainda assim ouviu a si mesmo dizer:
Talvez possamos comear do zero, nos esquecer do que te disse a primeira vez que falamos, o de mijar em seu caf.
       Ela elevou a vista de novo. Sua pele era suave, seus lbios carnudos e rosados. Luc se perguntou se suas bochechas seriam to macias como pareciam, e a seguir estudou sua boca. No, no era seu tipo de mulher, mas havia algo nela que lhe intrigava. Possivelmente fosse seu senso de humor e sua firmeza de carter. Possivelmente no se tratava mais do que de seus mamilos arrepiados e o repentino interesse por seus suaves cachos.
De fato, essa no foi a primeira vez que nos vimos disse Jane.
       Ele a olhou de novo aos olhos. Merda. A lembrana de um bom punhado de meses em sua vida tinha desaparecido como por cura. Fazia coisas das que no tinha sido consciente at que o dissessem tempo depois. No vivia em Seattle naquela poca, mas tinha ido  cidade com a equipe de Detroit. Temia a resposta, mas no teve mais remedeio que perguntar:
       Quando nos conhecemos?
       No vero passado, em uma festa para a imprensa.
       Luc sentiu um profundo alvio e quase se ps a rir. Se tivesse deitado com Jane no vero anterior o recordaria. Tratava-se do vero posterior a sua perda de memria.
       Uma festa para a imprensa no Four Seasons?
       No, no Key Arena.
       Luc jogou a cabea para trs e a olhou.
Havia um monto de gente naquela noite, mas me surpreende no te recordar disse, apesar de no estar surpreso absolutamente.
       Jane no era o tipo de mulher que ele recordaria depois de um primeiro encontro. E sim, sabia o que se dizia dele, e prosseguia sem se importar. Vivia a vida a sua maneira. Fazia muitos anos que o fazia e se sentia bem consigo mesmo.
Mas possivelmente no me parea to surpreendente, pois devia ir vestida de negro acrescentou em tom de brincadeira.
Eu sim recordo com total exatido o que usava disse Jane dirigindo-se  cozinha. Traje negro, gravata vermelha, relgio de ouro e garota loira.
       Ele concentrou seu olhar naquelas costas, descendendo at centrar-se em seu escuro traseiro. Tudo em Jane era pequeno, mas com carter.
       Sentiu cimes?
       Ela olhou por cima do ombro.
       Pelo relgio?
       Sim, por isso tambm.
       Em lugar de responder, ela entrou na cozinha e perguntou:
       Quer um caf?
No, obrigado. No devo tomar cafena. Seguiu-a, mas se deteve na estreita porta que dava  cozinha. Voltar a aceitar o trabalho?
       Ela deixou sobre a mesa o livro que lhe tinha levado e verteu o caf em uma alta caneca do Starbucks.
Talvez. Abriu a geladeira e tirou o leite. A porta estava coberta de notas adesivas escritas para lembrar-se de comprar todo tipo de coisas, desde bolachas salgadas at detergente para a roupa. At que ponto  conveniente que o faa? perguntou enquanto deixava o leite e fechava a geladeira.
       Para mim ou para o resto da equipe?        
       Jane levou a caneca aos lbios e lhe olhou por cima dela.
       Para voc respondeu.
       Estava aproveitando do giro que tinham dado os acontecimentos. Tinha que pressionar um pouco mais. Luc no podia dizer que ele no tivesse feito o mesmo em sua situao.
       Estou te propondo que fumemos o cachimbo da paz.
       Sei, e aprecio o gesto.
       Era muito boa no trato direto. Talvez deveria se despedir do Howie e contratar ao Jane para a negociao de seu prximo contrato.
       O que  o que quer?
       Uma entrevista.
       Luc cruzou de braos.
       Comigo?
       Sim.
       Quando?
Quando tiver feito certas averiguaes e tenha o questionrio preparado.                                                                                                   
Sabe que odeio entrevistas.                                                     
Sim, sei, mas farei que no te doa.                                            
       Luc baixou a vista at os seios de Jane.
       A que te refere com o de que no me doer?
No te farei perguntas pessoais respondeu ela. Continuava sentindo frio e o mais adequado teria sido que vestisse um pulver.
       Define pessoais.
       No se preocupe, no te perguntarei sobre mulheres.
       Ele dirigiu seu olhar para o delicado oco que formava sua garganta, subiu por seus lbios e chegou aos olhos.
Algumas das coisas que tem lido sobre mim, provavelmente no so certas disse sem saber sequer por que ou do que se estava defendendo.
       Jane soprou seu caf.
       Algumas? perguntou.
       Ele deixou cair as mos ao lado do corpo e encolheu de ombros.
Mais ou menos um cinqenta por certo inventaram para vender peridicos ou livros.                                                               
       Jane esboou um meio sorriso.                                      
       Qual  o cinqenta por cento verdadeiro?     
       Estava to bonita olhando-o daquele modo, sorrindo, que esteve tentado a dizer-lhe No  assunto seu.Ficar entre ns?
        obvio.
       Quase.
No  teu assunto. No falo das mulheres, de meu passado nem de minha temporada de reabilitao.
       Ela baixou a caneca.
 justo. No quero te fazer perguntas sobre sua reabilitao nem sobre sua vida sexual. J se tem escrito muito sobre isso, e  aborrecido.
       Aborrecido? Sua vida sexual no era aborrecida. Nos ltimos tempos no tinha tido muita ao, mas o que ele tinha feito no era aborrecido. Bom... possivelmente um pouco. No, aborrecido no era a palavra adequada. Era muito forte. Tinha sentido falta de algo em sua vida sexual ultimamente. Alm do sexo em si. No sabia do que se tratava, mas uma vez que solucionasse a situao de Marie, teria mais tempo para pensar nisso.
E, alm disso acrescentou Jane, no quero que me conte nada que derrube a imagem que tenho de voc.
Que imagem? Luc apoiou um ombro contra o marco da porta. Que fico com duas garotas de uma vez cada noite?
       No  assim?
No. Olhou-a. A expresso de Jane, ali na cozinha, vinha a lhe dizer que sua vida sexual era aborrecida, por isso decidiu surpreend-la um pouco. S um pouco, com algo sobre o que ela, com toda probabilidade, no teria lido. O tentei uma vez, mas as garotas estavam mais interessadas uma na outra que em mim. O que no fez muito a favor de meu amor prprio.
       Ela se ps a rir enquanto ele se esforava para recordar a ltima vez que tinha estado a ss com uma mulher no apartamento dela, rindo e falando, e sem tentar chavecar para levar-lhe  cama. No deixava de ser interessante.
       Na noite seguinte  visita de Luc, Jane se sentou junto ao Darby na cabine de imprensa para presenciar a partida entre os Chinooks e Vancouver. Um marcador octogonal com quatro telas de vdeo pendurava do centro do teto em forma de pirmide. As luzes iluminavam o enorme logotipo verde dos Chinooks no centro da pista de gelo, e as cambalhotas do laser anunciavam que a partida estava a ponto de comear. Faltava meia hora para que o disco ficasse em movimento, mas Jane estava preparada com seu bloco de papel de notas e gravador na bolsa. Havia voltado, e estava mais excitada que no primeiro dia.  exceo de Darby, os diretores ainda no tinham chegado, e se perguntou se a receberiam com um tapinha nas costas.
       Jane olhou para Darby.
       Obrigado por fazer que me devolvessem o trabalho.
       Ele tinha os antebraos apoiados nos joelhos e olhava para a pista. Ps-se um menos de gel do que tinha por costume, mas sob sua jaqueta azul continuava usando as canetas metidas em uma capa de plstico no bolso da camisa.
No foi minha coisa. Os jogadores se sentiram mal depois de que os visitou e lhes desejasse sorte. Pensaram que algum como voc merecia recuperar o trabalho.
       Quiseram que voltasse porque acreditavam que lhes dava sorte.
Isso tambm disse sorrindo e sem deixar de olhar por volta da pista. Tem algo que fazer no prximo sbado?            .
       No estaremos de viagem?
       No, sairemos no dia seguinte.
Ento, nada disse Jane encolhendo-se de ombros. Por que?
Hugh Miner vai dar um banquete no Space Needle para comemorar sua retirada.
O nome lhe soava familiar, mas no podia se localiz-lo. 
       Quem  Hugh Miner?                                      
Foi goleiro dos Chinooks desde 1996 at o ano passado, quando se retirou. Perguntava-me se voc gostaria de ir.
Contigo? Como se fosse um encontro? perguntou como se Darby estivesse louco.
       Ele se ruborizou e Jane se deu conta de que no tinha sido um comentrio amvel.
       No tem por que ser um encontro disse Darby.
Oua, sei que soou mal, mas no  o que parece. disse Jane, lhe dando uma palmada no ombro. Sabe que no posso ter encontros com pessoas envolvidas com a organizao dos Chinooks. Provocaria mais comentrios e fofocas.
       Sim, sei.
       Jane se sentia fatal. Provavelmente ele no tinha exposto um encontro em toda regra, e lhe tinha ofendido.
       Suponho que terei que me vestir de gala.
Sim,  uma festa de etiqueta disse Darby, olhando-a. -Enviaria uma limusine, assim no teria que conduzir.
       Como ia negar-se a algo assim?
       A que horas?
s sete. O telefone mvel que pendurava do cinturo de Darby comeou a soar e ele respondeu  chamada. Sim? disse. Aqui. Olhou-aAgora mesmo? De acordo. Pendurou e voltou a colocar o aparelho no cinturo. O treinador Nystrom quer que desa ao vestirio.
       Eu? Por que?
       No me disse.
       Jane colocou o bloco de papel de notas na bolsa e saiu da cabine de imprensa. Chegou com o elevador ao andar trreo e percorreu o corredor para o vestirio, perguntando-se todo o momento se iriam despedi-la outra vez; se fosse assim, nessa ocasio no ia morder a lngua.
       Quando entrou no vestirio, os jogadores estavam vestidos e embelezados com seus complementos de batalha. Encontravam-se sentados frente a suas bilheterias escutando o treinador. Jane se deteve ao cruzar a porta para escutar como Larry Nystrom lhes falava da debilidade da segunda linha do Vancouver e do modo de encarar o goleiro. Olhou ao outro lado do vesturio, em direo a Luc. Usava postos seus amparos de goleiro e sua camiseta com o smbolo azul e verde dos Chinooks. Suas luvas e o casco descansavam a um lado, no entanto ele tinha o olhar cravado em algum ponto entre seus patins. Ento elevou a vista e seus olhares se cruzaram. Olhou-a por um instante, depois seu olhar azul descendeu lentamente por seu pulver cinza, passou por sua saia negra at chegar a seus baratos mocasins negros. Seu interesse no continha nenhuma matiz sexual, era simples curiosidade, mas fez que em Jane acelerasse o pulso.
       Jane chamou Larry Nystrom.
       Jane afastou os olhos de Luc e olhou ao treinador, que se aproximou dela e acrescentou:
       Vamos, diga aos meninos o que lhes disse o outro dia.
       Ela engoliu saliva.
       No posso recordar o que o disse, treinador.
Algo de que no baixassem a cueca interveio Fish. E o de que viajar conosco foi toda uma experincia.
       Todos pareciam to srios que em Jane deu vontade de rir. Nunca tinha acreditado que fossem supersticiosos at esse ponto.
De acordo, verei se o recordo. Deixem as cuecas postas, tenho algo que lhes dizer e s tomar um minuto. J no viajarei com vocs, e quero que saibam que o faz-lo foi uma experincia que jamais esquecerei.
       Todos sorriram e assentiram,  exceo do Peter Peluso.
Disse algo sobre sincronizar a baixada das cueca. Lembro-me dessa parte.                                                                                            
 certo, Piralha acrescentou Rob Sutter. Eu tambm lembro.
E disse que esperava que este ano ganhssemos a liga acrescentou Jack Lynch.
Sim, isso  importante.
       Acaso importava realmente? Merda!
       Tenho que voltar desde o comeo?
       Todos assentiram com a cabea e ela ps os olhos em branco.
Deixem as cueca postas, tenho algo que lhes dizer, s tomar um minuto e no quero que sincronizem a baixada de sua cueca. Ou algo assim. J no vou seguir viajando com vocs, mas quero que saibam que o faz-lo foi uma experincia que jamais esquecerei. Espero que este ano ganhem a liga.
       Todos pareciam agradados, e ela se disps a sair dali antes de que a deixassem louca.
Agora tem que vir e me dar a mo lhe informou o capito, Mark Bressler.
OH, claro. Ela se aproximou dele e lhe deu a mo. Boa sorte com a partida, Mark.                          
       No, disse Assassino.
       A coisa era de loucos
       Boa sorte na partida dessa noite, Assassino. 
       Ele sorriu.            
       Obrigado, Jane.         
       De nada.                     
       Do exterior chegavam os sons prvios ao Comeo da partida, e ela, uma vez mais, encaminhou-se  porta.
       No acabou, Jane.
       Voltou-se e olhou para onde se encontrava Luc. Estava, de p e, com um dedo, estava-lhe indicando que se aproximasse.   
Vem aqui.                                                                             
       Nem pensar. No estava disposta a lhe chamar pedao de tolo diante de todos aqueles tipos.
       Vamos.
       Observou as caras dos outros jogadores. Se Luc jogasse mal, culpariam-na . Como se seus sapatos tivessem vida prpria, cruzou o cho enfeitado com o logotipo dos Chinooks no centro.
       O que? perguntou enquanto ficava frente a Luc.
       Com os patins era mais alto, e ela teve que olhar para cima.
Tem que me dizer o que me disse o outro dia. Para que me d sorte.
       O temia, mas tentou disfarar.
        to bom que no necessita que te d sorte.
       Agarrou-a pelo brao e, com cuidado, atraiu-a para si.
       Vamos, diga-o.
       Jane notou a calidez de sua mo atravs do pulver.
No me faa isto, Luc disse em voz baixa para que s ele o ouvisse. Sentia que estava ruborizando-se.  muito embaraoso.
       Sussurre-me isso ao ouvido.
       O rangido de seus amparos de couro encheu o espao entre ambos enquanto se inclinava sobre ela. O aroma de seu xampu e de sua loo ps-barba lhe encheu o nariz junto ao aroma do couro dos amparos.
       Tolo sussurrou em seu ouvido.
No foi assim. Luc meneou a cabea e suas bochechas se roaram por uns segundos. Esqueceste-se o pedao de.
       Deus do cu. Antes que tudo isso passasse morreria de vergonha ou consumida pela luxria. E no queria que acontecesse nenhuma das duas coisas. Sobre tudo a ltima, mas o nvel de testosterona de Luc era como um poderoso campo de fora que a atraa contra sua vontade.
       Pedao de tolo.
       Obrigado, meu bem. Agradeo -lhe isso.
       Meu bem. Jane abriu os olhos como pratos. Ele voltou o rosto e, com os lbios a escassos centmetros dos de Luc, ela sorriu.
Vou ter que fazer isto antes de cada partida? perguntou embora sua voz soasse quase como um suspiro.
       Ele no deu a impresso de ter captado o matiz de sua voz. Olhou-a diretamente e umas pequenas rugas apareceram nas linhas de seus olhos
       Temo que sim respondeu.
       Finalmente, ela sentiu que recuperava o flego.
       Vou pedir um aumento de salrio.
       Luc deslizou sua enorme e quente mo do brao at o ombro de Jane, acariciou-lhe a bochecha e depois afastou a mo.
Pea tambm que lhe aumentem as dirias. Assim que estejamos de viagem vou recuperar os cinqenta que ganhou nos dardos.
       Jane meneou a cabea e se voltou para sair.
       Nem sonhe, Luc disse por cima do ombro.
       Retornou  cabine de imprensa e se sentou junto a Darby. Ali estavam os da cadeia King-5 e tambm os da ESPN, para retransmitir a batalha dos Chinooks contra Vancouver. Com Luc Martineau de volta no gol, Seattle acabou ganhando por trs a um. Aparentemente sem esforo algum, ele elevou o disco no ar e recordou a todos por que continuava sendo um dos melhores goleiros da liga.
       No vestirio, depois da partida, os jogadores responderam s perguntas de Jane. Embora no ficassem de cuecas, sua nudez parecia menos calculada.
       Essa mesma noite, uma vez que teve enviada sua crnica ao peridico, Jane telefonou para Caroline e lhe alegrou o dia, a semana e o ano s dizendo:
       Necessito de uma maquiadora.
       Como  isso?
Parece divertido. Vou a um banquete na semana que vem e preciso dar uma boa imagem.
Obrigado, Senhor, por este presente que acabo de receber sussurrou Caroline.Estive esperando este momento h anos. O primeiro que temos que fazer  marcar uma entrevista com a Vanda.
       Quem  Vanda?
A mulher que vai empanar sua cara e a dar forma a esse cabelo selvagem que tem.
       Jane olhou o telefone que tinha na mo.
       Empanar?                                              
       E o cabelo.
A ltima vez que permiti que colocasse mo em meu cabelo o deixou como uma bucha.
Isso foi no colgio, e no fui eu. Depois do cabelo, iremos a Sara, onde eu trabalho. Essa mulher  uma verdadeira artista.
Tinha pensado em um pouco de maquiagem e um pouco de gloss. Um bonito vestido negro de coquetel e uns sapatos de salo que no sejam muito caros.
Hoje recebemos uns fabulosos Ferragamo disse Caroline como se no tivesse ouvido as palavras de Jane. Vermelhos. Ficaro perfeitos com um mortfero e minsculo Betsey Johnson que vi no primeiro andar.














8

Ao ataque

       Luc estirou os punhos de sua camisa e colocou neles abotoaduras gmeas de nix. Essa mesma manh, no treinamento, tinha ouvido dizer que Jane assistiria ao banquete com o Darby. Sentia curiosidade para ver como iria vestida; de negro, sem dvida. Elevou as mos e colocou o ltimo colchete no pescoo de sua camisa branca engomada. No tinha falado com ela desde a partida contra Vancouver.
       O segundo goleiro tinha jogado os dois ltimos encontros, deixando que Luc desfrutasse de um castigo descanso, e no tinha tido oportunidade de falar com ela. No  que tivesse nada que lhe dizer, mas gostava de provoc-la um pouco para observar suas reaes. Para ver se ria ou se entreabria os olhos e torcia a boca. Ou se podia conseguir que se ruborizasse.
       Abotoou os suspensrios cinzas e se perguntou se Jane e Darby teriam um autntico encontro. No acreditava possvel. Ou, por diz-lo de outro modo, no queria acredit-lo. Jane era uma fera e tinha engenho na hora de replicar, um cretino aficionado s canetas no era o tipo de homem adequado para ela. Em particular, aquele cretino. No era um segredo que Darby se havia oposto  inscrio de Luc para os Chinooks e que se toleravam um ao outro porque no tinham mais remdio que faz-lo. Segundo a opinio de Luc, Darby Hogue era um imbecil, tanto quanto Jane tinha garra. Supunha que isso era o que gostava nela. No se escondia ante a adversidade. Confrontava-a. Apesar de sua estatura.          
       Luc agarrou a gravata negra e se colocou em frente aos espelhos das portas do armrio. Ao terceiro intento fez um n perfeito. Pelo geral no lhe incomodava vestir o smoking e assistir a banquetes, especialmente se tratava de banquetes em honra de antigos goleiros, mas essa noite no tinha nada de habitual. Essa noite, sua irmzinha iria ao baile do colgio com um menino que tinha um piercing no nariz.
       Luc agarrou o relgio da mesinha de noite e o colocou no pulso enquanto caminhava para a habitao de Marie. No pensava em sair de casa at que seu acompanhante fosse busca-la. Sabia muito bem o que era que acontecia na cabea de um adolescente, e tinha pensado olhar Zack nos olhos e lhe fazer saber que estaria em casa para quando Marie retornasse, esperando-a. Tinha que estar a para apertar a mo de Zack um pouco mais forte do necessrio e assim lhe fazer entender que mais lhe convinha que no se ultrapassasse com sua irm. Luc talvez no fosse o melhor irmo do mundo; de fato, no estava nem a meio caminho de s-lo, mas protegeria Marie enquanto vivesse com ele.
       Tinha decidido no falar do tema do internato at depois do baile. Ela o tinha passado o tempo todo escolhendo o vestido e os sapatos, por isso no lhe tinha parecido o momento mais adequado para lhe falar disso.
       Luc bateu na porta de Marie, e quando ela murmurou algo entrou. Esperava v-la com o vestido de veludo negro com decote quadrado, mangas compridas e pequenas rosas bordadas. O tinha mostrado no dia anterior, e ele pensou que era muito apropriado para uma garota de sua idade. Mas em lugar de estar vestida, encontrava-se tombada na cama com o pijama posto. Tinha o cabelo recolhido em um rabo-de-cavalo e chorava desconsoladamente.
Por que no est preparada? Seu acompanhante chegar dentro de uns minutos.
No vai vir. Ontem  noite ligou e cancelou nosso encontro.
       Est doente?
Disse que tinha esquecido que tinha coisas que fazer com sua famlia e que no podia me levar. Mas  mentira. Agora tem namorada e vai com ela.                                               
       Luc sentiu que a ira o cegava. Ningum deixava plantada a sua irm nem a fazia chorar.
No pode fazer isso. Luc entrou na habitao e se aproximou de Marie. Onde vive? Irei falar com ele. Obrigarei-o a lev-la.          
No! gritou ela, mortificada, e se sentou na borda da cama com os olhos muito abertos olhando Luc. Morreria de vergonha se o fizesse!
De acordo, no o obrigarei a te levar. Luc pensou que tinha razo. For-lo teria resultado muito embaraoso para ela. Me limitarei a ir a sua casa e lhe dar um bom chute  no traseiro.
       Marie arqueou uma sobrancelha.
        menor de idade.
Pois ento chutarei o traseiro do seu pai. Algum que cria um filho capaz de deixar plantada uma garota merece que lhe dem um chute no traseiro.
       Luc estava falando a srio mas, por alguma razo, Marie se ps-se a rir.
       Daria-lhe um chute no traseiro do senhor Anderson por mim?
 obvio que o faria. sentou-se junto a sua irm. E se eu no pudesse fazer o trabalho, conheo uns quantos jogadores de hquei que lhe dariam seu castigo.
       Disso no me cabe dvida.
       Luc lhe agarrou a mo e perguntou:
Por que no me disse que tinha ligado para cancelar o encontro?
       Ela parecia distante.
       Pensei que no se importaria.
       Com a mo livre, agarrou-a pelo queixo para obrig-la a lhe olhar.
Como pode dizer isso?  obvio que me importa.  minha irm.
       Marie encolheu de ombros.
Pensei que os lances desse tipo de coisas no lhe importavam.
Bom, talvez tenha razo. No me importam muito os bailes nem danar. No fui a nenhum baile de minha escola porque... Fez uma pausa, deu-lhe um golpezinho no brao com o cotovelo e acrescentou: Era um danarino horroroso. Mas me preocupo com voc. Me preocupo com voc.
       Ela torceu a boca ligeiramente para baixo, como se no acreditasse.
 minha irm insistiu ele, como se no houvesse nada mais que explicar. Disse que sempre cuidaria de voc.
Sei. Ela baixou a vista. Mas cuidar e interessar-se no so a mesma coisa.
Para mim so sim, Marie. Eu no cuido de ningum que no me interesse.
       Ela afastou sua mo da de Luc e ficou de p. Aproximou-se de uma penteadeira coberto de braceletes, ursos de pelcia e um vaso com quatro rosas brancas secas. Luc sabia que aquelas rosas tinham estado em cima da lpide de sua me. Ignorava por que as tinha pego ou as conservava, pois a faziam chorar.
Sei que quer me enviar longe daqui disse lhe dando as costas.
       Por Deus. Como tinha se informado? Entretanto, isso no era o importante.
Pensei que seria mais feliz vivendo com garotas de sua idade em lugar de comigo.
       No minta, Luc. O que quer  se desfazer de mim.
       Era isso o que queria? Tinha sido a idia de livrar-se dela que o tinha levado a procurar um internato para Marie? Talvez mais do que estava disposto a admitir. A culpa no demorou em fazer ato de presena enquanto ficava em p e caminhava para sua irm.
No quero mentir. Ps uma mo no ombro de Marie e a fez voltar-se para ele. O certo  que no sei o que fazer com voc. No sei nada de garotas adolescentes, mas sei que no  feliz. Quero fazer o que for melhor para voc, mas no sei como faz-lo.
No sou feliz porque minha me morreu murmurou ela. Nada nem ningum pode mudar isso.
       Eu sei.                                         
       E ningum me quer.         
No. Agitou-a pelos ombros. Te quero, e sabe que a tia Jenny tambm te quer. Em realidade, Jenny s havia dito que Marie podia visit-la no vero, mas Marie no tinha por que saber isso. De fato, tentou ficar com sua custdia. Acredito que tem vises nas que as duas usma as mesmas camisolas de vestir pela casa.
       Marie enrugou o nariz.
       E como  que eu nunca soube nada disso?
Nesse momento, j tinha suficientes preocupaes respondeu ele de forma evasiva. No me ps uma demanda porque sabia que eu pagaria os melhores advogados.
       Marie franziu o sobrecenho.                                                           
Jenny vive em um complexo residencial para aposentados.              
Sim, mas dos bons. Cada noite lhe prepararia seu pudim de ameixas especial.
       Que asco!
       Luc sorriu e consultou a hora. O banquete estava a ponto de comear.
Tenho que ir disse, mas no podia lhe pedir que ficasse sozinha. Por que no pe seu vestido novo e vem comigo?
       Aonde?
       A um banquete no Space Needle.
       Com gente velha?
       No to velha. Ser divertido.
       No tinha que ir j?
       Te esperarei.
       Ela encolheu de ombros.
       No sei...
Venha. Haver muitos jornalistas, e talvez tirem tua foto no peridico luzindo bem bonita, e esse tipinho do Zack tenha que dar uma patada no seu prprio trasseiro.
Marie riu.
       Quer dizer traseiro.
Isso. Traseiro. Ele a empurrou at o armrio. Coloca seu traseiro no vestido disse enquanto saa da habitao e fechava a porta. Agarrou a jaqueta do smoking e foi ao salo esperar. Como estavam acostumados a fazer todas as mulheres que conhecia, tomou seu tempo at estar preparada.
       Luc se aproximou da ampla janela e contemplou a cidade. A chuva tinha cessado, mas as gotas escorregavam ainda pelos cristais rabiscando a imagem noturna de Seattle, dos edifcios mais altos e da baa do Elliot ao fundo. Ficou com aquele apartamento exclusivamente pelas vistas, e se ia  cozinha ou a seu dormitrio, ao outro lado do apartamento, podia sair ao balco, de onde se tinha uma perfeita vista panormica do Space Needle e do norte de Seattle.
       Olhar atravs de todas aquelas janelas era espetacular, mas Luc tinha que admitir que naquele edifcio nunca tinha chegado a sentir-se em casa. Possivelmente se devia  moderna arquitetura, ou possivelmente a  fato de nunca ter vivido em um piso to alto em uma cidade e isso o fazia sentir, em certo sentido, como se estivesse em um hotel. Se abria as janelas ou saa ao balco, o som do trfico chegava at o dcimo nono andar, o que tambm lhe recordava um hotel. Apesar de que Seattle, e tudo o que a cidade podia oferecer, estava comeando a lhe agradar, e s vezes sentia uma vaga sensao de nostalgia a respeito do seu lar.
       Quando por fim Marie saiu de sua habitao, usava um colar de diamantes de imitao e uma diadema que mantinha o cabelo afastado de seu rosto. Seu cabelo era bonito, mas o vestido... o vestido no lhe sentava nada bem. Era uns dois nmeros menor. O veludo negro apertava muito o peito e as mangas lhe chegavam at a metade de brao. Apesar que Marie estivesse acostumada a usar camisetas grandes e largas, sabia que era magra. Mas naquele vestido dava a impresso de ir embutida.
       Que tal fica? perguntou girando ante ele.
       A costura que percorria as costas do vestido se torcia para a esquerda no traseiro.
       Est linda.
       Dos ombros para cima, estava muito bonita. Sua sombra de olhos chapeada, entretanto, era um tanto estranha, reluzente como a brilhantina o que ele utilizava no colgio.
De que nmero  esse vestido? perguntou Luc e, pela reao de Marie, deu-se conta imediatamente de seu engano.
       Sabia que no era adequado perguntar a uma mulher pelo nmero de seu vestido. Mas Marie no era uma mulher. Era uma moa e, alm disso, era sua irm.
       Por que?
       Ajudou-lhe a vestir o casaco de l.
Sempre usa camisas folgadas e calas, e no sei qual  seu nmero improvisou.
       OH,  um zero. Pode acreditar que caiba em um zero?
No. A zero no  nem sequer uma medida. Se usa um zero, deveria engordar, teria que comer mais batatas assadas e carne. Acompanhadas com um pouco de molho.
Ela riu, mas ele no estava brincando.
       O trajeto at o Space Needle foi breve, mas quando Luc entregou as chaves do Land Cruiser ao manobristas, advertiu que chegavam com mais de uma hora de atraso. O restaurante Skyline se elevava a trinta metros de altura dentro da estrutura da torre. Oferecia uma viso panormica da cidade de trezentos e sessenta graus, e Luc e Enjoe chegaram justo quando a coisa comeava a animar-se. Ao sair do elevador, um grande de rudo, formado pela combinao de centenas de vozes, o tamborilar dos pratos e o trio de msicos foi a seu encontro. Muito smokings negros e brilhantes vestidos flua dentro daquele lugar a meia luz. Luc j tinha assistido a eventos similares. No naquele lugar, no em uma ocasio to especial, mas sim a centenas de outros banquetes desde que comeou a jogar na NHL.     
       Quando Luc foi deixar o casaco de Marie no figurino, encontrou-se com o Sutter, Fish e Grizzell e os apresentou a sua irm. Fizeram-lhe perguntas sobre a escola, e quanto mais lhe falavam, mais se ocultava ela detrs de Luc, at que s meio corpo ficou visvel. Luc no sabia se sentia intimidada ou s era questo de vergonha.
       Viu a Piralha? perguntou Fish.
A Jane? No, no a vi. Por que? Fez uma pausa e perguntou: Onde est?
       Fish estirou um dos dedos com os que segurava sua taa e assinalou para uma mulher que se achava a uns quantos metros de distncia, de costas para Luc. Caam-lhe uns curtos cachos escuros pela nuca. Usava um vestido com as costas descobertas e sem mangas, de um vermelho profundo, e uma fina cadeia de ouro pendia entre suas omoplatas, atraindo a luz e lanando reflexos dourados por sua branca pele. O vestido descia por seus quadris e por seu traseiro e caa at as panturrilhas. Calava um par de sapatos vermelhos com um salto de uns oito centmetros. Estava falando com outras duas mulheres. Reconheceu uma delas, pois se tratava de Mae, a esposa de Hugh Miner. A ltima vez que a tinha visto, em setembro, exibia uma gravidez de nove meses. A outra mulher lhe  parecia vagamente familiar, e se perguntou se no a tinha visto em algum exemplar da Playboy. Nenhuma daquelas mulheres parecia Jane.
Quem  a mulher que viu de negro? perguntou, referindo-se a do centro.
        a esposa do Kowalsky.
       Voltou-se para seus companheiros. J sabia por que lhe parecia familiar. Uma fotografia dela junto ao John pendurava da parede do escritrio do treinador Nystrom.
       Kowalsky veio?
       John Kowalsky, uma lenda do hquei, tinha sido o capito dos Chinooks at sua retirada. Kowalsky tinha sido famoso por seus disparos a porta, que alcanavam cento e cinqenta quilmetros por hora. No havia goleiro que queria ver-se cara a cara com o Muro.
       Luc percorreu o local com o olhar at que viu Hugh e John entre um grupo de diretores. Todos riam de algo, por isso a ateno do Luc voltou a centrar-se na mulher de vermelho. Recreou-se em suas suaves costas e em seu pescoo at chegar aos escuros cachos de seu cabelo. Fish estava equivocado. Se fosse Jane teria ido vestida de negro ou cinza, e o cabelo lhe chegava pelos ombros.                               .
       Luc estava desabotoando o boto superior da jaqueta quando observou que Darby Hogue se aproximava da mulher e lhe dizia algo ao ouvido. Ela voltou o rosto e Luc pde apreciar seu perfil. Ficou gelado. O anjo da escurido e da morte no vestia de negro aquela noite, e tinha cortado o cabelo.
H algum mais a quem quero lhe apresentar disse a Marie.
       Comearam a caminhar entre os convidados, mas Bekah Brummet, rainha da beleza de quase um metro e oitenta, e amiga ocasional, deteve-os. Luc a tinha conhecido em um baile de gala beneficiente no vero anterior, e s poucas horas descobriu trs coisas fundamentais dela: gostava de vinho branco e os homens enriquecidos e era loira natural. No haviam tornado a ver-se desde que Marie foi viver com ele.
       Saudaram-se com rapidez e Luc voltou a olhar para Jane. Ela ria de algo que Darby lhe havia dito, embora Luc era incapaz de imaginar que aquele pequeno casulo fosse capaz de dizer algo remotamente divertido.
No te via fazia tempo disse Bekah olhando tambm pra Jane. 
       Bekah estava to radiante como sempre com um vestido de seda curto e decotado. Na vida do Luc tinha havido muitas mulheres como Bekah. Mulheres formosas que queriam estar com ele porque era Luc Martineau, um famoso goleiro de hquei. Algumas delas se converteram em amigas, outras no. Nunca lhe tinha incomodado aproveitar-se do que elas lhe ofereciam com total alegria. Mas naquele momento se encontrava com sua irm, que estava embainhada em um vestido que no lhe sentava bem, e que se ocultava atrs dele, e no tinha a inteno de faz-la participante dessa parte de sua vida.
Estive muito tempo fora da cidade. Apoiou a mo nas costas de Marie. Encantou-me v-la acrescentou deixando para trs Bekah.
Empurrou a sua irm enquanto se afastavam antes que pudesse supor o tipo de relao que o unia a Bekah. No queria que Marie pensasse nem por um segundo que o sexo espordico estava certo. Queria que soubesse que ela merecia algo mais. E sim, sabia que isso o convertia em um hipcrita, mas no lhe importava.
       Jane disse enquanto se aproximava dela.
       Jane olhou por cima do ombro e um de seus brandos cachos caiu sobre sua fronte. Separou-o de seu rosto e sorriu. O cabelo curto a fazia parecer mais jovem e bonita. Luc no pde evitar lhe corresponder com outro sorriso. Seu novo penteado destacava seus olhos verdes, e a maquiagem lhe proporcionava um toque sexy. Tinha os lbios pintados de vermelho escuro, a cor favorita de Luc. Talvez por isso este teve a impresso de que a temperatura do lugar tinha subido um par de graus, por isso acabou de desabotoar a jaqueta.
       Ol, Luc. Sua voz tambm parecia mais sexy.
       Martineau disse Darby.
Hogue. Sem afastar a mo das costas de Marie, Luc obrigou-a permanecer a seu lado. Ela  minha acompanhante, Marie disse. Jane a olhou de esguelha, com expresso de pensar que podiam prend-lo por algo assim, mas ele acrescentou: Marie  minha irm.
Ah, ento me retrato do que estava pensando de voc-Jane estreitou a mo da moa com um amplo sorriso. Eu gosto de seu vestido. O negro  minha cor favorita.

Apresentaram-na  a Mae Miner e ao Georgeanne Kowalsky? perguntou Jane afastando-se ligeiramente para abranger um crculo mais amplo que incluisse Luc e Marie.
       Luc olhou  mulher do Hugh, uma loira baixa de grandes olhos pardos escassamente maquiados. Era uma garota natural. Como Jane. Exceto essa noite. Esta vez, Jane tinha pintado os lbios. Luc deu a mo a ambas as mulheres, depois disse:
       Conheci o Mae em setembro.
Sim, quando estava de nove meses. Mae pegou sua pequena bolsa negra e tirou uma foto. Este  Nathan.
       Georgeanne tirou suas prprias fotografias.
Esta  Lexie quando tinha dez anos, e esta  sua irm pequena, Olivia.
       A Luc no importava olhar fotografias de meninos sem ironia alguma, mas se perguntava uma e outra vez por que os pais davam por certo que ele queria as ver.
       So uns meninos preciosos.
       Olhou as fotografias uma ltima vez e as devolveu a suas proprietrias.
       A conversao se centrou nos discursos que perdeu por chegar tarde, circunstncia que aproveitou para observar com detalhe o vestido de Jane. O decote longo que cobria a totalidade de seus pequenos seios. Luc tinha apostado que baixando um pouquinho as tiras dos ombros veria tudo. Fazia calor ali, e, entretanto seus mamilos assinalavam para o frente como se estivessem congelados.
Luc disse Marie. Luc tirou sua ateno do vestido de Jane e olhou sua irm por cima do ombro. .    
       Sabe onde esto os servios? adicionou a moa.
Eu sim se adiantou Jane. Siga-me. Acompanho-a. Com aqueles sapatos de salto, era quase to alta como Marie. No caminho, poderia me explicar todos os escuros segredos de seu irmo acrescentou enquanto se afastavam.
       Luc se disse que estava a salvo, pois Marie no conhecia nenhum de seus segredos, os que fossem escuros ou de qualquer outro tipo. As duas desapareceram entre a multido, e quando ele se voltou, Mae e Georgeanne se desculparam e lhe deixaram a ss com o Darby, que disse:
       observei o modo em que olha Jane. No  seu tipo.         
       Luc abriu a jaqueta e colocou uma mo no bolso.             
E qual  meu tipo de mulher? perguntou.                                
       As coelhinhas patinadoras.
       A Luc nunca tinham atrado as coelhinhas patinadoras, como chamavam as mulheres que estavam acostumados a ir atrs dos jogadores de hquei, e alm disso no estava seguro de preferir j nenhum tipo de mulher acima do resto. Ao menos desde que podia olhar Jane Alcott e perguntar-se como reagiria se a metesse em um reservado e lhe beijasse aqueles vermelhos lbios; se acariciasse suas costas e deslizasse as mos at abranger seus pequenos seios. Por desconto, nunca o faria. No com o Jane.
       E isso o que te importa?
       Jane e eu somos amigos.
No foi voc que me pediu que falasse com ela para que voltasse a aceitar o trabalho?
Isso eram coisas de negcios. Se te atar com ela, poderia fazer o trabalho. De forma definitiva. Encheria-me o saco que lhe fizesse mal.
       Est-me ameaando?
       Luc olhou de frente o plido rosto de Darby e quase chegou a sentir respeito por ele.
       Sim.
       Luc sorriu. Talvez Darby no fosse o idiota que ele sempre tinha acreditado que era. O trio comeou a tocar e Luc se afastou dali. A msica e o falatrio geral eram quase ensurdecedores, e ele se dirigiu para o homem do momento, Hugh Miner. John Kowalsky estava a seu lado e falavam de hquei, debatendo a respeito das possibilidades que tinham os Chinooks de ganhar a liga esse ano.                                      
Se as leses respeitarem  equipe, teremos boas opes de nos levar a Stanley Cup predisse Hugh.
       Um bom atirador tampouco iria mal apontou o Muro.
       A conversao derivou para suas respectivas ocupaes depois de deixar o hquei, e Hugh tirou sua carteira do bolso traseiro de suas calas e a abriu.
       Este  Nathan.
       Luc no se incomodou em lhe dizer que j tinha visto essa fotografia.
       
       
       

9

Uma jogada tola

       Jane secou as mos com uma toalhinha de papel e a jogou no cesto de papis. Olhou-se no espelho que havia sobre o lavatrio e logo conseguiu reconhecer-se. No estava segura de se isso era bom ou mau.
       Abriu a pequena bolsa que lhe tinha emprestado Caroline e tirou o brilho de lbios. Marie se aproximou dela, e Jane a estudou enquanto a moa lavava as mos. Luc e sua irm no se pareciam em nada, exceto em que seus olhos tinham o mesmo tom de azul.
       Minutos atrs, ao ver o Luc acompanhado de uma jovenzinha, havia-se sentido confusa. Seu primeiro pensamento tinha sido que merecia que o prendessem, mas ainda a confundiu mais que a apresentasse dizendo que era sua irm.
No sou boa nisto confessou Jane enquanto pintava os lbios. Antes da festa, Caroline lhe tinha aplicado uma espcie de carmim indelvel, por isso Jane s tinha que lhes dar brilho de vez em quando. Pensou que o tinha feito bem, mas no tinha experincia e no podia sab-lo a cincia certa. Diga-me a verdade. Ficaram feito um desastre?
       No.
Tem certeza? Jane tinha que admitir que o assunto tinha sua graa. No era algo que gostasse de fazer todos os dias, nem sequer freqentemente.
Tenho. Marie atirou a toalhinha de papel ao cesto de papis. Gosto de seu vestido.
       Comprei-o no Nordstrom.
       Eu tambm!
       Jane lhe passou o brilho de lbios.
       Uma amiga me ajudou a escolh-lo.        
       Eu escolhi o meu, mas Luc o comprou.
       Sendo assim, perguntou-se por que Luc permitiu que sua irm comprasse um vestido to pequeno. Jane no era uma obsessa da moda, mas no era difcil dar-se conta.
Isso lhe honra. Refletido no espelho viu que Marioe se estava pondo muito batom. Vive em Seattle?
Sim, com o Luc.                                                                                
       Comoo nmero trs da noite.                                             
Srio? Deve ser um inferno. Castigaram-lhe por algum motivo especial?
       No. Minha me morreu faz um ms e meio.
OH, sinto muito. Queria ser engraada e acabei dizendo algo inadequado. Sinto-me uma imbecil.
No passa nada. Marie lhe dedicou um meio sorriso-. E viver com o Luc nem sempre  um inferno.
       Marie lhe devolveu o brilho de lbios e Jane se voltou para olh-la. O que podia lhe dizer? Nada. Tentou-o igualmente.
Minha me morreu quando eu tinha seis anos. Disso faz vinte e quatro anos, mas conheo... deteve-se, procurava a palavra mais adequada. No encontrou nenhuma. Conheo o vazio que deve sentir.
       Marie assentiu com a cabea e baixou a vista.
       s vezes, no posso acreditar que se foi.
Sei como se sente. Jane guardou o brilho de lbios na bolsa e rodeou os ombros de Marie com um brao. Se alguma vez quizer falar com algum, me chame.
       Isso estaria bem.
       A Marie lhe encheram os olhos de lgrimas, e Jane lhe deu um aperto. Tinham passado vinte e quatro anos da morte de sua me, mas a Jane no custava reviver as sensaes de antigamente.
Mas esta noite, no. Esta noite nos vamos passar bem. Antes me apresentaram a uns sobrinhos do Hugh Miner. So de Minnesota e acredito que tm sua mesma idade.
       Marie enxugou as lgrimas com os dedos.        
So bonitos?                                                                  
       Jane repensou uns segundos. Se ela tivesse a idade de Marie, poderia dizer que sim, mas no tinha sua idade, e pensar se uns moos adolescentes eram bonitos a fez sentir incmoda. Quase pde escutar a cano Mrs. Robinson em sua cabea.
Bom, vivem em uma granja disse enquanto saam do lavabo. Acredito que se dedicam a ordenhar vacas.
       Marie a olhou com os olhos arregalados.
Tranqila, que so uns meninos estupendos, e pelo que pude ver, no cheiram a celeiro.
       Isso est bem.
Muito bem. Jane olhou por cima do ombro de Marie. Eu gosto de sua sombra de olhos.  muito brilhante.
       Obrigado. Posso-lhe emprestar isso quando quiser.
Acredito que sou um pouco velha para esses brilhos. entraram na multido e Jane encontrou os sobrinhos de Hugh Miner olhando a cidade e lhes apresentou a Marie. Jack e MAC Miner eram gmeos e tinham dezessete anos, vestiam idnticos smokings com  gravatas cor escarlate, usavam o cabelo talhado a escova e tinham grandes olhos pardos. Jane teve que admitir que, de algum modo, eram bonitos.
Em que curso est? perguntou MAC, ou possivelmente Jack, dirigindo-se a Marie.
       A moa ruborizou e encolheu de ombros. Olhou Jane, que, ao apreciar a terrvel insegurana da adolescncia, deu graas a Deus por no ter que voltar a passar por isso.
       No dcimo respondeu Enjoe.
       Ns fizemos dcimo o ano passado.
       Sim, todo mundo se mete com os do dcimo.
       Marie assentiu com a cabea.
       No Dumpsters aprontam com os de dcimo.
       Ns no. Ao menos, com as garotas.
Se estivssemos em seu colgio, protegeramos-lhe disse um dos gmeos, impressionando Jane com sua galanteria. Eram pequenos cavalheiros, seus pais os tinham educado bem e deviam sentir-se orgulhosos. Dcimo  uma merda acrescentou.
Talvez no fosse assim. Talvez algum devesse ensinar aquele moo que no deve falar-se desse modo diante de uma dama.
Sim,  uma merda conveio Marie. Estou desejando passar de curso.                                                
       De acordo, talvez Jane estivesse um pouco defasada. Ao fim e ao cabo, todo mundo utilizava esse tipo de expresses.
       Quanto mais falavam Jack e MAC, mais relaxada parecia Marie. Falaram das universidades que iriam, dos esportes que praticavam, e da msica que gostavam. Todos coincidiram que o trio de jazz que tocava no outro extremo da sala no rolava.
       Enquanto Marie e os gmeos falavam de coisas que eram uma merda ou no rolavam, Jane deu uma olhada  sala, procurando um pouco de conversao adulta. Reparou em Darby, que conversava com o diretor esportivo Clark Gamache, e tambm viu Luc, que estava ao final do balco falando com uma loira muito alta que usava um vestido branco apertado. A mulher tinha sua mo apoiada no brao de Luc, que permanecia com a cabea inclinada para escutar o que ela dizia. Afastou a aba da jaqueta e mostrou uma mo no interior do bolso das calas. Os suspensrios cinzas repousavam sobre as dobras da camisa, mas Jane sabia que por baixo daquelas roupas to formais Luc escondia o corpo de um deus e a tatuagem de uma ferradura no ventre. Ele riu para ouvir algo que a mulher lhe disse, e Jane afastou o olhar. Sentiu no estmago a pontada um pouco muito similar ao cime, e sua mo apertou a pequena bolsa. No podia estar ciumenta. No tinha possibilidades com ele e, alm disso, no gostava. Bom, isso no era de tudo certo. O que sentia era raiva pensou. Enquanto ela cuidava de sua irm, Luc flertava com aquela beleza vestida de branco.
       Rob Sutter a tirou danar e ela deixou Marie aos cuidados dos gmeos Miner. Martelo a conduziu ao centro da pista e comearam a danar. Com uma mo em sua cintura, guiou-a de maneira perfeita. Se no tivesse um arroxeado no olho, inclusive teria parecido um homem respeitvel.
       Depois de Rob, danou com o Stromster, que tinha tingido a crista de cor azul clara para que fizesse jogo com o smoking. No princpio, a conversao com o jovem sueco foi complicada, mas quanto mais o escutava, melhor entendia o que dizia apesar de seu marcado acento. Quando o trio fez um descanso, agradeceu Daniel e foi em busca do Darby, que estava esperando-a em um canto da sala.
Lamento, Jane disse quando ela se aproximou, mas tenho que te leva-la pra casa agora mesmo. A inscrio na qual estvamos trabalhando vai concretizar se esta mesma noite. Clark j se foi aos escritrios do clube. Eu terei quer ir com ele.
       O Space Needle estava a um tiro de pedra do Key Arena e, segundo a hora do dia, o trajeto at seu apartamento era de pouco mais de meia hora.
       Vai-te. Irei de txi.
       Ele meneou a cabea.
       Quero me assegurar que chegue bem em casa.
Eu me assegurarei de que chegue bem em casa. Jane se voltou para ouvir a voz de Luc.
Marie est com os gmeos Miner disse. Quando terminarem, levaremos-lhe pra casa.
       Isso seria de grande ajuda para mim disse Darby.
       Jane olhou por trs de Luc em busca da loira, mas ele estava sozinho.
       Est seguro? perguntou Jane.
Sim. Luc olhou ao ajudante do diretor esportivo. Quem  a inscrio?
       Manteremos em segredo at manh pela manh.
       Claro.
       Dion.
       Luc sorriu.
       Srio?
Sim. Darby se voltou para Jane. Obrigado por ter vindo esta noite comigo.
Obrigado por me convidar. A viagem de limusine foi maravilhosa.
Verei os dois no aeroporto pela manh disse Darby encaminhando-se para o elevador.
       Enquanto Jane o observava afastar-se, perguntou:
       Quem  Dion?
Realmente no sabe muito de hquei reps Luc. Agarrou-a pelo cotovelo e, sem incomodar-se em perguntar, arrastou-a at a lotada sala de baile. Meteu no bolso de sua jaqueta a pequena bolsa do Jane, apertou uma das mos desta e a outra a ps sobre sua cintura.
       Com os sapatos novos de salto, os olhos do Jane chegavam  altura da boca de Luc. Ela apoiou a mo em seu ombro. A luz da sala de baile projetava uma sombra em diagonal sobre o rosto de Luc, e Jane observou o movimento dos lbios de este enquanto falava.
Pier Dion  um goleador veterano disse. Conhece muito bem este esporte. Quando pega bem, o disco voa a uma velocidade endiabrada.
       Ao observar sua boca, Jane sentia divertidos comiches em suas terminaes nervosas. Elevou o olhar at seus olhos e disse:
       Sua irm parece uma garota estupenda.
       Fala srio?
       Surpreende-te?
No. Luc olhou por cima da cabea de Jane. A coisa  que muda de humor de um momento a outro,  imprevisvel, e esta noite ia ser muito especial para ela. Tinham-na convidado a um baile do colgio, mas o menino que devia lev-la decidiu ir com outra no ltimo minuto.
       Isso  terrvel. Que porco.
       Ele voltou a olh-la nos olhos.
Ofereci-me para ir chutar o traseiro, mas Marie pensou que seria embaraoso.
       Por alguma estranha razo, Jane sentia que Luc comeava a simpatizar. No podia evit-lo, e tudo porque se ofereceu pra chutar o traseiro de quem tinha dado bolo na sua irm.
        um bom irmo.
O certo  que no. Luc acariciou as costas de Jane com um polegar e a atraiu ligeiramente para ele. Chora  3 de quatro noites e eu no sei o que fazer.
       Acaba de perder a sua me. No h nada que possa fazer.
       O joelho de Luc roou no de Jane.
       Ela lhe disse?
Sim, eu sei como se sente. Eu tambm perdi a minha me. Disse que se precisasse falar com algum que me chamasse. Espero que no se importe.
Absolutamente. Acredito que necessita de uma mulher com quem falar. Contratei uma senhora para que a acompanhe enquanto estou fora, mas no gosta. Luc refletiu por uns segundos e acrescentou: O que ela precisa  algum que a leve s compras. Cada vez que lhe deixo meu carto de crdito, volta com uma bolsa de quinquilharias e algo dois nmeros menor.
       Isso explicava o vestido apertado.
Poderia p-la em contato com minha amiga Caroline.  uma especialista ajudando nesse tipo de coisas.
       Isso seria estupendo. No sei nada de garotas.
       Mesmo que no tivesse lido nada sobre ele, Jane teria descoberto em menos de cinco segundos que sabia muito de garotas. Havia algo em seu olhar e em seu sorriso que o delatava.
       Queres dizer que no sabe nada de irms.
No sei nada de minha irm pequena particularizou ele em tom zombador. Mas em uma ocasio, tive um encontro com umas gmeas.
J. Ela franziu o sobrecenho. Voc e suas histrias.
       Ele ps-se a rir.
 to crdula disse justo quando a msica acabava e ela se deteve. Em lugar de solt-la, ele a atraiu para seu peito. O trio comeou outra cano. O que fizeram voc e Hogue na limusine? perguntou-lhe aproximando a boca do seu cabelo.
       Como diz?
Agradeceu ao Darby e lhe disse que a viagem em limusine foi maravilhosa.
       Ela e Darby tinham bebido champanhe e no tinham deixado o televisor em paz, enquanto o condutor os passeava pela cidade como se de Bill e Melinda Gates se tratasse. Mas supunha que no era isso o que Luc queria saber. Tinha o crebro na rea entre as pernas, por isso decidiu lhe dar algo em que pensar.
       Fizemos coisas ms.
       Luc a olhou sobressaltado.
       Fez coisas ms com Hogue?
       A Jane quase lhe escapou a risada. O nico mau nela era sua imaginao.
       Sob toda aquele gel, esconde-se um tigre.
       Me conte pediu ele, apertando seu ombro com os dedos.
       Quer que te conte os detalhes?
       Sim, por favor.
       Agora Jane no pde evitar soltar uma gargalhada. Ele devia ter feito suposies que nem sequer Bombonzinho de Mel teria sido capaz de imaginar. Duvidava que pudesse lhe surpreender embora o tentasse.
       A menos que invente algo, temo-me que se sentir defraudado.
       Ento inventa.
       Podia faz-lo? Ali, na pista de baile? Podia converter-se em Bombomzinho de Mel se fechasse os olhos? A mulher que fazia que os homens ardessem de desejo. Homens como Luc.
Na verdade no foi to mau disse ela. Nada de chicotes e algemas. No simpatiza com dor.
       Era muito atrativo estar to perto de Luc e fingir que era a mulher capaz de satisfazer a um homem como ele. A classe de mulher que sussurra insinuaes e fazia que os homens suplicassem. Para seu seguinte artigo para a revista Him, tinha pensado escrever sobre uma fantasia compartilhada para o Bombonzinho de Mel. Os homens adoravam as fantasias compartilhadas.
       Voc gosta de olhar?      
Sou mais dos que participam sussurrou ele a seu ouvido.  mais interessante.
       Mas no podia faz-lo. S em seu apartamento era uma coisa, mas ali entre os braos de Luc era outra coisa totalmente diferente. No podia deixa voar sua imaginao, e o mximo que atinou a dizer foi:
Darby  insacivel. Ningum teria suposto. De fato, acredito que vou sentar me. Estou esgotada.
       Luc lhe apertou o brao e a olhou no rosto.
       No me diga que tem to pouca resistncia.
Falemos de outra coisa disse ela, que temia que suas defesas comeassem a fraquejar.    
       Ele se manteve imvel durante um momento, depois disse:
       Est muito bonita esta noite.
       Obrigado. Voc tambm  est.
       Luc a atraiu uma vez mais para si e ela ps de novo a mo em seu ombro, sentindo a suavidade de sua jaqueta. Se aproximasse um pouco mais o aroma de sua colnia impregnaria seu nariz.
       E est muito elegante. Eu gosto de seu penteado.
Cortei o cabelo esta manh. Agora est bem, mas a prova definitiva ser amanh pela manh, quando o lavar.
       Eu lavaria e deixaria secar sussurrou Luc. 
       Ela fechou os olhos. Bem, um tema seguro... e aborrecido. O cabelo.
       Eu gosto de seu vestido.
       Outro tema seguro.
       Obrigado. No  negro.
J me dei conta. Luc deslizou a mo de sua cintura para suas costas, deixando os dedos e a palma clida sobre a pele nua- Acha que poderia pr alguma vez a parte de trs para frente?
No. Acredito que no reps ela, sentindo o calor de sua mo.
       Que lstima. No me importaria v-lo posto desse modo.
       A msica flua ao redor de Jane como se tudo estivesse parado. Luc Martineau, com seu malvado sorriso e sua tatuagem de ferradura, queria v-la nua. Impossvel. Sob a superfcie, sua pele tremeu, quente e viva, plena de sensaes. O desejo e a necessidade se apertavam em seu abdmen e se perguntava se ele se teria dado conta de que se pegou a ele justo para lhe cheirar o pescoo. Justo por cima de sua gravata e do pescoo de sua camisa.
       Jane?
       ---Sim?
Marie voltou. Amanh temos que estar muito cedo no aeroporto, assim  melhor que vamos.
       Jane elevou a vista para o rosto de Luc. Sua mente estava ocupada em impuros pensamentos, mas ele parecia alheio e distante. No me importaria v-lo posto desse modo, havia dito. No cabia dvida de que estava flertando com ela.
       Vou procurar meu casaco.
       Afastou a mo de suas costas e o ar frio substituiu o calor de seu toque. Agarrou-a pelo brao e, enquanto abandonavam a pista de baile, passou-lhe a pequena bolsa de Caroline.
Me d seu ticket. Vou pegar o casaco de Marie e tambm trarei o seu.
       Jane mexeu na bolsa e extraiu o ticket. Enquanto ele retirava os casacos, Jane falou com Marie, mas continuava pensando em Luc, e no queria deixar de faz-lo. Havia sentido que o desejava. M coisa. O teria percebido Luc? Esperava de todo corao que no. Esperava que nunca imaginasse. Sua vida poderia desenvolver-se com total felicidade se ningum soubesse,ou seja que Jane Alcott tinha querido saltar em cima do jogador de hquei Luc Martineau. Se ele chegasse a suspeit-lo, sem dvida sairia correndo na direo contrria.
       Quando esteve de volta, ajudou-a a vestir seu casaco negro. Os dedos do Luc roaram sua nuca enquanto ajustava o pescoo do casaco, e ela se perguntou o que se pareceria sentir seus braos ao redor do corpo enquanto se apertava contra ele. Mas embora tivesse intenes para seguir seus impulsos, seria j muito tarde; ele tinha se afastado e mantinha aberto o casaco de sua irm para que o pusesse sem problemas.
       Enquanto esperavam na base do Space Needle a que o manobrista lhes levasse o Land Cruiser branco do Luc, este abotoou a jaqueta e colocou as mos nos bolsos, com os ombros encurvados devido ao frio. Falaram do tempo e do vo que tinham que tomar quase de madrugada. Nada importante. Marie lhes falou das vistas do mirante, e Jane no deixou de lhe dar olhadinhas ao escuro perfil de Luc. A luz que chegava do alto da torre iluminava um s lado de seu rosto e seus largos ombros, desenhando uma alargada sombra no concreto.
       Quando retornou o manobrista, Luc abriu a porta do acompanhante para Jane e a traseira para sua irm. Ficou ao volante, arrancou e tomou Bellevue. Depois de umas quantas voltas, rompeu o silncio.
A senhora Jackson est ciente de que tem que chegar antes de que v ao colgio disse a sua irm. Necessita de dinheiro ou alguma outra coisa?
       Jane o olhou de esguelha. Seu perfil era pouco mais que uma silhueta negra dentro do interior escuro do carro. A luz procedente do poste ricocheteava contra seu relgio de pulso lanando brilhos dourados sobre sua jaqueta. Voltou o olhar para o guich.
Necessito de dinheiro para comer e tenho que pagar a classe de cermica.
       Quanto necessita?
       Jane escutou sua conversa, sentindo uma intrusa, sentada naquele assento de couro do veculo de Luc enquanto este falava com sua irm a respeito de questes de sua vida cotidiana. Uma vida em que no estava includa. Era a vida deles. No a sua. Ela tinha sua prpria vida. Uma feita a sua medida, e no guardava relao com a de Luc.  Quando o veculo se deteve frente a sua casa, Jane foi abrir a porta.
       Muito obrigado por me trazer para casa disse.
       Luc estirou a mo e a agarrou do brao.
No te mova. Olhou por volta do assento traseiro. Agora mesmo volto, Marie acrescentou ao tempo que sai do carro.
       As luzes apenas lhe iluminaram enquanto rodeava o Land Cruiser e abria a porta do acompanhante. Ajudou Jane a sair e caminhou a seu lado pela calada. No alpendre iluminado, ela abriu a bolsa e tirou as chaves, mas igual  noite em que ele a tinha acompanhado a sua habitao em San Jos, lhe tirou a chave e a introduziu na fechadura.
Tinha deixado aceso um dos abajures de cho, e a luz iluminava o carpete e a porta de entrada.
Obrigado de novo disse ao tempo que entrava no piso. Estirou a mo para que lhe entregasse as chaves e lhe agarrou o pulso, deixou cair as chaves na palma de sua mo e entrou com ela.
Isto no  uma boa idia disse Luc, e com o polegar lhe acariciou o pulso.
       O que? Me trazer para casa?
No. Atraiu-a para ele e lhe roou uma bochecha com a sua. Estiveste me deixando louco. No deixo de me perguntar o que devo sentir ao enredar os dedos em seu cabelo. Aumentou a presso de suas mos contra as costas dela. Seus lbios vermelhos e seu vestido da cor do fogo me tm feito pensar um monto de coisas desatinadas. No deveria ter esse tipo de pensamentos contigo, mas os tenho. Deveria passar de tudo isso. Seus olhos azuis se cravaram nos de Jane, ardentes e intensos. Mas no posso sussurrou contra sua boca. Me diga uma coisa, Jane, tem frio? ---Seus lbios se roaram e ele acrescentou entre ofegos: Ou est excitada?
       Ento a beijou, e o impacto a deixou atordoada durante alguns segundos. No podia fazer outra coisa mais que ficar ali quieta enquanto ele a beijava.
       O que queria dizer lhe perguntando se tinha frio ou estava excitada? Claramente, no tinha frio.
       Ele apertou sua boca contra a de Jane e posou a mo livre em seu rosto, lhe acariciando a bochecha e enroscando os dedos em seu cabelo at roar a tmpora. Um leve gemido escapou da garganta de Jane, as chaves caram de sua mo e j no importou o que significava aquela pergunta sobre o frio. Percorreu com a palma de sua mo a parte frontal da jaqueta de Luc at chegar ao pescoo. Aquilo no podia estar acontecendo. No a ela. No com ele.
       Os lbios de Luc apertaram com mais fora at que ela abriu a boca. Sua lngua deslizou para dentro e tocou a sua, mida e to esperada.
       Para um homem que passava o tempo travando a outras pessoas e dando golpes no disco com seu stick, suas carcias eram surpreendentemente suaves. Jane se sentiu arrastada pela paixo que percorria sua pele, agarrando-se em seu seio, e lhe provocando dor entre as coxas. Deixou-se cair na luxria que tinha tentando conter. A grande mo de Luc abrangeu um de seus seios atravs do tecido de seu vestido e do casaco, ao tempo que Jane se grudava a seu corpo. Roou seu mamilo com o polegar e este cresceu entre seus dedos. No havia mais pensamento que se deixar levar, que fazer o que tinha que fazer. Beijou-o como se quisesse devor-lo. Sua lngua se enroscou na de Luc como se desejasse embebedar-se dele.
       Luc se afastou e a olhou nos olhos e disse com voz spera:
       Faz que me d vontade de te chupar mais que de te beijar.
       Jane lambeu os lbios midos e assentiu. Ela tambm o preferia.
       Maldita seja disse Luc entre ofegos.
       Depois deu a volta e se foi. Deixou Jane aturdida e desconcertada. Atordoada pela quarta vez aquela noite.




10

O ponto cego

       Jane fechou seu computador porttil e deixou o que estava escrevendo: a histria do Bombonzinho de Mel e sua ltima vtima, um jogador de hquei que tinha conhecido no mirante do Space Needle. Um jogador de hquei que se parecia muitssimo com Luc Martineau.
       Levantou-se da cadeira e olhou pela janela do hotel para o centro urbano de Denver, Colorado. Definitivamente, estava cada vez mais atrada por Luc. Sem dvida era uma insensatez. No passado, apoiou-se s vezes em pessoas reais para descrever s vtimas do Bombonzinho de Mel. Trocava os nomes, mas os leitores podiam imaginar de quem se tratava. Fazia uns meses, por exemplo, tinha utilizado o Brendan Fraser, para que o reconhecessem quem tinha visto filmes como Em busca da Eva, George da selva ou Ao diabo com o diabo. Mas essa era a primeira vez que escrevia sobre algum a quem conhecia pessoalmente.
       As pessoas reconheceriam Luc quando sasse o nmero de maro. Os leitores de Seattle, no mnimo, fariam-no. Ele escutaria os comentrios. Jane se perguntou se lhe importaria.  maioria de homens lhes daria igual, mas Luc no era como a maioria. No gostava de ler o que se dizia dele nos livros, nos peridicos ou nas revistas. Tinham-lhe sem cuidado as adulaes. Embora o relato de Bombonzinho de Mel era extremamente adulador. Mais sexy e apaixonado do que tinha escrito at ento. De fato, era o melhor que j tinha escrito. Ainda no tinha claro se ia enviar o ou no. Dispunha de uns quantos dias antes de tomar uma deciso.
       Soltou as cortinas e se voltou para a habitao. Tinham passado dezesseis horas desde que Luc a tinha beijado deixando-a sem flego. Dezesseis horas de alvio e de anlise de cada palavra e cada ao. Dezesseis horas e ela continuava sem saber o que pensar. Ele a tinha beijado e tudo tinha mudado radicalmente. Bom, para falar a verdade no s a tinha beijado. Havia lhe tocado no seio e havia dito que estava deixando-o louco, e se sua irm no tivesse lhe esperando no carro, Jane poderia t-lo deitado no cho para ver a sua tatuagem que a enlouquecia desde que a viu pela primeira vez no vestirio. E isso no seria nada bom. Nada bom. Por um monto de razes.
       Tirou os sapatos de uma vez e o pulver. Deixou-o sobre a cama e se dirigiu ao banheiro. Ardiam-lhe os olhos e se sentia confusa. Em lugar de permanecer encerrada em sua habitao trabalhando no relato do Bombonzinho de Mel teria que ao Pepsi Center para falar com os jogadores e os treinadores antes da partida da noite seguinte. Darby lhe havia dito que o momento mais adequado para falar com os treinadores ou com os diretores era durante o treino, e Jane queria lhes fazer vrias perguntas sobre a nova contratao, Pierre Dion.
       Meteu-se na ducha e deixou que a gua quente lhe casse sobre a cabea. Aquela manh, quando Luc subiu ao avio, com culos de sol, traje azul e a gravata frouxa, havia sentido um retorcimento no estmago como se voltasse a ter treze anos e se tratasse de sua primeira aventura no colgio. Foi horrvel, pois era o bastante adulta para saber que uma aventura com o menino mais popular do colgio acabaria lhe rompendo o corao.
       Passados quinze minutos, saiu da ducha e agarrou duas toalhas. Sendo sincera consigo mesma, algo que tinha tentado evitar, no podia continuar enganando-se pensando que o que sentia por ele no era mais que o desejo de ter uma aventura. Tratava-se de algo mais. Muito mais, de fato, e por isso estava assustada. Tinha trinta anos. No era uma menina. Tinha ficado apaixonada, tambm tinha sentido desejo e tambm algo que era uma mescla de ambas as coisas. Mas nunca se permitiu perder a cabea por um tipo como Luc. Nunca. E menos ainda tendo tanto a perder. No quando tinha muito mais em jogo que ao contrrio. Um pouco mais importante: seu trabalho.
       Um corao quebrado podia superar-se; j o tinha obtido antes. Mas no acreditava que estivesse em disposio de jogar pela amurada a melhor oportunidade de que tinha disposto em muito tempo. E menos devido a um homem. Seria uma estupidez, e ela no era estpida.
       Bateram na porta, interrompendo seus pensamentos, e foi abrir. Olhou pela mira e viu Luc, bem penteado e composto. Estava olhando para o cho, por isso se permitiu uns segundos para estud-lo. Usava jaqueta de couro e pulver cinza, e devia chegar da rua porque suas bochechas estavam rosadas. Elevou a vista e seus olhos azuis a olharam atravs da mira como se pudesse v-la.
       Abre, Jane.
Um segundo disse ela, sentindo-se tola. Foi at o armrio e tirou o penhoar, o ps e abriu a porta.
       Luc a estudou, olhou sua boca e a seguir, sem pressa, descendeu at seus ps nus.
       Ao que parece, cheguei outra vez depois que saiu da ducha.
       Assim .
       Luc contemplou suas pernas e depois a olhou no rosto, inexpressivo. Ou no lhe interessavam ou fingia muito bem seu desinteresse.
       Tem um minuto?
Claro. Jane se fez a um lado e o deixou acontecer. O que quer?
       Uma vez no centro da habitao, Luc se voltou para olh-la.
Esta manh parecia incmoda. No quero que se sinta incmoda a meu lado, Jane. Tomou flego e meteu as mos nos bolsos da jaqueta. Assim pensei que talvez devia me desculpar.
Te desculpar, por que...? disse ela, mas sabia e esperava que ele no soubesse o motivo.
Por te beijar ontem  noite. Ainda no sei com certeza o que foi o que aconteceu. Luc olhou por cima da cabea de Jane, como se a resposta estivesse escrita na parede. Se no te tivesse cortado o cabelo, se no tivesse to bonita, acredito que no teria ocorrido.
Aguarda um segundo disse ela, elevando uma mo. Est jogando a culpa ao meu penteado? perguntou, s para assegurar-se de que tinha ouvido bem. Esperava haver-se equivocado.
Certamente, teve mais que ver com o vestido. Esse vestido foi desenhado com uma motivao oculta.
       Tinha-a beijado, e ela tinha cado presa aos seus encantos at tal ponto que j no sabia se tratava sem mais de seus encantos. E naquele momento estava ali, responsabilizando a seu penteado e a seu vestido como se tivesse sido uma maquinao dela. Saber como se sentia Luc lhe doeu mais do que o previsto. Era um idiota, mas ela era uma burra e este ltimo lhe era mais duro de assumir.
       A dor e a raiva lhe oprimiam o corao, mas estava decidida a no revelar seus sentimentos.
       No era mais que um vestido vermelho qualquer.
Deixava-te a costa descoberta e s tinha duas tiras na frente. Luc se balanou sobre seus ps e baixou o olhar para percorrer Jane da toalha que recolhia seu cabelo at os ps nus. Passara a noite anterior pensando naquele beijo em seu apartamento, e no tinha a noo certa do que o tinha levado a beij-la. O vestido. Os lbios. A curiosidade. Tudo junto. E a correntinha de ouro que pendurava de suas costas s tinha uma razo de ser.
       Qual? Te hipnotizar?
       Estava sendo sarcstica, mas no andava desencaminhada.
Talvez no me hipnotizar, mas estava ali para que qualquer homem que a visse pensasse em desenganch-la.
       Jane arqueou uma sobrancelha e olhou como se Luc fosse idiota. Realmente parecia s-lo.
Digo-lhe isso a srio acrescentou ele. Todos os homens pensavam ontem  noite em te tirar o vestido.
       Ningum o havia dito, mas Luc supunha que o tinham pensado; tinham que hav-lo feito.
Esta  sua idia do que supe pedir desculpas ou sua maneira de racionalizar o que aconteceu? tirou a toalha da cabea e a jogou sobre a cama.
        um fato.                                   
       Jane se penteou um pouco com os dedos.   
       Que frustrante.
       Se ela tivesse sido um menino, teria captado a lgica do assunto.
Alm de ser uma estupidez. Seus midos cachos lhe enredaram entre os dedos ao afasta-los do rosto. Isso me faz responsvel por tudo, mas no fui eu quem ontem  noite se meteu em seu apartamento e te beijou. Foi voc que me beijou .
No protestou. Luc no sabia o que era o que lhe contrariava mais, se o fato de hav-la beijado ou o que lhe correspondesse. Jamais teria imaginado toda a paixo que podia conter aquele corpo mido.
       Ela deixou escapar um comprido suspiro, como se todo aquele assunto a aborrecesse.
No queria ferir seus sentimentos.                                        
       Ele ps-se a rir, embora o que desejava era aproximar-se dela e beij-la na boca. Deslizar a mo dentro do penhoar e abranger seu seio, apesar de saber que era algo pior que uma m idia. Apoiou o quadril na escrivaninha enquanto afastava o olhar de seus lbios, recordando como estavam na noite anterior. Olhou para um lugar seguro: o computador porttil de Jane.
Pelo modo em que beijava, acreditei que queria te colocar dentro de mim.
       A agenda estava aberta a um lado do computador. Tinha um monto de notas adesivas. Um par dessas notas falavam de questes relacionadas com o hquei e com perguntas que queria formular para sua crnica.
       Outra vez parece frustrante.
       Uma das notas rosas dizia: 16 de fevereiro: entrega "Solteira na cidade", no entanto em outra podia ler-se: "Bombonzinho de Mel": tomar deciso na sexta-feira como muito tarde. Bombozinho de Mel? Jane lia as aventuras dessa ninfomanaca que fazia que os homens entrassem em estado de erupo? No podia imagina-la lendo histrias pornogrficas.
Estava muito excitada disse arrastando as palavras de maneira lenta e deliberada ao tempo que voltava a olh-la nos olhos. Poderia te haver despido em um segundo.
No s  presunoso e decepcionante, mas sim...  um perturbado mental! espetou-lhe.
Provavelmente admitiu ele enquanto passava por seu lado caminho da porta. Sentia-se um perturbado mental, em efeito.
Espera um segundo. Quando vais conceder-me a entrevista que prometeu?
       Com a mo j na maaneta da porta, Luc se voltou para ela.
       Agora, no respondeu.
       Quando?
       Algum dia.
Algum dia como amanh? Jane colocou o cabelo detrs das orelhas.
       Lhe farei saber isso.
No pode me deixar pendurada.
       Luc no tinha inteno de faz-lo. Simplesmente no queria que o entrevistasse nesse momento. A. Em uma habitao de hotel com uma enorme cama de lua-de-mel e ela coberta to somente com um penhoar, lhe pedindo que demonstrasse quo perturbado estava.
       Sim, e isso quem o diz?              
       Ela franziu o cenho e lhe cravou o olhar.
       Sim.                                     
       Ele riu outra vez. No podia evit-lo. Dava a impresso de que Jane estava disposta a lhe dar uma patada no traseiro.
       Prometeu-me isso.
       Por um segundo Luc cogitou a possibilidade de faz-la calar com um beijo. Beij-la at que se abrandasse e voltasse a ficar doce. At faz-la gemer daquele modo to especial, como tinha feito na noite anterior; lev-la inclusive mais longe. Toc-la ali onde sua mente no tinha deixado de pensar desde que, aquela mesma manh, no avio em que viajava a equipe, tinha-a visto de novo.
       Quando, Luc? insistiu ela.
       Em lugar de responder imediatamente, ele abriu a porta e disse por cima do ombro:
       Quando tiver posto suti, Jane.
       Luc subiu o zper da jaqueta enquanto percorria o corredor. No podia repetir algo como o da noite anterior. Tinha sido bom beij-la e sentir que lhe fervia o sangue, e algo assim no lhe tinha acontecido fazia muito tempo. Se Marie no tivesse esperando no carro, no sabia se teria podido conter-se. Gostava de pensar que poderia hav-lo feito. Gostava de pensar que era uma pessoa amadurecida e bastante experiente para deter-se antes de fazer algo do que se arrependeria, algo completamente estpido, mas no estava seguro. Tinha beijado muitas mulheres em seus trinta e dois anos de vida. Tambm um monto de mulheres o tinham beijado, mas nunca como tinha feito Jane. No sabia o que era o que lhe passava com aquela mulher, e tampouco queria dedicar tempo a descobri-lo. Ela j ocupava muito seus pensamentos.
       A ultima coisa que necessitava em sua vida nesses momentos era uma mulher. Qualquer mulher. E, em particular, aquela. A jornalista que viajava com a equipe. Piralha, seu amuleto da boa sorte.
       S havia uma soluo para seu problema com Jane. Tinha que afungenta-la na medida do possvel. Mas no ia ser to simples como parecia. Ela viajava com a equipe, fazia a crnica de todas as partidas, e tinha que lhe chamar pedao de parvo antes de cada partida para lhe dar sorte.
       Ao longo de sua carreira, Luc tinha aprendido a concentrar-se sob a presso que supunha uma prorrogao ou quando se enfrentava cara a cara a um dianteiro. Tinha previsto fazer uso dessa capacidade durante os seguintes dias para no afastar a ateno da vitria. Precisava concentrar-se nas partidas e fazer o que tinha que fazer.
       Aquela noite, contra Colorado, deteve vinte e oito dos trinta disparos ao gol, e os Chinooks subiram ao avio com uma vitria por trs a dois contra um de seus grandes rivais para ganhar a liga. Assim que o BAC-111 elevou o vo, Jane acendeu o computador porttil e o brilho da tela iluminou trs filas de assentos. Luc no necessitava daquela luz para saber onde estava sentada... Mas que soubesse no significava que no tivesse que fazer nada a respeito. Durante o vo entre Denver e Filadlfia, comprovou que alguns dos moos falaram com ela. Daniel lhe disse algo que a fez rir, e Luc se perguntou que comentrio poderia lhe haver feito o jovem sueco para que o achasse to engraado. Luc agarrou um travesseiro e se abraou a ele durante o resto da viagem.
       Fugir de Jane parecia mais simples do que tinha suposto, mas no pensar nela era impossvel. Ao que parecia, quanto mais disposto se mostrava a afugent-la, mais pensava nela, e quanto mais tentava no pensar nela, mais se perguntava o que estaria fazendo e em companhia de quem. Provavelmente se tratasse de Darby Hogue.
       Na Filadlfia s viu Jane uma vez, mas no momento em que entrou no vestirio do First Union Center, fixou-se nos lbios pintados de vermelho, e soube que o fazia com o nico propsito de transtorn-lo. Deu-lhes seu discurso de boa sorte, depois caminhou para onde ele estava sentado, frente a uma bilheteria aberta.
Boa sorte, pedao de tolo disse, e em um sussurro acrescentou: E para sua informao, tenho um monto de sutis.
       Enquanto Luc a observava sair do vestirio, sentiu-se preocupado por que aqueles lbios to vermelhos tivessem alterado sua concentrao. Durante uns tensos segundos, centrou sua ateno na boca do Jane e no imaginrio suti. Fechou os olhos e esclareceu sua mente, e graas a uma obstinada fora de vontade, voltou a alcanar a concentrao necessria dez minutos antes de saltar  pista de gelo.
       Aquela noite, os Chinooks deixaram fora de combate aos Flyers, mas antes disso, os meninos da Filadlfia repartiram pancadas a torto e a direito, enviando Sutter ao hospital com comoo cerebral. Rob seguia inscrito na lista de lesados quando aterrissaram em Nova Iorque para jogar contra os Rangers. No vestirio, antes da partida, Luc esperou que Jane lhe desejasse boa sorte e ento lhe disse:
       Se tem tantos sutis, deveria te pr sequer um.
       Por que? perguntou ela, olhando-o nos olhos.
       Por que? Podia lhe dizer exatamente o porqu, mas no em um vestirio cheio de jogadores de hquei. Para falar a verdade, no era seu assunto lhe dizer que seus mamilos estavam em posio de eretos. Estava tentando afugent-la. Acabou falando com ela ou pensando nela, disse-se enquanto patinava para a portaria, centrando toda sua energia e concentrao em ganhar dos Rangers. Mas sem seu melhor goleador, os Chinooks tiveram que lanar mo da fora fsica lutando nas esquinas e, finalmente, perderam a partida quando o capito dos Rangers escapou de seu marcador e fez um gol em Luc graas a um tiro certeiro.
       Depois foram ao Tennessee, lugar de nascimento de Elvis e dos Predators de Nashville. Aquela noite, no vesturio, ningum disse nada a respeito dos prendedores de Jane.
       A jovem equipe do Tennessee caiu facilmente  mos dos mais experientes Chinooks, e quando estes subiram ao avio para o comprido vo a Seattle, Luc se sentia contente de retornar pra casa. Seu joelho direito lhe preocupava e estava esgotado fisicamente.
       Uma vez o BAC-111 decolou, Luc tirou a jaqueta e levantou o brao que separava os assentos. Agarrou um travesseiro, colocou-a contra a parede do avio e apoiou as costas nela. Uniu as mos cruzando os dedos, colocou-as em cima de seu ventre e se sentou na escurido olhando para o corredor, para Jane. A luz lhe caa justo em cima da cabea e se filtrava entre seus cachos soltos enquanto escrevia sua crnica. As pontas de seus dedos logo que roavam as teclas do computador. Jane se deteve, fez retroceder o cursor e voltou a comear. Luc pensou em todos os lugares de seu corpo sobre os quais gostaria de sentir o toque daqueles experientes dedos.
       Uma mecha caiu sobre a bochecha de Jane e ela a colocou atrs da orelha, lhe permitindo observar atentamente sua mandbula e parte do pescoo. Umas quantas filas mais atrs, alguns dos moos jogavam pquer, mas a maioria dormia, mesclando seus roncos com o som do teclar de Jane.
       Durante os sete dias prvios, Luc tinha conseguido manter-se ocupado, mas naquele momento, sem nada no que distrair sua mente, tomou um pouco de tempo para estud-la. Para descobrir de uma vez por todas por que, de repente, achava Jane Alcott to atraente. O que havia nela que no lhe deixava ficar tranqilo? Era baixa, quase no tinha peito, e era uma simplria. De fato, era uma maldita simplria. A Luc nunca tinham atrado semelhantes caractersticas em uma mulher. E gostava de Jane. Essa noite vestia uma dessas blusas de l prprias das ancis ou das estudantes das universidades metidas. Negra. Sem jia alguma. Usava calas cinzas tambm de l, e tinha tirado os sapatos.
       Na escurido, Luc estudou seu suave cabelo e sua perfeita e plida pele. A primeira vez que a viu, pensou que era muito singela. Uma garota natural. Depois no deixava de perguntar-se por que as garotas naturais nunca lhe tinham parecido atrativas. Por que desejava acariciar com as mos sua terna pele. Pela primeira vez desde que esteve em sua habitao do hotel em Denver, permitiu-se pensar como se sentiria abraando seu corpo nu. Deixar-se levar pelo prazer de toc-la. De beijar sua boca, seus seios e suas deliciosas coxas.
       Jane deixou de teclar e levou os dedos  boca. Beliscou o lbio superior e deixou escapar um profundo e comprido suspiro que tanto podia indicar frustrao como prazer. Escutar aquele gemido fez que Luc agudizase dolorosamente sua ateno, e decidiu que imaginar Jane nua no tinha sido uma boa idia.
       Atravs das sombras que os separavam, observou que ela retrocedia com o cursor e voltava a comear. Luc fechou os olhos e tentou pensar na volta pra casa. Durante sua ausncia, a senhora Jackson no lhe tinha contado nenhum outro problema referente  Marie, e quando tinha falado com esta, parecia tranqila e emocionalmente estvel. Fazia amigos no edifcio, e no se ps a chorar nem se zangou durante as conversaes telefnicas. Ele ainda no tinha descartado a idia de um internato, porque ainda pensava que a sua irm beneficiaria um ambiente feminino. Mas acreditava que possivelmente Marie no estivesse preparada para falar disso, e por alguma razo que no podia explicar, havia uma parte de si mesmo que tampouco o estava. Ainda no.
       Em algum ponto sobre o Oklahoma adormeceu, e no despertou at que o avio estava a ponto de pousar no SeaTac. Uma vez que aterrissaram e se detiveram, Luc agarrou suas bolsas e se encaminhou ao estacionamento principal. Jane ia  frente dele a certa distncia, arrastando uma enorme mala com rodas e levando nas costas seu computador porttil e a maleta. Luc no demorou em alcan-la, por isso entraram juntos no elevador. Apertaram o mesmo boto para o mesmo andar da garagem e as comportas se fecharam. Luc se apoiou contra a parede e lhe deu uma olhada. Ela tinha a cabea ligeiramente inclinada para um lado. Parecia exausta, mas estava bonita.
       O que?perguntou Luc.
       Vai me conceder a entrevista esta semana?
       Talvez estivesse cansada, mas continuava trabalhando. Enquanto ele pensava no quo bonita era e na suavidade de sua pele e seus experientes dedos, ela pensava em seu trabalho. Merda.
       Usa suti?
       Outra vez com o mesmo assunto?
       Sim. Por que no usa suti como a maioria das mulheres?
       E a ti o que te importa?
       Luc baixou o olhar at os seios de Jane, mas,  obvio, no conseguiu ver nada.
Sempre tem os mamilos arrepiados, e isso me distrai.
       Quando elevou a vista at seu rosto, Jane tinha franzido o cenho e sua boca estava aberta como se fosse dizer algo e tivesse esquecido as palavras para faz-lo. As portas do elevador se abriram.
Parece que est excitada a todo o momento acrescentou Luc mantendo a porta aberta para que ela pudesse tirar sua mala com rodas. A confuso que evidenciava seu rosto era j todo um clssico, por isso ele no pde evitar rir. No me diga que nunca lhe haviam isso dito.
No. Voc foi o primeiro. Jane meneou a cabea e se encaminharam juntos para o estacionamento. Outra vez te est brincando comigo. Como quando te ofereceu para mijar em meu copo de caf ou me disse que foi a um local de strip-tease.
O do caf era srio, e tambm o que acabo de te dizer. Luc se deteve ante a parte traseira de seu Land Cruiser.
T, muito bem disse Jane enquanto seguia caminhando para seu Honda Prelude, estacionado umas quantas praas mais  frente do veculo de Luc.
       Ele deixou as bolsas no assento traseiro de seu veculo e a olhou. Tinha o porta-malas de seu carro aberto, e soprava tentando colocar aquela enorme mala. Luc percorreu o espao que os separava, fazendo que a sola de seus sapatos ressonasse no estacionamento quase vazio. Ao ouvir o som de seus passos, Jane elevou a vista. As luzes da garagem projetavam profundas sombras no canto onde tinha estacionado o carro. Uma mecha de cabelo lhe caa sobre um olho e ela voltou a coloc-la em seu lugar. Tinha os lbios ligeiramente separados e parecia um pouco agitada.
       Necessita de ajuda?perguntou Luc.      
       Ela mostrou a mala, ainda no cho.
Pode me dar uma mo? Ontem  noite comprei uns livros e este traste pesa muito.
       Luc introduziu a mala no porta-malas sem dificuldade.
Obrigado. Jane colocou tambm o computador porttil e a maleta, depois fechou o porta-malas.
       De nada.
Marie te disse que sairemos no sbado? perguntou Jane enquanto se dirigia ao assento do condutor.
Sim. Ele a seguiu e lhe tirou as chaves da mo. Abriu a porta e acrescentou: Parecia muito animada.
       Ela estirou o brao e ele deixou cair as chaves na palma de sua mo.
Alegra-me que o diga. No falamos h algum tempo e no sabia se te pareceria bem o plano.
       Luc baixou a vista de seu cabelo, passando por seus olhos verdes e seu nariz reto, at a curva de seu lbio superior.
       Sim, falamos disse.
Talvez no saiba, mas te chamar pedao de tolo e que voc me envenene com o assunto do suti no pode considerar-se falar. Jane fez uma careta com a boca. Ao menos, no se considera falar se estiver fora de um vestirio.
       Luc voltou a olh-la nos olhos e se perguntou se estava tentando ridiculariz-lo. Suspeitava que sim.
       O que quer dizer com isso, meu bem?
       Ela cruzou os braos e deu um passo atrs.
       Acredito que os dois sabemos.
S sou um estpido jogador de hquei, assim por que no o repete mais devagar para que possa capt-lo?
       Nunca disse que seja estpido.
       Ele deu um passo para ela, por isso Jane teve que elevar a vista outra vez.
Mas o faz de forma implcita, Jane. No sou to estpido como para no entende-lo.
       Jane deu outro passo atrs.
       No queria dar a entender que fosse estpido.
       Sim o queria.
       De acordo, mas no acredito que seja estpido. ...
       ---Sou...?
Rude.                                                                                               
       Ele encolheu de ombros.
       Isso  certo.
       E me diz coisas que no parecem apropriadas.
       Como o que?
       Como que parece que sempre estou excitada.
       Parecia-o.
       Nunca me diria algo assim se fosse homem.
       Estava certo, mas um homem, se acaso, iria escondido, e Luc no se daria conta. Agora bem, o que acontecia ao Jane sim podia adverti-lo.
       Levarei em conta.
       Jane retrocedeu outro passo e suas costas toparam com a parede.
 um mimado -disse. Sempre consegue tudo o que quer e faz o que te d na vontade.
       Estava falando da entrevista outra vez.
Tudo no. aproximou-se dela e ps as mos aos lados de sua cabea, sobre o frio concreto da parede. Algumas das coisas que quero no so nada boas para mim. Assim tenho que prescindir delas.
       Como o que?
A cafena. O acar. Olhou-lhe os lbios. Voc.
       ---Eu?
Definitivamente, voc. Deslizou a mo para sua nuca e inclinou a cabea at posar os lbios sobre os de Jane. Contigo no posso fazer o que me da vontade acrescentou, e a beijou, porque no parecia poder evit-lo.
       Os lbios do Jane eram quentes e doces, e uma quebra de onda instantnea de desejo se instalou em seu ventre. Sem outra coisa que a mo em sua nuca, e sua boca na dela, a luxria lhe atravessou como um raio.
       Separou-se dela com a inteno de afastar-se antes de fazer algo do que se arrependeria, mas ela o olhou fixamente nos olhos e umedeceu os lbios. Em lugar de voltar-se, tomou pela cintura com um de seus braos e a atraiu para si. Estava acostumado a mulheres mais altas, por isso teve que p-la nas pontas dos ps. Abriu a boca sobre a de Jane e a encheu com um mido e quente beijo. Apertou-a com mais fora enquanto as mos de Jane percorriam seus ombros e seu pescoo. A lngua de Luc se enroscou na dela enquanto ela enredava os dedos em seu cabelo. Deixou-lhe o cabelo me p. Ela afogou um gemido de desejo, frustrao e nsia como o que o tinha excitado no apartamento dela e o tinha levado a expor a possibilidade de fazer o amor ali mesmo.                
       Sob a tnue luz do estacionamento, lhe desabotoou o casaco, e depois introduziu as mos sob o pulver. Seu plano ventre estava quente, e ele deslizou a mo at os seios. No usava suti, e seus pequenos seios apenas lhe enchiam a mo. O mamilo ereto se cravou no centro da palma de sua mo como uma pequena framboesa. Luc notou que lhe endureciam os testculos e seus joelhos quase lhe fraquejaram. Afastou a boca e tomou ar. Fazia muito tempo que no se sentia to excitado, e teve que deter-se.
Luc sussurrou Jane, depois lhe agarrou a cabea e fez que suas bocas voltassem a unir-se. Percorreu seus ombros e o peito com as mos, e o beijou como o faria uma mulher que desejasse meter-se na cama imediatamente. Um beijo pleno, com a boca aberta. Ele acariciou seu mamilo com a palma da mo e ela lhe rodeou a cintura com a perna. Ele esfregou sua ereo contra o pbis de Jane. O calor de seus corpos quase lhe levou a perder a cabea. Apertou-se a ela e esqueceu a possibilidade de deter-se.
Aqui no disse Luc quando suas bocas se separaram. Nos prenderiam.  Acredite, sei do que falo. Respirou fundo e acrescentou: H um motel em Best Western ou um Ramada a poucos quilmetros daqui. Alugarei um quarto enquanto voc espera no carro.
       Como?
       Deus do cu, desejava-a. Queria tombar-se em cima dela e permanecer ali durante um bom momento.
Passaremos a noite fazendo o amor reps ele. E tambm meia manh. E quando pensar que j no pode mais, voltaremos a comear. Tinha passado tanto tempo da ltima vez que tinha querido fazer loucuras que logo no podia pensar em outra coisa que tirar as calas. Vou fazer maravilhas com voc.
       Ela no disse nada e ele a olhou nos olhos.
       Jane separou a perna de sua cintura e ps o p no cho.
       Em uma quarto de motel?
       Sim. Podemos ir no meu carro.
       No.
       Onde, ento?
       Ela o empurrou, afastando o de si.
       Em nenhum lugar.
E isso por que? Estou quente, e no tenho que pr a mo em seu ventre para saber que voc est mida.
Est-me tratando como a uma qualquer disse Jane entre dentes.
       Ele no tinha pensado nunca nela nesses trminos. Ou sim? No, no o tinha feito.
       Voc no gosta da palavra mida? Como o definiria?
De maneira nenhuma, e eu no transo. Eu fao amor. Transa  para piranhas.
Cristo bendito disse Luc, a quem lhe importa isso? Uma vez que pe,  o mesmo.
No, no o , e me importa. Ela seguiu empurrando-o. No sou uma dessas. Sou jornalista!
       Luc no entendia a quem estava tentando convencer, se a ele ou a si mesma.
        uma estreita lhe espetou girando sobre seus ps.
       Colocou uma de suas mos no bolso de sua jaqueta e apertou as chaves em seu punho at fazer dor. Arrependia-se de ter conhecido Jane. Arrependia-se de ter posado os olhos nela, e ainda se arrependia mais de que ela o excitasse at o ponto de beij-la e ter que retornar a casa frustrado... uma vez mais.
       Enquanto caminhava para seu carro, ouviu que entrava em marcha o Honda de Jane. Antes de que estivesse ao volante, ela se foi, deixando detrs de si o brilho das luzes vermelhas traseiras.
       Isso e a dor que Luc sentia sob ventre e o batimento do corao nas tmporas e a conscincia de que teria que voltar a v-la trs dias mais tarde.
Eu fao o amor, havia-lhe dito. A primeira vez que se viram, ele sups que ela era uma dessas mulheres antiquadas, uma dessas mulheres sempre levam anos sem ir-se  cama com um homem. E sua intuio tinha sido certa.
       Fazer o amor disse para si enquanto acendia o motor.
       Jane no queria fazer amor. Ou no tinha interpretado corretamente os sinais. Uma mulher que quer fazer o amor no beija como uma rainha do porn. Uma mulher que quer fazer o amor no toma seu tempo. No rodeia a cintura de um homem com a perna enquanto este a empurra contra uma parede de concreto.
       Saiu do estacionamento e se dirigiu a sua casa. Algum deveria ensinar a aquela dissimulada um par de coisas. Mas no ia ser ele. Jane Alcott era gua passada.
       Desta vez deixava claro.














11

Como enganar ao rival

       Trs dias depois do incidente no estacionamento, Jane estava sentada na cabine de imprensa do Key Arena, olhando para a pista.
A comida e a bebida aqui so grtis? perguntou-lhe Caroline.
H comida e bebida grtis na sala de imprensa. levou Caroline consigo para ter algum com quem falar. Algum que lhe ajudasse a manter a mente afastada dos problemas com os homens. Eu no vou at um pouco mais tarde.
       Caroline usava uma camiseta dos Chinooks muito justa e uns jeans igualmente justos. J tinha chamado a ateno do operador de vdeo do estdio e tinha sado trs vezes na enorme tela do marcador.
       Darby se reuniu com elas poucos minutos antes do espetculo prvio  partida. Usava o cabelo engomado e a capa de plstico para as canetas no bolso de sua camisa negra de seda. Jane apresentou-o Caroline, e ele abriu os olhos arregalados e ficou boquiaberto quando conheceu a formosa amiga de Jane. A esta no surpreendeu a reao de Darby, mas sim lhe surpreendeu que Caroline deixasse reluzir todo seu encanto e lhe desse corda.
       Comeou o espetculo prvio  partida e Jane soube que em quinze minutos teria que descer ao vestirio e desejar sorte aos jogadores. Teria que voltar a ver Luc, a quem no via desde que se beijaram no estacionamento e ela tinha perdido a noo. Felizmente, no ltimo minuto tinha recuperado o censo e no se foi com ele a um motel. Isso teria sido muito mau em todos os sentidos.
       No podia negar, entretanto, que tinha perdido a batalha com Luc. Estava atrada por ele, como se fosse um gigantesco m e ela uma parte de metal. E ao que parecia no podia fazer nada a respeito.
       Tinha passado a semana anterior viajando pelo pas, evitando-o na medida do possvel. Evitando o homem capaz de irrit-la e zang-la, e capaz de fazer tambm que se derretesse. Durante a maior parte do tempo tinha conseguido manter-se ocupada. Entrevistou Darby para a coluna Solteira na cidade, e escreveu um artigo sobre os meninos bons que acabavam colocando o gato na gua. Recomendava a suas leitoras que evitassem os tipos que fazem que pulse com fora o corao e o pensassem duas vezes antes de sair com os meninos bons. Citou Darby e lhe deu brilho a suas palavras e, em troca, supunha-se que ele falaria com os treinadores, pois continuavam sem quere-la por perto.
       Fez caso de seu prprio conselho e o levou a prtica com bastante eficcia, evitando o tipo que fazia pulsar com muita fora seu corao. Mas depois que ele a tinha apoiado contra aquela parede e a tinha beijado. Teria que ter se sentido surpreendida e atordoada, mas aproximar-se, com as plpebras entreabertas e um brilho de luxria em seus olhos azuis, tinha-a feito sentir dbil e excitada ao mesmo tempo. No momento em que seus lbios a roaram, sentiu que as foras a abandonavam e se deixou levar pelo que com tanto desespero desejava: Luc.
       Apesar de que seus sentimentos para ele eram pouco mais que um caos, no poderia ocultar por muito tempo a verdade. Desejava Luc. Desejava estar com ele, mas queria ser algo mais que outra mulher a que levar a um hotel.
       Algo mais que uma admiradora.
       Tinha-a chamado antiquada. No era uma antiquada absolutamente. No lhe importava que os homens utilizassem palavras fortes enquanto faziam  amor. Era a autora do Bombonzinho de Mel, pelo amor de Deus, mas tambm uma mulher decidida a conservar a dignidade, a lutar por ela. A lutar por no apaixonar-se como uma colegial de um tipo indesejvel.
       Se algum dia ele descobrisse que ela era Bombonzinho de Mel, Jane supunha que no teria que lutar nunca mais. O mais provvel  que no voltasse a lhe falar, que a odiasse inclusive.
       Depois de apresentar-se em sua habitao no hotel na semana anterior, em Denver, lhe dizendo que a tinha beijado por culpa daquele vestido vermelho, ela enviou o episdio que tinha escrito descrevendo um bonito goleiro de hquei de Seattle para o nmero de maro. Havia sentido tanta raiva, havia-se sentido to ferida, que apertou o boto de enviar e mandou o que tinha escrito pelo ciberespao.
       Se Luc topava com a coluna de maro e a lia, saberia que tinha sido a ltima vtima do Bombonzinho de Mel. Disse-se que deveria sentir-se adulado. Que possivelmente se sentisse adulado. Nem todos os homens dos Estados Unidos tinham a honra de entrar em coma nas mos do Bombonzinho de Mel. Mas, para falar a verdade, no acreditava que Luc fosse sentir se um privilegiado, e isso fazia que se sentisse um pouco culpada. Por desconto, no havia modo de que ele a relacionasse com a autora do Bombonzinho. Nunca saberia que era ela quem escrevia essas histrias. Mesmo assim se sentia culpado.
       Darby riu devido algo que Caroline lhe disse, tirando Jane de seus pensamentos. Por uns segundos Jane sopesou a possibilidade de lhe dizer a Darby que no era o tipo de menino que gostava sua amiga, que com toda probabilidade lhe daria um fora, mas Darby parecia muito feliz de sentir-se capturado pelo sorriso do Caroline. Em lugar de lhe advertir, Jane deixou que chegasse a sup-lo por sua conta. Colocou sua maleta perto de sua cadeira e se obrigou a ir para o elevador para descer ao andar inferior.
       Estudou a jaqueta cor azul marinho que usava posta sobre o pulver de pescoo de cisne branco. Abotoou a jaqueta para assegurar-se de que seus seios ficavam cobertos. Antes que Luc lhe dissesse que seus mamilos sempre estavam eretos, ela nunca parou a pens-lo. Nunca tinha emprestado muita ateno a seus seios. Eram to pequenos que sempre tinha dado por certo que ningum os tinha em alta conta.
       Ningum  exceo de Luc.
       Diminuiu a marcha  medida que se aproximava do vestirio, e se deteve ante a porta a escutar o inspirador discurso do treinador Nystrom. Quando terminou, elevou os ombros e entrou no vestirio. Evitou olhar para Luc, mas no precisava v-lo para saber que estava ali. Podia sentir seu olhar. E no lhe transmitia boas vibraes.
       Ol, Piralha - lhe disse Bruce.
Como vai, Fishy respondeu ela voltando-se para o resto da equipe. Ocupou seu lugar no centro da estadia e comeou com seu ritual.
Deixe as cuecas postas, tenho algo que lhes dizer e s tomar um minuto e no quero que sincronizem a baixada de sua cueca. Ou algo assim.Viajar com vocs, moos, foi uma experincia que jamais esquecerei. Espero que neste ano ganhem a liga. dirigiu-se para o capito, que nesses momentos estava vestindo a camiseta. Boa sorte com a partida, Assassino.
       Lhe deu um aperto de mos. Embora o corte de seu lbio sem dvida doesse, sorriu.
       Obrigado, Jane.
       De nada.
       Rob tinha se recuperado e poderia jogar essa noite, por isso Jane foi at sua bilheteria.
       Como se sente, Martelo?
De puta me. ficou em p e se elevou por cima do Jane com seus patins.  bom estar de volta.
Eu gosto de ver que  assim. voltou-se e caminhou para Luc. Estava sentado, umas quantos mechas loiras lhe caam pela fronte. Observou-a aproximar-se com expresso glida. Com cada passo, em Jane crescia o n que se formou em seu estmago. Quase preferia v-lo furioso. Deteve-se frente a ele e tomou flego.
       Pedao de tolo.
       Obrigado disse Luc com voz neutra.
De nada. Jane pensou que tinha que ir-se, mas no se pde mover---. Entrevistei  Dion na semana passada.
E o que? No lhe disseram que no me incomodasse antes das partidas?
       De acordo. Ao que parecia no se livrou de todos seus sentimentos. Obviamente, estava zangado. Bem. Zangado era melhor que indiferente.
Sim. E tambm me disse que tampouco te incomodasse depois das partidas.
       Ento, por que continua aqui?
       Tenho tudo preparado para sua entrevista.
       Pior para voc.
       Era o momento de mostrar-se dura com ele.
Fizemos um trato, Martineau. Se no o cumprir, no voltarei a lhe chamar pedao de tolo nunca mais. ficou em p e a olhou inclinando a cabea para baixo.
Vale. Amanh, quando voltar pra casa ao acompanhar Marie nas compras, traz o questionrio.                                 
       Ela sorriu.              
       Estupendo.
       Jane partiu antes que Luc mudasse de opinio. Quando retornou  cabine de imprensa, Darby e Caroline pareciam ocupados em um profundo bate-papo sobre o traje de Hermes que usava ele.
       Dirigiu-se a seu assento e retirou a maleta. Mexeu em seu interior e tirou a agenda e um bloco de notas adesivas. Entrevista com Luc, escreveu em uma delas e a pegou  pgina correspondente ao dia seguinte. Como se fosse esquecer.
       Durante o segundo perodo, Caroline se inclinou para ela e lhe sussurrou ao ouvido:
       Nunca tinha visto tanta testosterona junta.
       Jane sorriu.
       Os Chinooks perderam contra os Panters da Florida nos ltimos quatro segundos da partida, quando um dos jogadores contrrios lanou da linha azul. Luc ficou de joelhos, mas o disco lhe penetrou por debaixo. Voltou a cabea para o gol e lanou o stick contra o poste justo no mesmo momento que soava a buzina.
       Quando Jane voltou a entrar no vestirio, manteve a cabea alta e se aproximou de Vlad Fetisov e seu nariz torto. No sabia dizer o que era pior, se lhe olhar por cima dos ombros ou por debaixo da cintura.
       Enquanto interrogava Vlad sobre sua leso, deu um olhar disfarada a umas quantas bilheterias de distncia. Luc lhe dava as costas enquanto tirava os amparos at ficar completamente nu de cintura para acima. Baixou o olhar por suas costas at chegar a seu traseiro. Ele se voltou e nela se fez um n na garganta. Por cima de sua cueca apareceu, como se de um convite ao pecado se tratasse, a tatuagem da ferradura. No lhe coube a menor duvida de que estava atrada por ele. Fosse como fosse, aquele homem era um bombom. Recordou como tinha perdido a cabea quando ele a tocou. No tinha ficado com ningum desde Vinny, ao qual tinha despachado fazia coisa de um ano.
... So coisas do jogo acabou Vlad, e ela se alegrou de ter gravado sua resposta porque no tinha ouvido uma s palavra do que havia dito.
       Obrigado, Vlad.
       Talvez fosse o momento de encontrar algum. Algum que lhe ajudasse a tirar-se da cabea Luc e sua tatuagem.
       Na manh seguinte, uma nvoa cinzenta pendia sobre Seattle quando Jane passou para buscar Caroline e conduziu at o Bell Town. Devido  entrevista que tinha que fazer horas mais tarde com Luc, Jane tinha posto umas calas de l cinzas e uma blusa branca. Caroline usava umas calas de cor rosa e um body vermelho e rosa. Parecia estar preparada para ir  audio de um programa infantil com trinta e cinco anos de atraso. Em qualquer outra pessoa, aquele vesturio teria parecido totalmente inadequado, mas em Caroline, de algum modo, sentava-lhe bem.
       Buscarma Marie na porta do edifcio do Luc, bem a tempo para chegar ao cabeleireiro  hora indicada. Vonda lhe cortou o cabelo  altura da mandbula e a penteou. O corte era juvenil e vistoso, e fazia que Marie parecesse quatro anos mais velha.
       Depois disso, passaram pelas lojas Gap, Bebe e Hot Topic, onde Marie comprou um cinto de pele com tachinhas chapeadas e uma camisa Care Bear. Caroline comprou um novo aro para o umbigo e um esmalte de unhas cor de rosa. Jane comprou uma camiseta da Batgirl. Falaram de meninos e msica e das atrizes de Hollywood que estavam comeando a despontar. Em cada ocasio Marie pagou com o carto VISA de Luc.
       Na loja MAC do Nordstrom, a artista de maquiagem aplicou os cosmticos necessrios para destacar os grandes olhos azuis de Marie e realar sua suave cutis. Marie escolheu uma cor de batom vermelho intenso que ficava realmente bem, mas que lhe acrescentou outro idade. Jane no pde evitar perguntar-se o que pensaria Luc de que sua irm parecesse mais velha do que era. No demoraria para descobri-lo.
       No que a roupa se referia, Marie aceitou os conselhos do Caroline sem pigarrear. Caroline sabia conduzir s pessoas, evitando passos em falso, de um modo em que no se sentiam conduzidos, desse modo no lhes irritava que Caroline fosse alta e formosa e vestisse como uma supermodelo.
So pequenos para voc indicou a Marie quando esta escolheu uns jeans Calvin Klein. Os modistas desenham a roupa para garotas anorxicas ou jovenzinhos disse. Graas a Deus, no tem aspecto de menino. Acrescentou, lhe passando um nmero cinco.
Darby Hogue apareceu no departamento de calado enquanto Marie estava provando umas sandlias Steve Madden com um salto de oito centmetros.
Disse a Darby que lhe ajudaria a escolher um par de camisas disse Caroline, e se Jane no a tivesse conhecido como a conhecia, teria jurado que a sua amiga lhe tinham subido um pouco as cores. Mas isso era impossvel, porque os garotos ruivos do MENSA no eram o tipo do Caroline. Ela gostava de altos, morenos e sem capas de plstico para canetas no bolso da camisa.
       Caroline mostrou a Marie umas botas negras com umas grandes fivelas chapeadas aos lados.
Ficariam geniais com a saia de camuflagem e o cinto que compraste.
       Jane, por sua parte, pensou que as botas eram horrorosas, mas Marie exclamou, encantada:
       Massa!
       Jane entendeu aquilo como algo positivo. De novo, sentiu-se velha para ouvir falar com uma adolescente. Para rebater essa sensao, provou-se umas sandlias com um salto de cinco centmetros.
       Sentou-se junto a Darby para provar as sandlias
O que lhe parecem? perguntou-lhe levantando-a perna da cala do jeans e observando as sandlias de diferentes ngulos.
       Parecem sapatos de espantalho.
       Deu uma olhada ao Darby, embelezado com sua camisa favorita de seda com caveiras estampadas e suas calas de couro, e se perguntou de onde tinham sado essas palavras.
       Inclinou-se para ela e lhe disse ao ouvido.
       Necessito que fale bem de mim a Caroline.
       Nem sonhe. Ofendeste-me com o das sandlias.
       Se me conseguir um encontro com ela, comprarei-lhe isso.
       Quer me fazer de cupido?
       Supe-te algum problema?
       Jane olhou sua amiga, que estava ante o mostrador da loja Ralph Lauren estudando um par de prendedores para o cabelo.
       OH, sim disse Caroline.
       Dois pares de sapatos.
Esquea. Jane tirou as sandlias e as colocou outra vez na caixa. Mas vou te dar alguns de conselhos: deixas de usar camisa de caveiras e no fale do MENSA.
       Diz-o a srio?
       Totalmente.
       Quando acabaram na seo de sapataria, ela e Marie subiram pelas escadas rolantes  seo de lingerie, e Caroline e Darby se dirigiram  seo de roupa masculina.
       Jane e Marie foram carregadas de bolsas olhando os  sutis.
O que lhe parecem? perguntou-lhe Marie lhe mostrando um suti de renda cor lavanda.
        bonito.
Mas aposto o que no  nada cmodo. Inclinou a cabea para um lado. No te parece?
Sinto muito, mas no sei se poderei te ajudar. Nunca uso suti.
       Por que?
Bom, como pode apreciar, no  que o necessite muito. Sempre usei tops... ou nada.
       Minha me me teria matado se s tivesse usado tops.
       Jane encolheu de ombros.
Sim, bem, quando cresci, meu pai no gostava de falar de coisas de garotas. Acredito que durante alguns anos se limitou a fingir que eu era um menino.
       Marie a olhou por cima da etiqueta do preo.
       Continua sentindo falta da sua me?
Todo o tempo, mas j o superei. Entretanto, aconselho-te que guarde todas as boas lembranas que tenha de sua me antes que adoecesse. No pense nas coisas ms.
       Do que morreu sua me?
       Cncer de mama.
       OH.
       Olharam-se por cima de um mostrador com brilhantes sutis. Os grandes olhos azuis de Marie se cravaram nos de Jane, e nenhuma das duas fez comentrio algum sobre quo doloroso era ver morrer desse modo algum que se ama. Conheciam a experincia.
       Era mais jovem que eu, verdade? perguntou Marie.
Tinha seis anos, e minha me esteve doente muito tempo antes de morrer.
       Tinha trinta e um anos. Um mais que Jane naquele momento.
Eu conservo algumas flores do enterro de minha me disse Marie. Se secaram, mas de algum modo me fazem sentir que continuo conectada a ela. Baixou a vista. Luc no o entende. Acredita que deveria as atirar.
       Contaste-lhe por que as conserva?          
       No.
       Deveria faz-lo.
       Encolheu de ombros e desprendeu do mostrador um suti vermelho.
Eu tenho o anel de compromisso de minha me confessou Jane. Meu pai lhe deixou o anel de matrimnio, mas ficou com o de compromisso; eu estava acostumada a lev-lo pendurado no pescoo com uma corrente. No havia tornado a falar desse anel, nem do que significava para ela, fazia anos. Caroline no o entendia, j que sua me fugiu com um caminhoneiro. Mas Marie, sim.
       Onde o tem agora?
Na gaveta de minha roupa intima. Deixei de usa-lo alguns anos depois de sua morte. Suponho que voc tambm te desfar das flores quando tiver passado o tempo adequado para ti.
       Marie assentiu com a cabea e escolheu um suti branco com enchimento.
       Olhe este.
Parece resistente. Jane tambm tirou um do mostrador e apertou o enchimento. Era forte e se perguntou o que pensaria Luc respeito a que sua irm pequena usasse um suti com enchimento. Perguntou-se tambm o que pensaria se ela usasse um. Talvez Luc no goste que compres um suti como este.
Que seja, d no mesmo. Provavelmente nem sequer se d conta disse pegando quatro sutis e metendo-se em um provador. Enquanto esperava, Jane agarrou todas as bolsas e se aproximou da seo de calcinhas.
       Talvez no soubesse muito de sutis, mas era uma perita em calcinhas. Gostava das tangas. Ao princpio, odiava-as, mas depois comeou a sentir devoo por elas. No tinhas que subi-las como as calcinhas convencionais pois..., bem, sempre estavam  em cima. Enquanto esperava, comprou seis pares de tangas de algodo e lycra com seus respectivos tops.
       Uma vez tendo sado do provador, Marie deixou um monto de calcinhas e trs sutis no mostrador. O telefone mvel comeou a soar em sua bolsa e ela respondeu.
Ol disse. Humm... Sim, acredito que sim. Olhou Jane. O perguntarei. Luc quer saber se tem fome.
Luc?
       Por que?
       Marie encolheu de ombros.           
Por que? perguntou Marie a Luc. Deu a despesa do carto de crdito de seu irmo, depois se voltou para Jane.  seu dia de cozinha. Diz que est cozinhando e que, como vais vir a lhe entrevistar, tambm preparar comida para voc.
       Duas coisas acudiram imediatamente  mente do Jane. A imagem de Luc cozinhando e o que j no se sentia zangada com ele.
       Diga-lhe que tenho muita fome.

12

Golpear com fora

Parece-me estranho no ter jardim disse Marie, falando a respeito das diferenas de sua vida agora que vivia no edifcio Bell Town com Luc. E j no tenho que ir  lavanderia acrescentou ao tempo que saa do elevador no dcimo nono. Isso est muito bem.
       Luc lava a roupa?
       Marie riu.
No. Percorreram o corredor at a ltima porta  esquerda. Vm busca-la e depois nos trazem limpa e engomada.
       Tambm a roupa intima?
       Sim.
No sei se eu gostaria que algum tocasse minhas calcinhas disse Jane enquanto Marie abria a porta. Ao menos, nenhum estranho, pensou ao entrar no piso, detendo-se imediatamente. A viso da espetacular vista fez que Jane se detivesse e deixasse de pensar em pessoas estranhas tocando suas tangas. A janela ia do cho ao teto e ocupava toda uma parede. Alm dos telhados dos edifcios, podia ver os navios que percorriam a baa Elliot. Na sala havia um sof azul escuro, cadeiras e um par de mesinhas de ao e cristal. A habitao no tinha arestas e havia grandes plantas dentro de vasos de ao inoxidvel. A sua esquerda, os Devils jogando contra Long Island em uma grande tela de televiso, enquanto Dave Mathews soava no aparelho se som.
       Luc estava na cozinha aberta, separada do salo por uma coluna de granito. Os armrios que havia atrs dele tinham as portas de cristal com puxadores cromados. Os 	eletrodomsticos, de ao inoxidvel, eram de linhas modernas. Luc apertou um boto de controle remoto e a msica cessou. Sorriu e se formaram umas pequenas rugas nas linhas de seus olhos.
       Est muito bonita, Marie.
       Marie deixou suas bolsas no cho e estendeu o casaco sobre o sof. Ficou a dar voltas ao redor de seu irmo e disse:
       Tenho o aspecto de uma garota de vinte e um anos.
No tantos. Luc se voltou sorrindo para Jane e, de novo, esta sentiu seu magnetismo, atraindo-a com uma fora superior a todos seus receios. Gosta de uma cerveja?
No, obrigado respondeu Jane. No bebo cerveja. Deixou a maleta e o casaco sobre o sof.
       Alguma outra coisa?
       Um pouco de gua estaria bem.
       Eu tomarei a cerveja de Jane disse Marie com inocncia.
Assim que faa vinte e um reps Luc enquanto tirava uma garrafa de gua da geladeira de ao inoxidvel.
Aposto o que queira que bebia lcool antes dos vinte e um disse Marie.
Claro, e olhe no que me converti. Luc fechou a porta com o p e apontou para Jane com a garrafa. E voc no diga nada.
No pensava faz-lo. Jane caminhou pela sala e se deteve entre dois tamboretes de pele cinza com os ps de alumnio.
Muito bem. Luc ps um par de cubos de gelo em um copo e verteu gua da garrafa. Subiu as mangas do pulver cor creme, e a camiseta branca aparecia pelo pescoo. Usava seu Rolex de ouro e umas calas cor verde oliva. Porque disponho de uma suculenta informao com a que poderia te chantagear.
       Sabia que ela se excitou muitssimo quando a tinha beijado e que no gostava de usar suti.
       Pois no conhece a informao verdadeiramente suculenta.
       Verdadeiramente suculenta? perguntou ele com um sorriso.
       Era informao que lhe teria deixado a quadros, mas rezava a Deus para que nunca chegasse a imagin-lo. Nunca saberia que ela era Bombonzinho de Mel.
Que informao? perguntou Marie sentando-se ao lado do Jane.
       Que perteno a um grupo de motoqueirosrespondeu Jane.
       Luc arqueou uma sobrancelha com expresso de incredulidade e deixou o copo na mesa.
       Bom, pertenci -particularizou Jane.
       E eu apontou Marie. Ainda conservo todos minhas bonecas.
       Eu nunca fui Boy Scout -interveio Luc.
       Marie ps os olhos em branco.
       V.
       Luc olhou a sua irm como se pensasse e lhe dizer algo, mas no ltimo segundo decidiu no faz-lo. Voltou a colocar a gua na geladeira e deixou uma bandeja de peitos de frango marinhados na mesa.
       Posso te ajudar em algo? perguntou Jane.
       Depois de abrir uma gaveta, Luc tirou um garfo e mexeu nos peitos.
       Voc sente-se e relaxe.
       Eu ajudareise ofereceu sua irm descendo do tamborete.
       Ele elevou a vista e dirigiu a Marie um olhar clido, Jane sentiu que o corao lhe pulsava de um modo que pouco tinha que ver com o desejo que sentia por Luc e sim com o fato de apreciar o lado carinhoso e amvel do Luc Martineau.
       Isso estaria bom. Obrigado. Joga a massa na gua fervendo.
       Marie rodeou o balco e foi at onde se encontrava Luc, junto  cozinha. Tirou uma caixa vermelha de um dos armrios e depois o medidor de gua.
Dois copos de gua leu em voz alta. E uma colher de manteiga.
Quando Marie era pequena disse Luc quando ela se voltou-, dizia nibus em lugar de gua.
Como sabe? perguntou Marie enquanto calculava a quantidade de gua.
Lhe ouvi dizer isso uma vez que fui de visita quando meu pai ainda vivia. Devia ter uns dois anos.
       Era muito bonita pequenina.
       No tinha cabelo.
       Marie verteu a gua em uma panela.
       ---E o que?
       Luc elevou a mo e revolveu o cabelo de sua irm.
Parecia um menino.                                                                    
Luc! Marie deixou a panela sobre o fogo e se penteou com a mo,
       Luc soltou uma gargalhada.
       Foi uma menina muito bonita.
Bom, isso est melhor. Marie se voltou e acrescentou a manteiga--- Est ciumento porque voc parecia um Teletubby.
       O que  um Teletubby?
OH, Meu deus! No sabe o que  um Teletubby? Marie meneou a cabea, sobressaltada ante a ignorncia de seu irmo.
No. Luc franziu o cenho ao tempo que se voltava para o Jane. Voc sabe?
Por desgraa, sim.  um programa de televiso para meninos. Eu s o vi uma vez, e pelo que pude comprovar, os Teletubbies se limitam a dar voltas pela Teletubbylandia balbuciando.
       E tm uma tela na barriga disse Marie.
       Luc abriu a boca, surpreso; parecia como se lhe tivesse sobrevindo uma repentina dor de cabea s de imagin-lo.
       Est brincando?
No. Jane negou com a cabea. E, em minha defesa, tenho que dizer que sei quem som porque faz uns anos Jerry Falwell alertou aos pais de que na Teletubbylandia havia uma mensagem homossexual encoberta. Ao parecer, Tinky Winky  de cor violeta e leva uma bolsa rosa.
Tinky Winky? -Luc se voltou muito devagar para sua irm. Deus do cu. E fala de mim porque eu gosto de olhar as partidas de hquei.
No  o mesmo. Que voc olhe partidas de hquei  como se eu olhasse classes de colgio  pela televiso.
       No deixava de ter razo.
       Luc, pelo visto, tambm apreciava a lgica de sua afirmao, pois encolheu de ombros.
No posso acreditar que veja coisas como esses Telebellies disse, mas ao mesmo tempo agarrou o controle e apagou a televiso.
Teletubbies o corrigiu Marie. Quando vou  casa da Hanna pe as fitas de vdeo para seu irmozinho de dois anos. Ele fica hipnotizado e assim podemos pintar as unhas.
       Hanna?
       A garota que vive no terceiro. J te falei que ela.
Ah, sim. Tinha esquecido seu nome. Uma vez que Luc tirou as verduras fumegantes, voltou-se para os foges e ps a esquentar o frango.
       Precisamente, vou ao cinema com ela depois de comer.
       Quer que lhes leve? 
       No.
       Luc tinha uma graa inata para tudo o que fazia, fosse deter um disparo a porta ou mexer os peitos de frango no fogo. Seus movimentos eram to harmoniosos que observ-lo era fascinante. Quase tanto como ver o modo que seu traseiro enchia as calas. O pulver lhe chegava justo por debaixo da cintura e justo por cima da etiqueta dos bolsos traseiros.
       Jane ouviu Luc falar com a sua irm a respeito do que tinham estado fazendo, tudo o que ela tinha comprado e seus planos para mais tarde. Jane sabia, graas s conversaes que tinha mantido com Luc, que este no acreditava que estivesse fazendo um bom trabalho com Marie. Ao v-los juntos, Jane no estava to segura de que em efeito fosse assim. Pareciam dar-se muito bem. Eram uma famlia. Possivelmente no a famlia ideal, mas famlia ao fim e ao cabo. Ali estavam, na cozinha, preparando a comida, tentando incluir Jane, mas mesmo assim um pouco distantes. Marie com aqueles justos jeans que usava quando Jane passou a procur-la pela manh, e Luc com aquelas calas que ficavam como uma luva.
       Luc moveu o frango e Marie lhe falou dos diferentes desenhistas dos quais Caroline lhe tinha falado.
Espero que, finalmente, compre-te uns que cubram e que no fiquem to justos disse enquanto se ocupava das verduras.
       Marie lhe olhou por cima do ombro, seus olhos azuis tinham um leve toque estrbico.
       Talvez se Luc se precavesse da careta de sua irm, teria se dado conta que Marie levava a srio suas palavras e no teria acrescentado:
Essas calas so to justas que  um milagre que as costuras no tenham arrebentado.
       OH, OH.
Que simptico! Eu no te digo se as calas esto muito apertadas.
Isso  porque no so justas. Eu no gosto que me apertem o traseiro. Finalmente, Luc olhou pra sua irm. O que  o que te incomoda tanto?
       Marie abriu a boca, mas Jane falou por ela.
Marie comprou algumas roupas muito bonitas que ficam estupendamente. Bem, exceto aquele cinto com tachinhas. Caroline a ajudou escolher. Eu no entendo muito bem disso de moda e de cores. Por isso me visto sempre de negro.
       Luc se voltou para ela e apoiou o traseiro na mesa. 
       Pensava que se isso devia a Rainha dos Condenados.
       Ela o olhou nos olhos e franziu o cenho.
No, menino mau disse voltando a centrar a ateno em Marie. Na prxima vez que irei depilar-me  cera, voc vir comigo. Antes me depilava com barbeador eltrico, mas agora passei  cera. Di como um demnio, asseguro-lhe isso, mas vale a pena.
De acordo. Marie sorriu a seu irmo. Poderei levar um de seus cartes, Luc?
No, maldita seja. Cruzou os ps e os braos. Compraria oito quilogramas de quinquilharias e algum desses horrveis discos do Britney Spears.
       Marie voltava a estar radiante.
Isso s passou uma vez, e no foram oito quilogramas. E no comprei nenhum disco horrvel.
Dois. Todo esse acar  mau para voc, e escutar Britney Spears deixa qualquer um estpido. A tenso se apalpava no ambiente, embora Luc parecia no dar-se conta. Ou isso, ou era muito hbil para pass-lo por alto. Voltou-se para dar uma olhada  comida. Um dia, se ainda conservar todos seus dentes e seu crebro no se for feito de fosfatina por culpa de Britney, me agradecer.
       Pela cara que fez Marie, esse dia ia demorar uma eternidade em chegar.
       Quando se sentaram  mesa para comer, Marie tinha emudecido. Apesar de ter sido tambm uma adolescente, Jane no tinha tido irmo algum que lhe dissesse que estava muito apertada a cala ou que a msica que escutava era uma porcaria. S tinha disposto de um pai que estava acostumado a tirar a humilh-la simplesmente por ser uma mulher.
       Luc se sentou em um canto da mesa, e Jane e Marie aos lados. Havia posto copos de leite junto aos trs pratos, apesar de que Jane havia dito a Luc que no bebia leite. Ningum lhe tinha servido leite na hora da comida desde que estudava na escola primria, pensou enquanto colocava seu guardanapo no colo. Muitos homens tinham tentado que bebesse lcool, mas nenhum que bebesse leite.
       Luc no s tinha engenhado para conseguir, como o que havia cozinhado tinha boa aparncia, mas tambm bom sabor. Assim existia um tipo de aparncia to agradvel para comer e capaz de cozinhar bem? Se no fosse por sua coleo de Barbies, e por lhe obrigar a beber leite, teria sido muito bom para ser verdade.
       O frango est genial disse Jane.
       Obrigado. O segredo est no suco de laranja.
       Voc quem fez o molho?
       Claro, o segredo...
Sabem de uma coisa? interrompeu-o Marie. Os golfinhos so os nicos mamferos, alm dos humanos, que fazem o amor por prazer.
       Luc franziu o cenho e olhou pra sua irm. Marie estava tentando incomod-lo de propsito, e Jane queria ouvir sua resposta, para comprovar se tinha irritado-se e reagia como ela desejava que o fizesse.
       Onde ouviste isso? perguntou-lhe.
Me disse a professora de biologia. E um menino que tinha ido a Disney World, e que tinha nadado com os golfinhos, disse que realmente estavam muito brincalhes.
No recordo ter ouvido nada de golfinhos brincalhes quando ia ao colgio. Limitvamos a dissecar rs disse Luc. Voltou-se para Jane e acrescentou: Me sinto extorquido. E voc, Jane? Teve que aprender algo sobre golfinhos brincalhes?
       Jane negou com a cabea e tentou no sorrir.
No, mas no Discovery Channel vi uma reportagem na qual afirmavam ter encontrado macacos homossexuais na frica. Assim, sem dvida, algumas espcies de macacos tambm se enrolam por prazer.
       Luc arqueou as sobrancelhas.
       Macacos homossexuais? Como os descobriram?
       Jane riu meneando a cabea.
       Ele tambm sorriu e lhe formaram umas pequenas rugas nos cantos dos olhos.
       Usavam culos de armao negra e pijamas com vaquinhas?
       No comece outra vez.
       Do que falam? quis saber Marie.
Acredita que meus culos so horrorosos reps Jane com um sorriso.
       E seus pijamas.
       Como sabe que pijamas usa?
       Luc olhou pra sua irm.
Pilhei-a no corredor do hotel de Phoenix com o mais espantoso pijama de vaquinhas que possa imaginar.   
       ---Queria um pouco de chocolate explicou Jane. Acreditava que todos os jogadores j estavam em seus quartos.
Luc no sabe o que significa necessitar chocolate. Marie revirou os olhos. S come coisas saudveis.
Meu corpo  um templo disse ele antes cravar o garfo em uma boa parte de couve-flor.
E qualquer mulher com as pernas longas e um bom par de meles merece que o adorem apontou Jane, arrependendo-se imediatamente.
       Marie se ps-se a rir.
       Luc sorriu.
       Jane trocou de tema antes que ele pudesse fazer algum comentrio.
       Quem  a senhora Jackson?
A velha que fica comigo quando Luc est de viagem respondeu Marie.
Glorifica Jackson  uma professora retirada esclareceu Luc, uma mulher muito agradvel.
        velha. disse Marie. Tambm come muito devagar.
       A o tem, essa sim que  uma boa razo para odi-la.
No odeio Glria. O que passa  que acredito que no necessito de uma canguru.
       Luc soltou um suspiro de exasperao, como se tivessem falado desse tema com antecedncia, o que de fato tinha ocorrido vrias vezes. Agarrou seu copo de leite e bebeu um bom gole. Quando voltou a deix-lo sobre a mesa, apareceu sobre seu lbio um bigode branco que ele no demorou em limpar com a lngua.
       Por que no bebe o leite? perguntou a Jane.
       J te disse que eu no gosto de leite.
       Sei, mas necessita de clcio.  bom para os ossos.
       No me diga que est preocupado por meus ossos...
Preocupado, no. Luc esboou um atrativo sorriso. S sinto curiosidade.
       Suas palavras, assim como aquele olhar, meteram-se dentro de Jane, esquentando pontos de seu corpo que era melhor deixar esfriar.
Ser melhor que o bebas, Jane lhe advertiu Marie, mantendo-se  margem das insinuaes sexuais que estavam intercambiando entre os adultos. Luc sempre consegue o que quer.
Sempre? perguntou Jane.                              
       No. Luc negou com a cabea. No sempre.    
       A maioria das vezes insistiu Marie.
Eu no gosto de perder. Luc deslizou o olhar at a boca de Jane. Quero conseguir tudo o que me proponho.
       Jane olhou para Marie, que estava ocupada tentando pegar uma parte do brcolis.
       Custe o que custar? perguntou, e voltou a olhar pra Luc.
       Sem dvida.
       E o que tem que a sutileza?
Depende das probabilidades. Luc a olhou nos olhos. s vezes me vejo obrigado a jogar sujo.
       Obrigado?
       Luc esboou um sorriso malicioso.
       s vezes eu gosto de jogar sujo.
       Sim, Jane sabia algo disso. Tinha-lhe visto golpear com o stick e travar os patins dos adversrios e lanar mo de sua fora na portaria. Mas sabia que no estava falando de hquei.
       Marie irrompeu a conversao trocando de tema.
       Quando poderei tirar a carta de conduzir?
       Os dois adultos a olharam, ento Luc se recostou em sua cadeira e Jane recuperou em parte a serenidade.
       No  o bastante adulta.
       Sim o sou. Tenho dezesseis anos.
       Quando tiver dezoito.
No, Luc. Marie bebeu um gole de leite e deixou o copo sobre o prato vazio. Quero um Volkswagen New Beetle. Posso compr-lo com meu dinheiro.
No poder dispor de seu dinheiro at que cumpra vinte e um.
Trabalharei disse Marie, recolhendo seu prato e seus talheres e levando-os a cozinha.
       Hoje  um desses dias resmungou Luc.
Est zangada porque lhe disse que os jeans esto muito justos.
        que  assim.
       Jane agarrou o guardanapo e o deixou sobre a mesa.
No acredito que esse seja seu problema. Caroline lhe aconselhou que comprasse esse tipo de roupa.
Foi muito amvel de sua parte, e da de seu amiga, passar o sbado em compras com minha irm disse Luc enquanto ambos observavam Marie sair da Cozinha e percorrer o corredor a caminho de sua habitao No posso imaginar nada pior. Deslizou sua mo para baixo da de Jane e estudo seus dedos.
Caroline se encarregou de tudo. Sua mo parecia pequena e plida junto  clida mo de Luc, e de repente sentiu uma opresso no peito. Eu no tenho nem idia de como combinar as cores, por isso quase sempre me visto de negro.
E s vezes de vermelho disse Luc. Muito devagar, percorreu com o olhar o pulso de Jane, o brao e o ombro at chegar  boca uma vez mais. Inclinou-se para ela, e com voz grave acrescentou: Fica muito bem de vermelho. Mas acredito que j falamos em uma ocasio desse pequeno teu vestido.
Que te hipnotizou e te obrigou a me beijar? perguntou ela, que de repente sentiu um n no estmago.
Cheguei  concluso de que no foi o vestido, a no ser a mulher que ia dentro dele. Acariciou-lhe a mo com o polegar. Tem uma pele muito suave.
       Jane posou a mo livre sobre o estmago, pois sentia um poderoso comicho nessa zona de seu corpo.
       Sou uma garota.
J me dei conta. Inclusive quando no quis me dar conta. Em todo momento sou consciente de sua presena, Jane, seja quando est sentada na parte traseira do avio ou do nibus, ou ao entrar no vestirio depois da partida, disposta a enfrentar um punhado de tipos que so o dobro mais altos que voc...
Provavelmente porque sou a nica mulher entre trinta homens disse ela com um sorriso nervoso. Resulta difcil no fixar-se.
Talvez fosse assim ao princpio. Ele contemplou seu cabelo e seu rosto. Olhava ao redor e te via, e me surpreendia uma e outra vez, porque se supunha que no tinha que estar ali. Baixou a vista. Agora te busco.
       Embora aquelas palavras lhe fizessem pulsar com fora o corao, a Jane custava levar a srio.
       Acreditava que no queria que viajasse com a equipe.
 certo. Luc ficou em p e comeou a recolher os pratos e os talheres. E continuo sem quer-lo.
       Jane recolheu os copos e o seguiu  cozinha.
Por que? Eu disse que no estava interessada nas intrigas que contava o livro. E no o estava. Bombonzinho de Mel era uma fantasia ertica. Sua fantasia ertica.
       Luc deixou tudo na pia e, em lugar de responder, esvaziou de um gole o copo de leite de Jane.
       Por que no quer que viaje com a equipe? perguntou Jane.
       Luc cravou nela seus olhos azuis enquanto limpava com a lngua os restos de leite que tinha ficado no lbio. Jane sentia que sua resposta era muito importante. Para ela. Porque, embora desejava que no ocorresse, e apesar do muito que se esforava por evit-lo, estava se apaixonando por Luc. Quanto mais resistia, mais empurrava a fora do amor.
       J vou anunciou Marie entrando na cozinha.
       Por uns segundos Luc continuou olhando fixamente para Jane antes de voltar a cabea para sua irm.
Necessita de dinheiro? perguntou-lhe deixando o copo na pia.
Tenho vinte dlares. Acredito que ser suficiente. Marie encolheu de ombros e afastou o cabelo do pescoo. Talvez passe a noite na casa da Hanna. Embora tenha que perguntar a sua me.
Farei-o. Marie fechou o zper da jaqueta e se despediu de Jane. Enquanto esta olhava Luc caminhar junto a sua irm para a porta, sua vista se posou na maleta e recordou por que tinha ido ao apartamento de Luc. Talvez se sentissem atrados um pelo outro, mas eram profissionais e ela tinha trabalho que fazer. Sabia que no era seu tipo de mulher, e, alm disso, no queria apaixonar-se por um homem que poderia lhe partir o corao como quem parte um pedao de po.
       Foi para o sof da sala de estar. Abriu a maleta e tirou um bloco de papel de notas e seu gravador. Jane no desejava que lhe partissem o corao. No queria apaixonar-se por Luc Martineau, mas cada pulsar de seu corao lhe dizia que j era muito tarde para voltar atrs.
       Quando ele fechou a porta uma vez que Marie tinha sado, Jane o olhou.
       Preparado para a luta? perguntou.
        a hora?
       Sim. Jane tirou uma caneta de sua maleta.
       Foi para ela, cobrindo com um par de pernadas a distncia que os separava. O que havia em sua maneira de caminhar para ela, em sua maneira de olh-la com aqueles formosos olhos azuis, que a fundia de cima abaixo como se fosse de manteiga?
       Onde quer que o faamos? perguntou.
Bom, essa  a questo respondeu ele com um sorriso clido e sexy.






13

Trs gols em uma s partida

       - Vai me atacar sexualmente?
       Luc cruzou os braos e a olhou nos olhos.
       Seria um problema para voc?
       Sim. Estou aqui para te entrevistar para o Times.
       Maldio, pensou Luc. Tinha os ombros erguidos, seu olhar era direto, estava concentrada por completo. Isso no era nada bom. Queria atac-la.
       Sente-se.
       Fazia muito tempo que Luc no via uma mulher em sua prpria casa alm de Glorifica Jackson. Desde que Marie foi viver com ele.
       Horas antes, quando chegou Jane e estiveram no salo, tinha-lhe pareciso estranho v-la, rodeada de suas coisas. Como lhe aconteceu pouco depois de conhec-la, quando olhava ao redor e a via sentada no avio em que viajava a equipe ou no nibus, parecia-lhe desconjurado. Esta vez, entretanto, encaixava com perfeio com o entorno. Como se sempre tivesse estado a.
       Luc se sentou em um canto do sof e Jane se sentou no meio. Vrios cachos lhe caam pelas tmporas e pelas bochechas enquanto olhava o bloco de papel de notas e o gravador que tinha no colo. Vestia calas negras e blusa branca, e Luc sabia que sua pele era to suave como parecia.
H algum aspecto de seu passado de que queira falar? perguntou Jane, mantendo a cabea inclinada sobre o bloco de papel de notas enquanto o fazia.
       No.
       - Escreveram muito sobre voc. No quer desfazer-se de nada?
       Quanto menos diga sobre o passado, melhor.
O que  o que mais lhe incomoda do que se escreve sobre voc? As verdades? O olhou de esguelha. Ou as invenes?
       Nunca ningum tinha feito essa pergunta, e pensou a resposta durante um segundo.
Provavelmente o que no  certo.                                 
Embora seja adulador?                                            
       A que te refere?
Bom, no sei. Jane respirou fundo. As mulheres. As noites inteiras de sexo.
Estava um pouco decepcionado pela forma na qual Jane levava a entrevista. Como no tinha posto em marcha o gravador, disse:
Nunca houve noites inteiras de sexo. Se permaneci alguma noite acordado foi porque estava preocupado.
       Ela baixou o olhar de novo e mordeu o lbio inferior.
A maioria dos homens se sentiriam adulados se falassem deles como atletas do sexo.
       Luc pensou que devia confiar nela, ou no lhe haveria dito o que acabava de lhe dizer. E tampouco o que ia acrescentar:
Se passava toda a noite preocupado, no era pelo sexo. No sei entende o que quero dizer.
No eram aduladores para voc todos esses comentrios sobre o sexo e as mulheres?
       Luc sups que fazia aquela pergunta porque era um pouco dissimulada e se sentia intrigada por essa classe de coisas.
Na realidade, no. Estou tentando refazer minha carreira e toda essa merda turva o verdadeiramente importante.
OH. Jane ps em marcha o gravador. No ranking dos cinqenta melhores jogadores desta temporada elaborada pelo Hocke News, ocupa o sexto posto, o segundo entre os goleiros disse trocando de tema. O ano passado no apareceu na lista. O que acha que contribuiu para essa brilhante melhora em relao  temporada passada?
       Devia estar brincando.
       No melhorei nada. O ano passado voltei a jogar.
Disseram muitas coisas este ano a respeito de sua recuperao. Parecia tensa, como se estivesse nervosa, o que no deixava de ser surpreendente. Luc no acreditava que houvesse muitas coisas capazes de p-la nervosa. Qual foi o maior obstculo que tiveste que superar? perguntou.
       Conseguir que me dessem outra oportunidade para jogar.
       Como esto seus joelhos?
Aos cem por cento mentiu ele. Seus joelhos nunca voltariam a estar como antes da leso. Enquanto seguisse jogando teria que conviver com a dor e a preocupao.
Tenho lido que quando comeou a jogar na liga infantil no Edmonton o fazia de central. O que o levou a se converter em goleiro?
       Aparentemente, sua investigao tinha ido alm de sua vida sexual. Por alguma estranha razo, isso no o irritou como estava acostumado a lhe irritar.
Joguei de central dos cinco anos at os doze. O goleiro de nossa equipe deixou a meia temporada e o treinador olhou a todos e disse: Luc, ponha-se entre os paus.  o goleiro.
       Ela riu, aparentemente mais relaxada.
       Srio? No nasceu com o fervente desejo de parar tudo?
       Luc gostava de sua risada. Era sincera, e fazia que seus olhos verdes brilhassem.
       No, mas logo me transformei em um bom goleiro.
       Ela anotou algo no bloco de papel de notas.
Alguma vez teve a tentao de voltar para sua posio original?
       Ele negou com a cabea.                                                                   
 Assim que me pus entre os paus, j no quis sair dali. Nunca me passou isso sequer.
       Ela voltou a lhe olhar.
       Percebe conta de que s vezes tem um forte acento francs?
       Ainda? Trabalhei muito para evit-lo.
       No o faa. Eu gosto.
       E ele gostava dela. Queria dar respostas inteligentes, mas ao olh-la, com seu brilhante cabelo e seus lbios rosados, de repente no lhe importou mostrar-se inteligente.
       Ento, suponho que no seguirei trabalhando nisso...
       Jane sorriu, e voltou a centrar sua ateno no bloco de papel de notas.
Algumas pessoas dizem que os goleiros so diferentes do resto de jogadores, que so totalmente diferentes. Est de acordo?
Certamente  verdade, at certo ponto. Luc apoiou as costas no sof e estirou os braos sobre o respaldo. Jogamos uma partida diferente de que jogam outros jogadores. O hquei  um esporte de equipe, exceto para os goleiros. Um goleiro sempre joga, por diz-lo de algum modo, um contra um. Se se equivocar, prejudicam-se todos.
No se disparam os flashs nem grita a multido quando defende um gol, no  isso?
       Exato.
       Quanto te custa superar uma derrota?
Isso depende do tipo de derrota. Estudo a gravao da partida e tento compreender como poderia fazer melhor na prxima e, pelo geral, no dia seguinte j o superei.
       Quais so seus rituais anteriores s partidas?
       Permaneceu em silncio at que, finalmente, ela voltou a cabea para ele, ento perguntou:
       Alm de que me chame pedao de tolo?     
       No vou publicar isso.
       Hipcrita.                                        
       Ela encolheu de ombros.     
       Confia em mim.
       Havia umas quantas coisas que podia imaginar-se em relao com ela, mas confiar no era uma delas.      
A noite anterior ao dia da partida como um monto de protenas e ferro.
O goleiro retirado Glenn Hall disse em uma ocasio que odiava todos os minutos que tinha jogado. O que te parece semelhante opinio?
Interessante pergunta, pensou ele enquanto jogava para trs a cabea e estudava Jane. O que lhe parecia? s vezes jogar tanto lhe desagradava, em efeito. Outras, entretanto, eram melhores que o sexo.
Na quadra minha concentrao  total e sou muito competitivo. No h nada melhor para mim que estar entre os trs paus, detendo disparos. Sim, eu adoro o que fao.
       Ela anotou algo no bloco de papel de notas, depois passou a pgina. Elevou a caneta e a levou at seus lbios, atraindo a ateno de Luc para sua boca.
       Havia algo em Jane que lhe intrigava mais do que o tinha feito qualquer outra mulher. Algo mais que as contradies existentes entre a dissimulada e a mulher que lhe tinha beijado como o faria uma rainha do porn.
       Algo que o fazia desejar acariciar seus brilhantes cachos e lhe agarrar rosto entre as mos. Luc tinha estado com muitas mulheres formosas em sua vida, mulheres fisicamente perfeitas, mas sempre tinha podido controlar seu desejo. Com Jane era diferente. A mida Jane, com seu escasso peito, sua cabeleira selvagem e aqueles profundos olhos verdes que podiam atravess-lo. Desde noite do banquete, quando a beijou, imaginava despindo-a e explorando seu corpo com a boca e as mos. Tinha tentado evit-la e, em lugar disso, tinha estado a ponto de fazer o amor com ela contra a parede de um estacionamento. E o desejo que sentia por ela no fazia nada a no ser crescer dia aps dia.
       Ao observ-la naquele momento, com sua suave pele e seu brilhante cabelo, perguntou-se por que no tinha podido evit-la. Penetrou em sua vida. No ia a nenhuma parte, e ele tampouco. Ambos eram adultos. Se acabasse lhe beijando os seios ao tempo que entrava na clida profundidade de seu corpo, bem, no haveria nada imperdovel nisso, pois no seriam mais que dois adultos proporcionando-se agradar mutuamente. De fato, isso era provavelmente o que os dois necessitavam. Baixou o olhar at seus pequenos seios. Sabia que, com certeza, era o que ele necessitava.
       O telefone que havia junto ao sof comeou a soar. Luc levantou o fone. Era Marie para lhe dizer que passaria a noite com Hanna.
       Me ligue pela manh lhe disse ele, e desligou.
       Era Marie?
       Sim. Ficar na casa da Hanna.
       Jane se voltou para ele, apoiando um joelho no sof e o ombro na almofada que tinha mais  mo.
       Quer falar de Marie?
No. No quero dizer nada que possa lhe complicar ainda mais a vida.
Muito inteligente de sua parte. Jane deu uma olhada no bloco de papel de notas e depois voltou a olh-lo. Quando pensa no futuro, como te v?
       Luc no gostava das perguntas como essa. Estava tentando sobreviver a essa temporada sem lesar-se, e no gostava de pensar, alm disso. Uma jogada, uma partida, uma temporada... No ia mais  frente.
Suponho que quando me retirar terei tempo para decidir o que fazer com minha vida.
       E quando cr que acontecer?
Espero que, no mnimo, dentro de cinco anos. Possivelmente mais.
sabe-se que no concede entrevistas. Por que te incomoda tanto falar com os jornalistas?
       Luc acariciou com seus dedos o brao do Jane.
       Porque sempre formulam as perguntas equivocadas.
       Ela observou as pontas de seus dedos a caminho de seus ombros, e separou ligeiramente os lbios para respirar.
       Quais so as perguntas adequadas?
       Luc apoiou os dedos sob seu queixo e a obrigou a olh-lo.
Me pergunte outra vez por que no quero que viaje com a equipe.
       Por que?
       Ele roou com o polegar seu lbio inferior. 
       Porque me pe como um ferro.
       OHsussurrou Jane.
       Ele estirou a mo e apagou o gravador.
Acreditei que se afastasse poderia me esquecer de voc. Acreditei que se fugisse conseguiria te tirar de minha cabea. Mas no funcionou.
       Tirou-lhe a caderneta e a caneta das mos e os jogou no cho. Depois disso se aproximou de Jane e enredou os dedos entre seus cachos  altura das tmporas.
Desejo-te, Jane. inclinou-se para ela e agarrou seu rosto entre as mos. Apoiou sua fronte na dela, e para assegurar-se de que lhe entendesse com perfeio, acrescentou: Quero te despir e beijar todo seu corpo.
       Jane abriu os olhos desmesuradamente.
       Ontem  noite estava muito zangado comigo.
Para falar a verdade, estava zangado comigo mesmo por te haver feito sentir como uma admiradora mais. Roou com sua boca a de Jane. Quero que saiba que nem por um segundo pensei em voc nesses trminos. Sei quem , e apesar de todos meus intentos para fazer caso omisso, no consegui. Beijou-a com suavidade nos lbios, depois se afastou para poder olh-la nos olhos. Quero fazer amor com voc, e se no me detiver agora, isso  exatamente o que vai acontecer.
No acredito que seja uma boa idia disse Jane, mas no o separou de si.
       Por que?
       Porque sou jornalista e viajo contigo, com os Chinooks.
       Beijou-lhe o canto dos lbios e sentiu que ela estremecia.
Ter que me dar uma razo mais convincente nos prximos trs segundos ou vais estar nua antes do que imagina.
No sou uma de suas bonequinhas Barbie. No tenho as pernas longas nem o peito abundante. No posso competir com isso.          
       De novo, Luc retrocedeu para olh-la nos olhos, e se teria posto a rir se no tivesse comprovado que Jane falava a srio.
Isto no  uma competio disse colocando uma mecha de cabelo detrs da orelha.
       Jane o agarrou pelo pulso e adicionou:
No sou o tipo de mulher que est acostumada a inspirar luxria em um homem como voc.
       Desta vez sim, ps-se a rir. No pde evit-lo, j que sua tremenda ereo demonstrava o contrrio.
Desde aquela primeira manh em que subiu ao avio da equipe no deixei que me perguntar como seria nua. Luc deslizou a mo de sua garganta para os botes de sua blusa. Me tem feito perder a cabea aps isso. As pontas de seus dedos acariciaram sua pele nua e tambm o sedoso material de que parecia ser feita a blusa enquanto a desabotoava. Me inspirastes toda classe de coisas, mas especialmente luxria. inclinou-se para ela e lhe beijou o lbulo da orelha. Um monto de pensamentos luxuriosos e fantasias midas que lhe poriam os cabelos em p.
       Tirou as abas da blusa de dentro da cala e observou o Top de seda.
Na outra noite, quando passei pela sala de imprensa e te vi, imaginei que te deitava em cima da mesa e que o fazamos ali mesmo, em cima das bandejas com as massas.
       Sonha um pouco... sujo.
E divertido. Penso em todos os interessantes lugares nos quais poderamos estar. Quero provar desse doce.
       Jane parecia estar retendo o flego quando disse:
       Mas voc no toma acar.
       Ele riu.
Quero comer a ti disse justo antes de lhe beijar o pescoo. Lhe soa estranho, Jane?
       Jane conteve um gemido. Claro que lhe soava estranho, mas no pelo que Luc acreditava. Que ele tivesse fantasias com ela, na sala de imprensa, era muito estranho. Seu quente flego sobre seu pescoo fez que um calafrio percorresse suas costas, e o contato da mo do Luc fez que lhe arrepiasse a pele. O calor tambm se instalou entre suas pernas. Seus mamilos se arrepiaram dolorosamente enquanto tentava apertar as coxas. Desejava Luc. Desejava-o tanto que lhe nublava a vista e logo no podia respirar. OH, sim, desejava-lhe tanto como ele a desejava, mas tinha medo do que pudesse resultar de todo aquele desejo. Se tivesse sido simplesmente uma questo sexual, a essas alturas ambos j se teriam despido. Mas se tratava de mais. Ao menos para ela. No importava quanto o desejasse, seu corao tambm estava comprometido no assunto.
       Jane respirou fundo e separou os lbios para lhe dizer que no podia faz-lo, que tinha que ir para casa imediatamente, mas uma das enormes mos dele se fechou sobre um de seus seios, esquentando sua pele atravs da seda.
       Jane, desejo-a lhe sussurrou Luc ao ouvido.
       A seguir a beijou na boca e ela sentiu que ficava sem flego. Percebeu seu aroma de limpo, e de sexo.
       Dezenove andares mais abaixo, um caminho de bombeiros passou a toda velocidade, fazendo desaparecer o mundo real, levando-as ltimas reservas de Jane a seu passo. O bom julgamento desta se esfumou. Desejava Luc tanto como ele a desejava. Talvez mais, e j teria tempo de arrepender-se depois. Nesse momento a nica coisa que lhe interessava era sentir sua mo lhe acariciando o mamilo, e aqueles trridos beijos que a enjoavam e que faziam que ficasse tensa. Escapou-lhe um gemido quando ele a beijou, lhe devorando com uma paixo superior a sua habilidade para controlar os gemidos. Todas suas inibies e receios se converteram em cinzas sob a abrasadora necessidade de fazer amor de um modo selvagem e brutal com Luc Martineau.
       Beijou-o com ardor, depois se ajoelhou no sof e ficou escarranchado sobre seu colo. Estava perdida, completamente perdida, arrastada por sensaes que a superavam. Levantou-lhe o pulver e a camiseta deixando seu peito descoberto, e suas bocas se separaram s o tempo necessrio para ambos tirarem os objetos pela cabea. Pde posar ento suas mos nele. Tocar-lhe ali onde desejava faz-lo. Seus msculos peitorais e seus ombros. Com os dedos percorreu sua pele e acariciou seu torax. Sentou-se sobre ele, e notou a presso de sua ereo e seu calor abrasador. Com o corao lhe galopando no peito e nos ouvidos, apertou-se mais forte contra ele. Deslizou as mos por seu plano ventre e lhe agarrou os pulsos.
Maldita seja murmurou Luc, respirando com dificuldade. Para um pouco ou me vou finalizar antes de comear. Se  cotinuar assim, no durarei nem cinco segundos.
       Jane captou sua mensagem. Cinco segundos de Luc lhe pareciam melhor que algo que tivesse provado antes. Melhor que algo que pudesse provar no futuro.
       Luc lhe abriu a blusa, deixando que se deslizasse por seus ombros e seus braos. Acabou atirando-a ao cho e passou ao Top de seda.
        isto o que veste no lugar de um suti? disse.
       Jane meneou a cabea e percorreu com as mos seu quente peito e seus ombros.
s vezes, nem sequer uso isso. Apesar da luxria, Jane recordou por um segundo da tanga que ps pela manh, e deu graas a Deus por ter escolhido uma das mais atrativas que tinha.
Sei grunhiu Luc. Saber que anda por a s com parte de sua roupa de baixo me trouxe alguns problemas. Rodeou a cintura de Jane com suas grandes mos e descendeu para seus joelhos, depois a reclinou para trs e enterrou a cara em seu ventre. Levantou o Top de seda e seu flego morno lhe esquentou a pele ao falar.Tire isto disse, e passou a lhe dar midos beijos no estmago.
       Jane tirou o Top pela cabea e o deixou a seu lado no sof. Luc jogou a cabea para trs para contempl-la. Percorreu seus seios com o olhar, depois tomou flego sem pronunciar palavra.
       Jane se sentou de novo em seu colo e disse, cobrindo-se com as mos:
       No  ao que est acostumado, verdade?
Os peitos grandes freqentemente so uma grande decepo.  formosa, Jane.  melhor que em minhas fantasias. Apertou-lhe os pulso e lhe levou as mos para trs, lhe fazendo arquear as costas e lhe deixando os seios muito perto do rosto. Esperei muito tempo para te ver assim. Para fazer isto sussurrou sobre um de seus mamilos.
       O meteu na boca e procedeu a suga-lo com suavidade. Soltou-lhe os pulsos e ela levou suas mos at a cabea de Luc.
       Sem deixar de sugar seu mamilo, Luc lhe roou o ventre com os dedos e desabotoou sua cala, depois introduziu a mo nela. Alcanou seu pbis por cima da tanga enquanto ela gemia de prazer.
Est mida, Jane disse ao tempo que afastava sua minscula calcinha e tocava sua pele quente e molhada. Teria sido extremamente fcil sucumbir nesse preciso instante. Permitir-lhe que a levasse ao orgasmo. Mas no queria alcanar este sozinha, queria chegar com ele.
       Um momento lhe disse agarrando-o pelo pulso.
       Ele deslizou a mo de seu estmago a seus seios, brincando com eles, rodeando os mamilos. Depois o fez com a boca. Da garganta de Luc surgiu um som de intensa masculinidade, primria e possessiva, levando-a to ao limite que Jane temeu alcanar o orgasmo com o simples contato de sua boca no seio.
       Pare suplicou.
       Ele afastou a cabea e lhe dirigiu um olhar carregado de paixo.
       Me diga o que quer.
       Eram muitas as coisas que desejava, mas como talvez no voltasse a dispor de outra oportunidade, disse:
       Quero lamber a tatuagem.
       Luc piscou vrias vezes como se no desse crdito ao que tinha ouvido, depois abriu os braos.
Jane se separou de seu colo e fez que Luc ficasse em p. Se livrou dos sapatos e das meias trs-quartos e baixou as calas. Vestida unicamente com a tanga, beijou-lhe os ombros e o peito. Acariciou sua forte musculatura e descendeu por seu corpo deixando um caminho de beijos. Ento se ajoelhou frente a ele, apoiou as mos aos lados de sua cintura sobre as calas, e apoiou a cara em seu liso ventre. Lambeu os cantos da tatuagem saboreando sua pele com a lngua.
No deixei que me perguntar como seria grande sua ferradura sussurrou enquanto lhe beijava o umbigo. Quis fazer isto h muito tempo.
Tinha que ter me pedido isso antes. Teria-te deixado faz-lo. Luc enredou seus dedos entre os cachos de Jane, afastando-os de seu rosto. A prxima vez no ter que me pedir isso. 
       Ela sorriu, e o teria mordido se sua carne no estivesse tensa como a pele de um tambor. Desabotoou-lhe as calas e a fez descender por seus quadris e suas coxas. Ele estava de p em frente a ela, a ferradura negra desaparecia sob a cueca branca. Uma impressionante ereo enchia aquele objeto de algodo, e ela a beijou por cima do tecido. Ento baixou a cueca. Liberado, o pnis apontou para ela, e Jane descobriu que o resto da ferradura desaparecia sob o plo pubiano para alcanar a base daquele. Havia uma tatuagem em forma de cinto justo por cima do escuro plo loiro, unindo ambos os lados da ferradura. LUCKY, escrito com grosas letras negras, era o que podia ler-se.
       Ela ps-se a rir e beijou a aveludada ponta de seu pnis.
       No vai pedir-me que o faa?                    
       No! gemeu ele.
       Pela primeira vez desde que ele a beijou, Jane sentiu que tinha o poder e o controle em suas mos. Abriu a boca e introduziu nela tudo o que pde, sentindo o peso de seu testculo na palma de sua mo. Nunca tinha feito algo assim a um homem em um primeiro encontro, pois temia gerar um mal precedente, mas com Luc no lhe importou. Desejava faz-lo. No por ele, mas sim por ela mesma. E no lhe importava que depois possivelmente se arrependesse, pois sabia que no tinha futuro com Luc. Assim, no havia precedente que gerar. Ia levar por diante tudo o que pudesse. Nesse momento era Bombonzinho de Mel. Ia pr toda a carne no assador para tentar deix-lo em estado de erupo.
       Luc a agarrou pelos ombros e a fez ficar em p. Atraiu seu rosto e lhe colocou a lngua na boca. Levou as mos at o traseiro de Jane, elevou-a e lhe rodeou a cintura com as pernas. Sua dura carne nua pressionou em seu ventre atravs da tanga, e com um par de patadas acabou por se livrar de suas calas e sua cueca. No deixou de beij-la apaixonadamente enquanto saam do salo em direo a seu escuro dormitrio. As luzes que penetravam pela enorme janela caam sobre a cama, e ele a posou com delicadeza sobre o edredom azul. Ela se apoiou nos cotovelos, elevando-se um pouco, para observar como Luc se movia entre sombras. Abriu uma gaveta da mesinha de noite e depois se colocou em frente a ela.
Acredito que tenho que me desculpar antes que comeamos a tarefa disse enquanto fazia rodar o preservativo de ltex sobre a glande e depois pelo resto de seu grosso pnis.
       Ela tirou a tanga e o jogou longe de si. A luz do exterior iluminava um dos lados do rosto de Luc.
       Por que?
       Ele a cobriu com seu quente corpo, descansando o peso nos cotovelos.
       Porque no acredito que dure muito.
       Ento, ela sentiu a ponta de sua glande, suave, dura e quente, e pensou que Luc no tinha por que preocupar-se, j que ela tampouco ia demorar muito. Comeou a penetr-la, mas Jane sentiu que seu corpo resistia  intruso. Colocou suas mos nos ombros de Luc e lhe deteve, tomou seu rostos entre as mos e o beijou com carinho. Luc se retirou e depois voltou a empurrar entrando um pouco mais.
       Est-me apertando muito forte ofegou.
       Beijou-lhe roubando o flego enquanto ele saa dela quase por completo, s para cravar-se to dentro que lhe sentiu no colo do tero. Do peito de Luc surgiu um profundo grunhido que abraou o corao de Jane.
       Rodeou-lhe a cintura com uma de suas pernas.
Luc sussurrou justo quando ele comeava a mover-se, alcanando o ritmo perfeito do prazer. Mmm, isso est muito bom.
       Como o quer? perguntou ele.
       Tal como est fazendo.
       O atltico e treinado corpo do Luc se esticou. Cada uma de suas clulas parecia concentrada no trabalho de investir.
       Mais?
Sim. Me d mais grunhiu Jane, e ele a agradou. Mais rpido, mais forte, com maior intensidade. Seu spero flego roava as bochechas de Jane com cada nova investida, empurrando-a para cima na cama. E justo no ponto em que acreditava no poder resistir mais, Jane gritou e apertou os punhos. Seu clmax foi to intenso que no viu nem ouviu nada mais alm dos batimentos de seu corao e das comovedoras sensaes que percorriam sua carne. O fogo que ele tinha acedindo em seu interior arrasou seu corpo, e seus msculos internos se apertaram, lhe arrastando ainda mais para dentro at que tambm ele alcanou o clmax. Uma exploso de maldies saiu da garganta de Luc.
       Nenhum dos dois disse nada durante um bom momento, at que sua respirao e seu corao alcanaram o ritmo normal. Luc se dirigiu ao banheiro. Jane o viu afastar-se entre as sombras. Sua mente ainda estava muito nublada para pensar no que acabava de fazer, mas seu corao sabia com perfeio. Amava Luc Martineau com uma intensidade que a assustava.
       Quando ouviu a gua da torneira, olhou para a porta do lavabo. Luc caminhou para ela, nu e belo, rodeado pelas manchas de luz que percorriam o dormitrio. Ao olh-lo, Jane sentiu uma presso no peito, como se fosse sofrer um ataque cardaco.
       A que hora tem que ir ? perguntou ele.
       A realidade caiu sobre ela como um jarro de gua fria. Luc nem sequer tinha esperado a que se desvanecesse sua sensao de bem-estar. Simplesmente tinha feito o amor de forma selvagem e j estava preparado para que partisse. Jane se sentou e olhou ao redor em busca de sua roupa intima, esperando no desmoronar-se e chorar antes de sair pela porta.
No tenho que obedecer nenhum toque de silncio. Girou sobre si e alcanou o canto oposto da cama. No viu a calcinha. Irei assim que encontre minha roupa intima. Sem dvida tem que descansar para a partida de amanh de noite.
       Ele a agarrou pelo tornozelo.
Amanh estarei no banco disse. O que te perguntava era se gostaria de ficar.
       Luc fez que Jane desse a volta e a olhou no rosto.
       Srio?
Tinha calculado que o faramos algumas vezes mais antes de te acompanhar  porta.
       Algumas vezes mais?
Sim. Ele a apertou de novo contra seu corpo, por isso ela pde sentir que continuava excitado. Isso  um problema para voc?
       No.
       Bem, porque tinha planejado marcar trs gols.
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       

14

O banquinho de castigo

       Jane confiava que Caroline a acompanhasse na partida da noite seguinte. Necessitava de algo que a ajudasse a no pensar muito, deixar de lhe dar voltas ao que tinha passado a noite anterior. Mas na realidade, de todos os modos, sabia, ia analisar todos seus atos ao milmetro. Fizera amor com Luc Martineau trs vezes. Trs selvagens, demolidoras e ardentes vezes. E em cada uma delas, com cada roar, com cada palavra que saa de sua boca, havia-se sentido mais e mais apaixonada por ele, at chegar a pensar que seu corao no conseguiria recuperar-se.
       Por volta das duas da manh ele dormiu entre uma confuso de lenis banhados pela luz da lua que entrava pela vidraa. Segundos antes tinha estado falando de sua infncia no Edmonton e, aos poucos, adormeceu como se algum tivesse apagado um interruptor em sua mente. Jane nunca tinha visto dormir to rpido a ningum, e esteve contemplando-o durante um momento para assegurar-se de que estava bem. Afastou-lhe uma mecha de cabelo da fronte e lhe acariciou a bochecha e o forte queixo. Depois recolheu sua roupa e se foi sem despert-lo.
       Nunca tinha ficado rendida por um homem com semelhante rapidez nem semelhante intensidade, e partiu sem despert-lo porque, para falar a verdade, no teria sabido o que lhe dizer. Obrigado? Voltaremos a faz-lo outro dia? Nos vemos amanh na partida? Se foi porque era o estabelecido nos encontros de uma s noite: ir-se antes do amanhecer.               
       Foi sem sua tanga. No tinha sido capaz de encontr-la na escurido do dormitrio, e no quis despert-lo acendendo a luz. Seu maior temor ao partir foi que encontrasse a mulher da limpeza ou, o que era pior, Marie. No, isso no era certo. Seu maior temor no era que algum encontrasse sua calcinha. Era ver o Luc da noite seguinte e sentir o horrvel pulsar desbocado de seu corao. Tinha tido namorados e tambm tinha estado com homens de uma s noite. Tinham-lhe feito mal, e ela tambm tinha feito mal a outras pessoas. Mas nada podia comparar-se com o dano que lhe podia fazer Luc. Sabia. Sabia que se estava aproximando, e tambm que no tinha modo de evit-lo.
       Tudo era horrvel e maravilhoso, e em meio de tanta confuso estava o sentimento de culpa. Ele tinha confirmado na noite anterior o que ela j sabia. No podia dizer-se que Luc acharia aduladora a histria do Bombonzinho de Mel. Importaria-lhe, e muito, e no havia nada que ela pudesse fazer a respeito. No podia fazer nada por ocult-lo, e saber que lhe seria muito difcil descobrir que estava por detrs daquela histria no evitava que se sentisse culpada.
       Amava-lhe, e nem sequer se incomodou em lhe mentir lhe dizendo que no se vestiu para ele. Pintou os lbios de vermelho e se ps uma blusa de seda vermelha sob a jaqueta negra, e as calas de l. Havia-se sentido estpida, saindo pra comprar aquela blusa s porque lhe havia dito que gostava quando vestia de vermelho. Como se com isso fosse conseguir que ele a amasse.
       Meia hora antes da partida, encaminhou-se aos vestirios.
       Enquanto recitava o discurso ritual de boa sorte, pde sentir sobre si o ardente olhar de Luc, e ela recusou posar os olhos nele, sobre tudo depois do ocorrido na noite anterior, das coisas que fizeram juntos em seu dormitrio. Quando acabou, fechou a boca e se dirigiu  porta.
       Esqueceu algo lhe disse Luc.
       No. No o tinha esquecido. Olhando-as pontas das botas, voltou-se e cruzou o vestirio. Quando esteve diante dele, elevou a vista de seus patins, subiu por seus amparos, deixou para trs o peixe desenhado na camiseta e chegou  boca que tinha beijado to apaixonadamente como todo seu corpo.
       Acreditava que esta noite no fosse jogar. 
E no vou jogar, mas se o goleiro se lesa, deverei substitui-lo.
Sim, claro. Jane suspirou. Graas a alguma fora benfica do destino, suas bochechas no ficaram rubras e, finalmente, olhou a seus surpreendentes olhos azuis.  um pedao de tolo.
Obrigado disse ele com um sorriso zombador, mas no era isso ao que me referia quando disse que esquecia algo.
       Tinha falado seu discurso sobre as cuecas, tinha dado a mo ao capito, tinha chamado Luc de pedao de tolo. No tinha esquecido nada.
       Do que est falando?
       Luc se inclinou para ela e disse entre dentes:
       Ontem  noite deixou a calcinha em minha cama.
       Jane sentiu que ficava sem flego e lhe detinha o corao. Olhou ao redor para comprovar se algum os tinha ouvido, mas todos pareciam ocupados em suas coisas.
Esta manh a encontrei sob meu travesseiro, e no sabia se as teria deixado ali por algum motivo concreto. Algo assim como um presente de bom dia.
       Jane enrubesceu, e lhe fechou a garganta. Tudo o que conseguiu balbuciar foi:
       No.
       Por que no me despertou quando foi?
Estava dormindo reps ela detrs esclarec-la garganta.
S estava descansando um pouco. Merda, ontem  noite parecia um foguete. Olhou-a de perto e arqueou as sobrancelhas. Se sente incmoda? perguntou-lhe, perplexo.
       ---Sim!
       por que? Ningum pode nos ouvir.
OH, Meu deus sussurrou ela enquanto se afastava dele jogando fascas.
       Quando chegou  cabine de imprensa, Darby j estava ali. E tinha levado consigo Caroline.
Como esto? disse-lhes enquanto se sentava. Se soubesse que queria ver outra partida, Caroline, te convidaria.
Est bem. No sou uma autntica aficionada, mas Darby me chamou e no tinha outra coisa que fazer. encolheu-se de ombros. Te liguei ontem  noite. Onde estava?
       Em nenhum lugar. Desconectei o telefone.
Eu no gosto que faa isso. Caroline a estudou durante uns segundos, depois se inclinou para ela. Est mentindo.
       No.
Sim, est mentindo. Conheo-te desde que foi uma mucosa. Sei quando mentes. Entreabriu os olhos. Onde esteve?
       Jane deu uma olhada ao Darby. Estava falando por telefone.
       Sa.
Com um homem? Ao ver que Jane no respondia, Caroline a agarrou do brao. Um dos jogadores de hquei!   
 	Cristo!
Quem? perguntou Caroline com um sussurro e olhou ao redor para comprovar se algum podia as ouvir.
       Depois falamos disse Jane, cortante.
       Abriu seu computador porttil quando na pista comeou o espetculo de luz e som. Durante a partida, tomou notas e tentou manter a vista afastada do goleiro que estava sentado no banco, com os braos cruzados, observando o desenvolvimento do jogo. Luc se voltou vrias vezes para as cabines de imprensa. Trs escadarias mais acima, seus olhares se cruzaram e ela sentiu que o corao lhe subia at a garganta.
       Afastou o olhar. Nunca se havia sentido to insegura. Sendo uma mulher que se responsabilizava das coisas e obrava em conseqncia, sofria com aquela incerteza. Tinha um n no estmago e lhe doa a cabea.
Jane? Caroline a agarrou pelo ombro e a sacudiu tentando chamar sua ateno.
       O que acontece?
       Chamei-a trs vezes.
       Sinto muito, estava pensando em minha crnica mentiu.
Darby quer que vamos tomar uma taa os trs juntos depois da partida.
       Jane se inclinou para frente e olhou o ajudante do diretor esportivo. Duvidou que Darby a quisesse de carabina.
No posso respondeu, o qual era certo, e supunha que Darby sabia de sobras. Tenho que falar com os jogadores e escrever a crnica antes da hora de fechamento. Tambm tinha que pr em ordem a entrevista que tinha feito com Luc. Vo sem mim.
       Darby se esforou por parecer decepcionado.
       Est segura? perguntou.
Completamente. Quase sentiu pena por Darby. Queria Caroline, mas sua amiga ia partir corao do pobre Darby. Uma vez mais pensou que talvez deveria lhe advertir a este, mas j tinha suficientes preocupaes com seu prprio corao.
       Os Chinooks perderam contra os Bruins por trs a dois. Depois da partida, Jane respirou fundo e entrou de novo no vestirio. Os amparos do Luc penduravam de sua bilheteria, mas ele se foi. Jane soprou ao sentir uma estranha mescla de alvio e raiva. A horrvel tira frouxa prpria do amor. Luc sabia que ela desceria ao vestirio depois da partida, e tinha partido sem despedir-se. 
       Jane entrevistou o treinador Nystrom e ao segundo goleiro, que tinha parado vinte tiros ao gol. Falou com Martelo e com Fish. Depois disso, com a maleta e a jaqueta pendurando de um brao, enfiou-se no tnel de sada.
       Luc estava junto  porta, observando como se aproximava. Usava seu traje Hugo Boss azul marinho com gravata de seda. Estava muito bonito, e em Jane deu gua na boca.
       Tenho algo para voc disse ele afastando-se da parede.
       Do que se trata?
       Luc olhou atrs dela e viu passar um jornalista de outro peridico.
       Jim disse Luc assentindo.
       Martineau.
       O reprter piscou um olho pra Jane quando passou por seu lado, e ela soube o que devia estar imaginando respeito de sua relao com aquele goleiro que tinha fama de paquerador.
       Luc olhou alm do Jane de novo e a seguir tirou do bolso de sua jaqueta a calcinha vermelha.
Isto. Embora deveria ficar como um amuleto de boa sorte disse entregando- a pendurada em um dedo. Talvez deveria ter haver feito um molde de bronze e coloc-la em uma placa sobre minha cama.
       Jane a agarrou e a meteu na maleta. Voltou-se para olhar o corredor vazio.
       No lhe deram sorte. Esta noite no jogou.
Estava pensando em um tipo diferente de sorte. Luc a atraiu para si e passou os dedos por seu cabelo. Vem comigo.
       OH, Senhor. Jane permaneceu perfeitamente calma apesar de que o que desejava era apoiar a cabea contra seu peito.
       Aonde?
       A algum lugar.
       Fazendo proviso de foras, Jane se separou dele. Sentia que lhe derretia o corao.
       Sabe que no podem me ver contigo disse.
       Por que no?
       J sabe por que.
       Porque quer que todos pensem que  uma profissional.
       Tinha-o pilhado
       Isso.
       Viram-lhe com o Darby.
       Isso  diferente.
       Em que sentido?
       No estava apaixonada por Darby. Olhar pra Darby no a fazia sentir como se atirassem nela de diferentes direes. E, por outra parte, se negasse ter uma relao com o Darby Hogue, todos acreditariam, ao contrrio do que ocorreria se tivesse que negar uma relao com Luc.
       No tem a m reputao que tem voc.
       E uma vez que aparecesse o nmero de maro da revista Him, sua reputao pioraria.
       Luc a olhou como se no pudesse acreditar no que acabava de dizer.
       Ou seja, se fosse bicha, poderiam v-la comigo?
       Por Deus santo. Darby no  bicha. 
 	Equivoca-te, meu bem.
       Meu bem. Jane se perguntou a quantas mulheres em diferentes estados do pas teria chamado de meu bem. Perguntou-se quantas dessas mulheres teriam perdido a cabea por ele pensando que eram diferentes das demais. E se perguntou tambm quantas teriam sido bastante tolas para apaixonar-se por Luc.
lhe deixe. Quando elevou a vista e a posou no arco de seus lbios, no azul de seus olhos e suas largas pestanas, lhe deixe soou como se ela tivesse o controle. Como se tivesse opes. Mas no as tinha e no as tinha tido, ou no teria deixado que acontecesse. Com o corao lhe pulsando com fora, desejosa de jogar os braos ao redor do pescoo e no lhe deixar escapar jamais, forou-se a dizer:
o de ontem  noite foi um engano. No podemos permitir que volte a ocorrer.
       De acordo.
De acordo! A ela lhe estava rompendo o corao e ele se limitava a dizer de acordo. No sabia se lhe dava um murro  altura da tatuagem ou saia correndo antes de tornar-se a chorar. Enquanto se decidia, ele abriu a porta que havia a suas costas, agarrou-lhe a mo e a meteu no quarto da limpeza. Fechou a porta e acendeu a luz.     
       O que est fazendo, Luc?      
       Cumprindo com essa m reputao da que falava.
       Ela elevou a maleta entre os dois.
       Para.
       Ele sorriu, e no soube se devia ao aroma dos produtos de limpeza ou ao aroma de Luc, mas sentiu que doia um pouco a cabea.
       De acordo.
       Estirou a mo e fechou o ferrolho da porta. Ela olhou a maaneta da porta e logo olhou pra ele.
Luc! No podia fazer uso dela cada vez que lhe viesse em vontade. Ou sim? No!. Acredito que ontem  noite te levou uma impresso errnea de mim. Habitualmente eu no... O que quero dizer  que nunca me deitei com algum a quem tivesse entrevistado.
       Ele colocou um dedo sobre os lbios do Jane,
Sua vida sexual no  meu assunto. No me interessa saber com quem o tem feito nem as posturas que pratica.
       Seu desinteresse lhe doeu mais do desejado.
       Mas eu quero...
Quieta a interrompeu Luc. Algum poderia te ouvir, e no quer que lhe vejam comigo, recorda-se? Colocou suas mos na porta, a ambos os lados da cabea de Jane, e se inclinou sobre ela, forando-a a retroceder. Sua maleta era a nica coisa que separava seus corpos. No deixei de pensar em voc desde que me levantei esta manh.
       Jane temia lhe perguntar no que tinha estado pensando concretamente.
Tenho que ir disse, consciente de que se se voltasse e abrisse o ferrolho ele deixaria que se fosse. E no podia faz-lo. Devo escrever minha crnica.
       Uns poucos minutos no lhe atrasaro muito.
       O aroma de sua colnia se mesclava com o dos produtos de limpeza, e no conseguiu esgrimir uma razo pela qual no pudesse ficar uns poucos minutos. Rodeou-lhe a cintura com um brao e aproximou seu do seu. Sua voz era spera quando disse:
       Faa o que fizer, mantm a maleta na frente de seus seios.
       Ento a beijou. Seus lbios eram mornos, sua boca quente e, como tudo nele, sexy e provocador. Seu beijo teve um matiz agressivo a princpio, mas depois se dedicou a procurar sua lngua com doura. Em um segundo, a conscincia percorreu a pele de Jane at instalar-se na boca do estmago. S uns poucos minutos mais. Lhe acariciou a bochecha at chegar  garganta. Apartou o pescoo da blusa e, com cuidado, lambeu-lhe a pele.
Voc  to suave sussurrou enquanto se dirigia para sua orelha. Por dentro e por fora.
       Ao outro lado da porta se ouviram risadas de homens e o marcado acento do Stromster. Luc a olhou. Sua voz e sua respirao se fizeram mais graves quando disse:
       Continua apertando a maleta, meu bem?
       Ela assentiu com a cabea e apertou com mais fora.
       -Bem. No a solte, e no me faa caso se te disser que o faa lhe advertiu. Se no acabar tombada no cho comigo em cima.
       Jane sabia que podia recriminar-se o seu comportamento. Beijar Luc Martineau no quarto da limpeza do Key Arena tinha sido uma completa estupidez, mas uma borbulha de felicidade tinha feito saltar seu corao e lhe tinha provocado vontades de rir. Luc a desejava. Podia apreci-lo no modo em que a olhava, no timbre de desejo que evidenciava sua voz. Talvez no a amava, mas queria estar com ela.
       Luc retrocedeu uns passos.
  	Esta no foi uma de minhas melhores idias disse.
       Chegou mais rudo do tnel.
Acredito que deveramos ficar aqui um momento acrescentou. Agarrou um cubo grande de plstico e lhe deu a volta para que ela pudesse sentar. O sinto.
       Sabia que Jane tambm devia desculpar-se. Tinha uma hora para entregar a crnica. Estava encerrada em um quartinho com Luc, e se os descobriam, as repercusses seriam ms para os dois. Embora no se sentia arrependida.
       Sentou-se em cima do cubo e olhou pra Luc. Devolveu-lhe o olhar com os olhos entreabertos. Jane observou sua gravata, o cinto negro, o zper de suas calas. Tinha uma enorme ereo. Recordou com toda claridade como era quando estava nu. Seu corpo forte, seu duro pnis, e sua irresistvel tatuagem. De repente, j no teve to claro que uma repetio do que tinha passado a noite anterior fora um mau plano. No nesse momento, entretanto, decidiu enquanto deixava a maleta a um lado.
Como est sua irm? perguntou Jane, trocando de tema. O penteado de ontem agradava, mas sempre  diferente no dia seguinte.
Como? Luc cravou seu olhar nos olhos verdes de Jane; no pde entender a abrupta mudana de seus pensamentos. Fazia to somente um segundo, tinha-a visto contemplar sua ereo, e de repente queria falar de sua irm.
       Vi-a na hora da comida e estava bem.
       No outro dia falamos um pouco de sua me.
       Luc retrocedeu um par de passos e apoiou um ombro contra a porta.
       O que te disse?
No muito, mas tampouco tinha por que faz-lo. Sei como se sente. Minha me morreu quando eu tinha seis anos.
       No sabia que Jane fosse to jovem quando tinha perdido a sua me, mas no lhe surpreendeu. Tudo o que sabia dela era que trabalhava para o Seattle Times, que vivia no Bellevue, que tinha a lngua muito rpida e os nervos de ao. Gostava de sua risada e tambm de falar com ela. Sua pele era to suave como parecia s de olhar. Todo seu corpo. Tambm sabia bem. Em todos os sentidos. Sabia que fazia o amor como os deuses, e tudo o que era capaz de pensar desde que se levantou da cama essa mesma manh era como voltar a coloc-la nela.Na realidade, sabia de Jane mais coisas das que tinha sabido de muitas outras mulheres.
       Sinto por sua me.
       Obrigado disse ela com um sorriso triste.
       Luc fez escorregar suas costas pela porta at sentar-se no cho aos ps de Jane.
       Seus joelhos quase se tocavam.
Marie est passando por uma m fase, e no sei o que fazer ao respeito disse, centrando a propsito seus pensamentos em sua irm e seus problemas. No quer ir a terapia.
       O tem proposto?
Claro, mas deixou de ir depois das duas primeiras sesses. Troca de humor com extrema facilidade. Necessita de uma me, mas, obviamente, eu no a posso proporcionar. Pensei que a melhor soluo seria um internato, mas acreditou que queria me liberar dela.
       E tinha razo?
       Luc desabotoou a jaqueta e apoiou os pulsos nos joelhos. Nunca falava de sua vida pessoal com ningum, a menos que fosse da famlia, e se perguntou o que tinha Jane que o levava a falar com ela. Talvez se devesse, por alguma razo que no atinava a compreender, confiava nela.
No acredito que tenha pretendido me liberar de minha irm. Embora talvez sim. Em qualquer caso, sou um bode.
       Eu no te julgo, Luc.
       Ele a olhou nos olhos e acreditou.
       Quero que seja feliz, mas no o .
No, no o , e no o ser durante um tempo. Estou segura de que tem medo. Jane inclinou a cabea e seus cachos caram sobre seu rosto. Onde est o pai de Marie?
Nosso pai morreu far uns dez anos. Naquela poca eu vivia no Edmonton com minha me. A me dela e meu pai viviam em Los Angeles.
       Ou seja, tambm sabe o que  perder um de seus pais.
Em realidade, no. Sua mo escorregou do joelho e, com a ponta dos dedos, percorreu suas calas. Via meu pai uma vez ao ano.
 Sim, mas deve seguir te perguntando como seria sua vida se ele ainda vivesse.
No. Meus treinadores de hquei se fizeram mais de pais para mim que meu prprio pai. A me de Marie era sua quarta esposa.
       Tem irmos?
Eu. Luc elevou a vista. Sou tudo o que tem, e temo que no  suficiente.
       A luz do teto caa sobre os cachos e, em cujos nos lbios se instalou de novo um sorriso triste. Luc odiava ver-se desse modo, por isso pensou na possibilidade de agarrar Jane pelas lapelas e beij-la. Mas beij-la teria levado a outras coisas, e essas outras coisas no foram ter lugar no quarto da limpeza, com seus companheiros de equipe do outro lado da porta.
Eu, ao menos, continuo tendo a meu pai disse Jane. Vestiu-me como a um menino at que fiz treze anos, e no tinha senso de humor. Mas me quer e sempre esteve a meu lado.
       Vestia-a como a um menino? Isso explicava a roupa e o calado que usava. 
       Jane umedeceu os lbios com a lngua.
Bom, nada poder substituir nunca a sua me. Isso lhe asseguro. Sigo sentindo falta da minha, e me pergunto como teria sido minha vida se ela no tivesse morrido. Mas com o tempo deixa de pensar nisso cada minuto do dia. E te equivoca ao acreditar que no  suficiente para ela. Se quer s-lo, ser-o.
       Olhou-o fixamente. Como se fosse to singelo. Como se ela tivesse mais f nele que ele mesmo. Como se no fosse o bode egosta que sabia que era. Deslizou a mo por debaixo da cala e tocou a meia trs-quartos. Depois a alargou para tocar Jane na panturrilha e apalpar sua suave pele. N noite anterior, tinha-lhe beijado detrs dos joelhos enquanto subia para suas coxas. Suas pernas estavam midas depois ter passado pela jacuzzi, e a mera lembrana fez que se excitasse.
Passo muito tempo fora de casa disse lhe acariciando a pele com o polegar. Se lhe perguntar a Marie, provavelmente te dir que no sou muito bom irmo.
       Jane colocou o cabelo depois da orelha e lhe observou durante uns segundos antes de dizer:
       Quando lhes vi juntos, fez-me ter saudades de ter um irmo.
       Luc a olhou nos olhos e sentiu de novo desejos de beij-la. Foi como um duro golpe contra o torax que o deixou aturdido. Do tnel chegaram vozes, mas dentro do quarto da limpeza o silncio se imps entre os dois. Finalmente ele esboou uma risada forada para que desaparecesse o n que se formou em seu peito.
No me diga que voc gostaria de ter um irmo como eu... 
No, como voc no. Nos lbios do Jane brilhou um sorriso, e seu mundo ao completo brilhou. Se tivesse um irmo como voc, Prenderiam-me por pensamentos indecentes.
       Luc se sentiu atrado por seu sorriso, e apertou a perna de Jane como se tratasse de uma ncora em meio de uma tormenta. Ela no pareceu not-lo e ele se obrigou a solt-la. apoiou-se de novo contra a porta.
 	Ser melhor que v. Tem que escrever a crnica. 
       Jane franziu o cenho e piscou. 
       Encontra-te bem?
Sim. O que acontece  que recordei que tenho que falar com Marie antes que v se dormir.
Cr que o tnel estar vazio? perguntou agarrando a maleta e a jaqueta e ficando em p.
No sei. Tirou o ferrolho e abriu a porta um pouco. Passou Martelo falando com o encarregado de manuteno da equipe. Luc botou para fora a cabea e comprovou que os dois homens partiram e o tnel estava adequadamente deserto. Jane e ele saram do quarto, e ela vestiu a jaqueta. Pelo geral, ele a teria ajudado a faz-lo.
Tenho que falar com o Nystrom mentiu, e comeou a caminhar de volta para os vestirios. Com cada passo respirava melhor. 
Acreditava que tinha que falar com Marie. Era isso o que havia dito?
       Mais tarde. Primeiro tenho que falar com o treinador.
OH. Ela elevou a mo e se voltou para partir. Luc observou sua nuca, meteu  as mos nos bolsos das calas e permaneceu quieto vendo-a afastar-se.
Que demnios aconteceu?, perguntou-se assim que ela desapareceu depois da porta. Perguntou-se se lhe tinha metido algo na cabea ou tinha inalado muita amnia no quarto da limpeza. Estava pensando em lhe beijar a parte de atrs dos joelhos e, no segundo seguinte, no podia respirar. Jane acreditava que era um bom irmo. E o que? Ele no acreditava, mas inclusive embora fosse o melhor irmo do mundo, por que teria que lhe importar tanto a opinio do Jane? Por alguma inexplicvel razo, entretanto, importava-lhe, mas no queria pensar no significado de algo assim. Tinha muitas outras coisas que fazer em sua vida antes que perder a cabea por uma jornalista baixa com um traseiro arrebitado e uns duros e rosados mamilos.
       Na noite anterior, Jane fizera saltar pelos ares todas as hipteses que tinha feito sobre ela. Estava claro que no era uma dissimulada, e quanto mais tempo passava com ela, mais tempo desejava passar a seu lado. Inclusive ao penetr-la e sentir cada fibra de prazer, desejava-a j para uma prxima vez. Ao despertar essa mesma manh se havia sentido seriamente contrariado por no encontr-la a seu lado.
       Mas Jane era uma complicao que no necessitava. Quando lhe havia dito que fazer o amor tinha sido um equvoco e que no podia voltar a acontecer, deveria hav-la escutado em lugar de arrast-la ao quarto da limpeza para lhe demonstrar que no estava certa.
Lucky. Jack Lynch lhe deu uma palmada nas costas. Uns quantos vamos comer algo e a tomar umas cervejas. Vem conosco.
       Luc olhou  defesa por cima do ombro.
       Aonde vo?
       Ao Hooters.
       Talvez fosse o que necessitava. Ir a um lugar onde as mulheres usavam shorts curtos e apertados tops. Mulheres de peito abundante que se inclinavam quando serviam a comida. Mulheres que flertavam com os homens e que lhes deslizavam seus nmeros de telefone. Mulheres que no esperavam nada dele. E quando acabasse, ele no o lamentaria nem o recordaria uma e outra vez, como lhe acontecia com o Jane.
       Deu uma olhada a seu relgio. Logo dispunha de tempo.
       Me reserve uma cadeira. 
       Farei-o disse Jack, e seguiu seu caminho.
       Sim, iria ao Hooters. Comportaria-se como um homem. Faria coisas de homens. No queria uma noiva que lhe olhasse mal se ia a um local desse tipo.   
Quando lhes vi juntos, fez-me ter saudades de ter um irmo.
       Decididamente, Jane era uma mulher perigosa. Luc no s pensava muito nela, mas tambm, se no tivesse cuidado, acabaria convertendo-se em seu Pepito Grilo particular. No queria algo assim, e no lhe importava o que dissesse dele. Estava bem como estava.
       Luc tirou as mos dos bolsos e com elas as chaves do carro. Tinha que dar marcha atrs a seu plano original e no emprestar ateno em Jane. Embora, at ento, essa ttica no tinha funcionado.
       Nesta ocasio, tentaria-o com mais fora.       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       

15

Como jogar tudo a perder

       Na tera-feira pela manh, Jane entrou no escritrio do editor de esportes Kirk Thornton no Seattle Times. Desde que tinha ocupado o posto de Chris Evans, s se tinha encontrado com Kirk em uma ocasio. Essa manh, ele estava sentado atrs de seu escritrio coberto de peridicos desordenados e fotografias esportivas. Tinha o telefone em uma mo e uma xcara de caf na outra. Elevou a vista para ela, franziu o cenho e apertou os dentes. Separou um dedo da xcara e apontou para uma cadeira vazia.
       Jane se perguntou se sempre estava de mau humor ou se s o estava quando a via. De repente, j no parecia boa idia ter passado pela redao. Ela estava naqueles dias, no se sentia muito bem, e no queria mostrar-se desagradvel com ele.
Noonan cobrir a partida dos Sonics disse Kirk ao telefone. Tenho Jensen para a partida de esta noite dos Huskies.
       Jane se voltou e olhou atravs do cristal da porta para a redao, onde se trabalhavam em excesso os outros jornalistas esportivos. Nunca seria um deles. O tinham deixado claro. Mas no passava nada. Ela no queria ser um deles. Ela queria ser melhor. Seu olhar posou na mesa vazia de Chris Evans. Esse trabalho no duraria para sempre; Chris voltaria a ocupar seu posto. Mas quando tudo acabasse, ela teria uma estupenda experincia que acrescentar a seu curriculum e encontraria algo melhor. Talvez no Seattle Post-Intelligencer.
       No que posso te ajudar? perguntou-lhe Kirk.   
       Jane se voltou para ele.
       Por que no publicou minha entrevista com Pierre Dion?
       Ele bebeu um gole de caf e depois meneou a cabea.
O Post-Intelligencer publicou uma entrevista um dia depois de que assinasse o contrato.
       A minha era melhor.
A tua, a essas alturas, era gua passada. Kirk olhou os papis que havia sobre sua mesa.
       No acreditou. Se algum dos meninos tivesse feito a entrevista, teria publicado em vez de enterr-la em sua crnica habitual.
       Alguma outra coisa?
       Tenho uma entrevista com Luc Martineau.
       Isso chamou a ateno de Kirk.
       Ningum pode entrevistar Martineau.        
       Pois eu o fiz.
       Como?
O pedi.                                                        
       Todo mundo o pede.                       
Devia-me um favor. Jane baixou a vista at seus ps, depois voltou a elev-la. Kirk era muito preparado para dizer o que pensava, mas ela sabia.
       Que favor te devia?
       Esteve tentada de dizer a Kirk que se deitou com o Luc, mas depois da entrevista. assim, tecnicamente no tinha intercambiado favores sexuais para consegui-la.
Quando me despediram, s pus uma condio para voltar, fazer uma entrevista exclusiva com Luc.
       E lhe concedeu isso?
Sim. Jane lhe estendeu uma cpia impressa da entrevista junto com um disquete. Poderia hav-la enviado por correio eletrnico como fazia com as crnicas, mas queria lhe ver a cara quando a lesse. Estava orgulhosa do que tinha feito e recordava de cor cada palavra da entrevista

Martineau entre  as traves
       A controvrsia no lhe  alheia ao goleiro dos Chinooks Luc Matineau. Tanto sua vida privada como sua carreira profissional foram dissecadas e debatidas, e se tem escrito tanto sobre ele que ningum sabe j qual  a verdade. O prprio Martineau afirma que a maior parte do que tm escrito sobre sua vida pessoal  pura fico e que no tem nada que ver com a realidade. Realidade ou fico assegura que seu passado s pertence a ele, e que na atualidade s lhe interessa o que acontece entre as traves.
       Quando me sentei para entrevistar este enigmtico goleiro, descobri que  uma pessoa franca e distante a partes iguais. Relaxado e intenso. Contraste que fazem deste antigo ganhador do trofu Conn Smythe um dos melhores goleiros de todos os tempos na NHL. 
       O que est fora de dvida  que faz dois anos que se disse que ele estava acabado, que seus dias na liga nacional de hquei estavam contados. O que equivocados estavam aqueles que afirmaram algo semelhante. Situado atualmente no segundo posto do ranking de goleiros, Martineau  o lder da liga em paradas, com uma mdia de 2,00. Umas velozes mos e um frio autocontrole so as marcas da casa deste goleiro de primeira linha. Demonstra sempre tanta habilidade como carter, e quando est entre as traves, seu atmico olhar intimida...

       Ao tempo que Kirk ia avanando na leitura, foi aparecendo em seu rosto um meio sorriso. Uma amostra de respeito, embora reticente, suavizava as linhas de seu rosto, e seu humor mudou quase imediatamente. Jane no queria deleitar-se com a mudana de atitude de Kirk Thornston respeito dela. Mas o fez. S ao final soube o muito que se deleitou, e se sentiu orgulhosa.
       Kirk olhou sua agenda.
Deixarei um espao para isto na edio do domingo; no deste, mas sim do seguinte.
Estaria de viagem esse domingo.
 um bom artigo, verdade? perguntou-lhe para assegurar-se.
       Sim.
       Quando Jane saiu do edifcio, o sol brilhava radiante, as montanhas se elevavam ao longe e a vida era uma fonte de bondade. Enquanto caminhava pelo John Street para seu Honda, permitiu-se desfrutar de seu momento de triunfo. Tanto se a queriam entre eles como se no, os cronistas esportivos teriam que levar-lhe um pouco mais a srio a partir de agora. Ou, com um mnimo, no poderiam denegri-la com facilidade por ser a autora das estpidas colunas de Solteira na cidade. A Associated Press adquiriria a entrevista com Luc, e todos se inteirariam. No fazia falta dizer que isso facilitaria as coisas nas salas de imprensa. Tambm cabia a possibilidade de que ocorresse o contrrio, mas no lhe importava. Fizera a entrevista pela qual todos eles estariam dispostos a matar.
       Sim, a vida era formosa. No dia anterior tinha sido outra histria. O dial anterior se sentou em casa diante do telefone como uma adolescente, esperando uma chamada. Depois de sair do Key Arena no domingo de noite, estava segura de que Luc a chamaria. Depois da cena miservel do  quarto da limpeza e obrig-la a expor-se de novo sua deciso de no deitar-se nunca mais com ele, esperava que a telefonasse ou aparecesse por sua casa. Disse-se que tinham estabelecido uma conexo pessoal, que tinham falado de temas importantes que foram alm da roupa intima, e estava segura de que ele tinha se conectado com ela.
       Mas no era assim, e enquanto ficava sentada no sof vendo reportagens sobre pssaros no Discovery Channel, descobriu que apaixonar-se por Luc era a maior tolice que tinha cometido em sua vida.  obvio, sabia de antemo a estupidez que entranharia o que j era um fato, mas no tinha tido fora suficiente para opor-se.
       Jane conduziu at a lavanderia e lavou sua roupa suja em quatro mquinas de uma vez. Sob a roupa levava umas calcinhas comuns. Embora importava bem pouco, esse detalhe ilustrava sua vida naquele momento.
       Enquanto observava a roupa dar voltas na secadora, Darby chamou a seu telefone mvel para lhe pedir conselho. Ao que parecia, tambm ele tinha perdido o corao pela pessoa equivocada.
       Acha que Caroline gostaria de sair comigo? perguntou.
No sei. Como foi tomar um drink com ela? perguntou-lhe, apesar de que Caroline lhe tinha chamado a manh seguinte para lhe contar todos os detalhes.
       O encontro tinha comeado bem mas logo tinha cansado.
       Acredito que no a impressionei muito.
       Contou-lhe que pertence ao MENSA...
       Sim, e o que?
Disse-te que no o fizesse. Ns que temos um coeficiente intelectual padro ns no gostamos de ouvir falar de seu enorme crebro.
       Por que?
       Jane ps os olhos em branco.
Voc gostaria de ouvir o Brad Pitt falando de quo bonito ?
No  o mesmo.                                                  
-	Sim que o .
No. Brad Pitt no precisa falar de quo bonito . Todo mundo pode apreci-lo.
       Jane teve que admitir que estava no certo a respeito do Brad.
De acordo. O que te parece uma estrela porn? Voc gostaria de ouvir falar com uma estrela do porn de seu enorme pacote?
       No.
       Jane passou o telefone  outra orelha.
Olhe, se quer impressionar a uma mulher, e em particular ao Caroline, no lhe diga quo preparado . Deixa que sua inteligncia se manifeste de maneira sutil.
No me dou muito bem  com a sutileza disse ele, e no estava brincando. 
A Caroline a impressionam os tipos que sabem o que quer e no precisam ficar falando de si.
       Isso no  de maricas?
       E uma camisa com chamas e caveiras estampadas, no  ? 
       No. Leva-a algum lugar bonito.
       E aceitar?
Voc prope um lugar realmente bonito. Caroline adora vestir-se bem. Refletiu por um instante e perguntou:  membro do Columbia Tower Clube?
        Sim.
       Tinha-o suposto.
Leva-a ali. Isso lhe dar uma razo para vestir o vestido do Jimmy Choos que acaba de comprar. E se comear a falar de sapatos e de moda, fnge estar interessado.
       Estou muito interessado em desenhistas de moda disse ele. 
       Jane sorriu. 
       Boa sorte.
       Depois de desligar, chamou Caroline no Nordy's e a avisou que Darby ia cham-la. Surpreendeu-se de que seu amiga no pusesse grandes reparos a um encontro com ele.
Pensei que te tinha arrasado com seu bate-papo sobre o MENSA lhe recordou Jane a seu amiga.
 Mas tambm me fez graa respondeu Caroline, e Jane decidiu que o melhor era manter-se  margem. Como no demorou para recordar-se, tinha seus prprios problemas.
       Essa noite, na partida entre os Chinooks e os Lightning, Luc apenas prestou ateno em Jane quando o chamou de pedao de tolo. No se meteu com ela nem lhe recordou a noite que tinham passado juntos. No gol, esteve quase perfeito, detendo os tiros com suas rpidas mos e seu longo corpo. A partida acabou em empate, e logo no quis colocar Jane em um quarto da limpeza nem beij-la at perder a cabea.
       Tampouco o fez duas noites depois, quando contra os Oilers conseguiu manter a portaria a zero pela sexta vez nessa temporada. No vo a Detroit  manh seguinte, apenas lhe deu uma olhada quando passou por seu lado, e para ela se fez evidente que Luc tentava evit-la na medida do possvel. Perguntou-se o que teria feito para que ele tivesse essa atitude, e analisou uma e outra vez a conversar que mantiveram no quarto da limpeza. A nica coisa que lhe ocorreu foi que Luc tinha descoberto o que ela sentia por ele e tentava sair correndo na direo contrria. Pintou os lbios de vermelho e comprou uma blusa vermelha s por ele. Era uma mulher pattica, pensou. Luc lhe disse que tinha tido fantasias com ela imaginando que o fazia o amor sobre a mesa da sala de imprensa e tinha acreditado. Que tola tinha sido!
       E depois ele tentava evit-la de tudo, e ela estava surpreendida do muito que lhe doa sua atitude. Fizeram amor e ela acreditava que o tinham feito realmente bem. No lhe tinha pedido nada, e ele a tinha metido no quarto da limpeza e lhe tinha feito acreditar que queria algo mais que uma noite de paixo.
       Tinha acrescentado que no a via como a uma de suas admiradoras, mas o fato era que de repente a tratava como se fora uma qualquer. A Jane no s doa, mas tambm a irritava. Irritava-a at tal ponto que o fazia odi-lo. Inclusive chegou a pensar que o melhor seria deixar o trabalho para no ter que enfrentar a seu desinteresse. Mas segundos depois se disse que no ia prejudicar a si mesma por culpa de um homem. Nem sequer pelo homem que amava com todo seu corao. Nem sequer quando cada vez que o visse se sentisse desventurada.
       Uma vez em sua habitao esse mesmo dia, tentou escrever uma azeda coluna da Solteira na cidade, mas em lugar de escrever ficou olhando o lago Michigan de sua janela. Sua relao com Luc teria acabado igualmente, disse-se. Melhor logo que tarde. Como mnimo, desse modo no se sentiria culpada pelo artigo do Bombonzinho de Mel. Mas isso no tranqilizou sua conscincia.
       Umas quantas horas depois, ao ver que o telefone no soava, tentou convencer-se se dizendo que Luc estava muito ocupado com as coisas da equipe para ligar. Ou para encontrar-se com uma de suas bonequinhas Barbie. No queria pensar nele com outra, mas no podia evit-lo. E ao imaginar Luc beijando ou tocando a uma mulher que no fosse ela temia enlouquecer.
       As seis da tarde, encontrou-se com Darby em um dos restaurantes do hotel. Ao longo do jantar, bebeu dois martinis enquanto lhe escutava falar de Caroline.
       Depois do jantar, foram ao bar do hotel. Cinco dos jogadores dos Chinooks estavam sentados bebendo cerveja, comendo algo, e vendo como os Denver davam aos Kings um repasse. Luc estava entre eles. Ao v-lo, sentiu apreenso e alvio de uma vez. No estava com nenhuma Barbie.
       Ol Piralha a saudaram. Todos menos Luc.
       Seu cenho franzido e o frio olhar de seus olhos azuis lhe fizeram saber que Luc no se alegrava de v-la, o que a desencorajou ainda mais.
       Sentou-se entre o Daniel e Fish, e teve muito cuidado de no cruzar o olhar com o Luc. Temia que todos os jogadores sentados  mesa descobrissem que estava apaixonada pelo por goleiro. Que ele tambm se desse conta e se mostrasse inclusive mais distante, o que com toda probabilidade era impossvel.
       Entretanto, no podia obrigar-se a fazer caso omisso dele, e acabou olhando para o outro lado da mesa.  exceo de seu intenso olhar, que parecia disposto a atravessar o crebro de todo aquele que ficasse diante. Alargou o brao para agarrar seu copo e bebeu um gole de gua. Manteve um cubo de gelo na boca e uma gota ficou pendurando do lbio. Sorveu o gelo e ela afastou o olhar.
Tenho lido sua coluna Solteira na cidade lhe disse Fish. Acredito que est certa ao dizer que os meninos bons so os que acabam levando o gato  gua. Eu sou um menino bom, e tive que deixar minha casa no Mercer a minha ex algema.
Isso foi porque te pegou com outra mulher lhe recordou isso Sutter a judiou muito.
Sim, no me recordo grunhiu isso Fish, e olhou pra Jane. O que est escrevendo agora?
       Jane no tinha nada entre mos. Nada sobre o que queria falar, em qualquer caso, mas disse:
       Encontros de uma noite so boa idia? perguntou.
       Arrependeu-se imediatamente.
Eu acredito que sim reps Peluso do outro extremo da mesa. 
       Sim.
       Eu acredito que sim.   
A menos que esteja casado apontou Fish. No estar pensando em experiment-lo, verdade?
       Ela encolheu de ombros e se forou a mostrar-se distante e fria. Alheia. Como um homem.
Estou dando voltas no assunto. H um jornalista esportivo de Detroit que no  nada mal. Falei com ele a ltima vez que estive ali.
       Luc ficou em p, e lhe viu aproximar-se do balco. Vestia uma camisa de raias azuis e brancas e tinha o traseiro embainhado em uns Levi'S.
       Se alguma vez necessitar ajuda com suas colunas, podemos te explicar o que pensam os tios na realidade disse Peluso.
       Jane preferia no sab-lo. Assustava-lhe muito.
Talvez lhe pergunte isso quando tiver claro o enfoque que quero dar  coluna.
       Estupendo.
       Jane elevou a vista justo para ver o Luc retornar com os dardos.
Deve-me a desforra lhe disse. Joguemos com as mesmas regras da vez anterior.
       Acredito que noreps ela.
Pois eu sim. Agarrou-a do brao e a fez levantar-se. Escolhe os que lhe paream melhores acrescentou lhe pondo os dardos na palma da mo. A seguir lhe sussurrou ao ouvido: No me obrigue a arrast-la at a linha.
       Seu olhar tinha um brilho feroz, louco. De acordo. J que no podia lhe chutar o traseiro, daria-lhe uma boa surra com os dardos.
Recorda as regras disse Luc enquanto ela examinava os dardos. Depois no poder chorar como uma menina se perder.
No poderia ganhar nem em seu melhor dia. Jane meneou a cabea e escolheu os trs melhores dardos. Este no  um esporte para joaninhas como voc, Martineau, e aqui no tem casco nem companheiros que lhe protejam.
       Isso foi um golpe baixo, Piralha lhe disse Sutter.
       Assim  como vocs falamreplicou Jane.
       O que disse no est bem assinalou Fish.
Na ltima vez, moos, chamaram-me lsbica lhes recordou. Todos encolheram de ombros. Jogadores de hquei... disse e percorreu a distncia que a separava da zona de dardos. Roou o brao de Luc com o ombro e sentiu o contato em todo seu corpo. Ampliou a distncia entre eles.                                                                
O que est fazendo aqui com ele? perguntou Luc quando se detiveram na linha.
       Com quem?
       Com Darby.
       Jantamos juntos.
       Est se deitando com ele?
       Se no tivesse se sentindo to contrariada, Jane se teria posto a rir.
       No  seu assunto.
       E o que h com o jornalista de Detroit?
       No havia nenhum jornalista de Detroit, mas no ia dize-lo.
       O que tem ele?
       Est se deitando com ele?
Acreditei que no se interessava com quem me deitava ou em que posies prefiro faz-lo.
       Ele a olhou fixamente, depois disse entre dentes:
       Comea a atirar de uma maldita vez.
       Jane elevou a vista para olh-lo nos olhos, que pareciam lanar chamas azuis, como quando um adversrio pretendia lhe fazer um gol. Era evidente que estava zangado com ela.
Se afaste lhe disse quando se preparou para lanar o primeiro dardo. Vou dar uma surra. No primeiro lanamento conseguiu um dobro e acabou anotando oitenta pontos em total.
       Luc anotou quarenta e entregou os dardos com brutalidade.
       A luz aqui  uma merda.
No. Ela sorriu e, com grande prazer, acrescentou: Casulo.
       Ele entreabriu os olhos.
       As conseqncias de semanas de raiva e dor afloraram sem que nenhum dos dois pudesse nem quisesse evit-lo.
       Pior ainda... acrescentou Jane.  um rabugento.
       Os companheiros de Luc soltaram um assobio.
       Lucky vai comer vivo a Piralhadisse Sutter.
       Por acordo tcito, ambos foram a seus respectivos lugares. Jane lanou para anotar sessenta e cinco. Luc anotou trinta e quatro.
Me refresque a memria. Por que lhe chamam Lucky, o afortunado? perguntou Jane, mordaz, enquanto ia em busca dos dardos.
       Ele os arrancou do alvo lentamente, ao tempo que aparecia em sua boca um sorriso licencioso. Um sorriso que fez Jane que estava recordando-a de joelhos beijando sua tatuagem.    
Estou seguro de que, se te esforar, obter a resposta por voc mesma.
No. Jane negou com a cabea. H coisas que no vale a pena recordar.
       Estendeu a mo e ele depositou os dardos em sua palma.
       Em lugar de ir onde estavam seus companheiros, Luc ficou junto  ela e lhe disse:
       Poderia fazer lhe recordar isso.
No, obrigado disse ela. A seguir obteve um triplo oito e um triplo vinte. Uma vez foi suficiente.
Ah sim? disse ele. Ento, por que o fizemos trs vezes?
Que problema tem? Olhou-o por cima do ombro. Seu ego necessita um pouco de estmulo esta noite?
       Sim. Entre outras coisas.
       Luc tinha decidido falar com ela, seguro de que cairia rendida a seus ps e voltaria a beijar sua tatuagem. Foi um engano de clculo.
       No me interessa. Procure outra.
No quero a ningum mais. Suas palavras pareceram uma tenra carcia quando acrescentou: Quero voc, Jane.
       A raiva desapareceu, dando passo a uma profunda dor. Jane sentiu um n no estmago e que lhe dava um pulo o corao. Antes de voltar a chorar como uma menina, entregou-lhe os dardos.
       M sorte disse antes de voltar-se e sair do bar. 
       Chegou a sua habitao no andar vinte e um antes de que lhe rabiscasse a viso. No queria chorar diante de Luc Martineau, disse-se enquanto enxugava os olhos com um leno de papel. Dez minutos depois de chegar a sua habitao, ele chamou a sua porta com fora. Temendo que o estrondo alertasse os de segurana, deixou-lhe entrar.
O que quer, Luc? perguntou com os braos cruzados, marcando as distncias.
       Ele entrou na habitao e a obrigou a retroceder uns quantos passos.
       Voc respondeu enquanto fechava a porta a suas costas.
       No me interessa.
       Luc se aproximou tanto dela que os antebraos de Jane lhe roaram o peito. Estava invadindo seu espao de maneira deliberada, e ela seguiu recuando para o outro lado da habitao, longe do perfume de sua colnia.
Disse-me que no pensava em mim como se fosse uma mais, mas assim  como faz que me sinta.                      
Lamento-o. Luc baixou a vista. No queria que se sentisse assim.
J  muito tarde. No pode ir pra cama comigo e depois me deixar de lado, como se no fosse ningum.
Nunca pensei que no fosse ningum. Voltou a olha-la de frente com seus profundos olhos azuis. No deixei de pensar em voc nem um instante, Jane.
       Quando? Enquanto estava com outras mulheres?
       No estive com ningum desde que estive contigo.
       Jane se sentia aliviada, mas ao mesmo tempo furiosa.
       Pensava em mim enquanto tentava me ignorar?
       Sim.
       E quando fugia?
Em todas essas ocasies e em todos os momentos intermdios.
       Sim, claro.
Estive pensando em voc, Jane, juro-lhe isso. Avanou para ela at deter-se poucos centmetros de seu corpo. Todo o tempo.
       Semanas atrs lhe havia dito exatamente o mesmo, e tinha acreditado. Mas desta vez no.
J conheo essa histria, e no acredito replicou ela, mas algo no profundo de seu ser queria acreditar. Mau sinal. Deu um passo atrs e se chocou contra o borda da cama.
 verdade. Dormindo ou acordado, no posso te tirar da minha cabea. Agarrou-a pelos ombros e a obrigou a deitar-se na cama.  uma complicao desnecessria para mim. Colocou as mos a ambos os lados da cabea de Jane e o joelho entre suas coxas. Mas  a complicao que quero, que vou assumir.
       Jane apoiou suas mos sobre o peito de Luc para det-lo. Atravs do algodo de sua camisa sentiu o calor que desprendia seu peito.
       No acredito que saiba o que quer.
Sim sei. Quero voc, e estar com voc  um milho de vezes melhor que estar sem. No vou lutar mais contra isso. Beijou-a entre as sobrancelhas. No vou lutar contra o que sinto por voc.  uma batalha perdida, e no vou libera-la.
       Aquelas palavras fizeram que a raiva que Jane sentia se desvanecesse, mas o medo seguia oprimindo seu corao.
O que  o que sente? perguntou, embora no estivesse completamente segura de querer conhecer a resposta.
       Luc lhe roou a fronte com os lbios.
       Sinto como se me tivesse golpeado entre os olhos com um stick.
       No havia dito que estava apaixonado por ela, mas o de sentir-se golpeado por um stick na cabea soava bastante bem. Em lugar de afastar-lo de seu lado, acariciou-lhe o peito com as mos.
       E isso  bom?
       No o parece. Converteste minha vida em um caos.
       Gostou de ouvir isso, porque ela tambm se sentia enterrada no caos. Tentou manter-se na lembrana a dor, mas o que fez foi lhe tirar a camisa das calas. Olhou-o nos olhos e depois contemplou sua boca.
       Como te fez essa cicatriz no queixo? perguntou-lhe.
       Ca da bicicleta quando tinha uns dez anos.
E a da bochecha? Ela deslizou as mos sob sua camisa e lhe tocou os marcados msculos e a carne escura.
Uma briga em um bar, quando tinha vinte e trs anos respondeu ele em voz muito baixa. Alguma outra pergunta antes que te dispa?
       Doeu-te quando lhe fizeram a tatuagem?
No o recordo. inclinou-se sobre ela e a beijou. Estava bastante perdido naquela poca.
       Silenciou qualquer outra pergunta com um beijo que foi fazendo-se mais e mais profundo. O beijo foi suave, carinhoso, mas Jane no estava de humor para suavidade e carinho. Fez-lhe rodar sobre a cama e se colocou em cima dele, como se tratasse de uma montanha que j tinha conquistado, mas que estava disposta a explorar outra vez. O beijo se fez mais apaixonado  medida que lhe desabotoava a camisa. Com as mos sob a cabea, Luc observou Jane enquanto ela percorria seu corpo com as mos e a boca. Ao chegar a seus ombros, lhe afastou o cabelo do rosto e a atraiu de novo para si para beij-la. Ento foi ele quem a fez rodar at deix-la de barriga para cima e a despiu enquanto a beijava: os ombros, o pescoo, os seios. Jazeram abraados, e quando j no puderam resistir mais, ela desenrolou um preservativo em seu ereto membro e de novo se colocou escarranchada sobre ele. Quando Jane desceu para encaixar-se nele, Luc elevou os quadris para entrar at o mais profundo de seu interior.
       Jane sussurrou, no se mova.
       Ela apertou os msculos ao redor de Luc, de cujo peito brotou um gemido. Luc fechou os olhos, e quando voltou a abri-los, a luxria brilhava nos olhos de Jane. Ele deslizou uma mo por sua nuca e com a outra a agarrou pelo quadril enquanto a beijava nos lbios com doura. Sua lngua logo roou a de Jane. Percorreu suas costas com uma mo e voltou a baix-la at quadril, acariciando-a, acendendo um poderoso fogo em seu interior. Jane afastou sua boca ao tempo que Luc acelerava o ritmo de seus movimentos. Em seus olhos azuis se refletia a paixo. Sussurrou seu nome como se de uma suave carcia se tratasse. A ardente tenso de seu interior fez que Jane apertasse com fora at chegar ao clmax em um arrebatamento incontrolvel de prazer.
       Seu orgasmo excitou ainda mais Luc, que cravou os dedos nos quadris de Jane enquanto entrava e saa dela sem parar, cada vez com maior intensidade at chegar ao orgasmo.
       Jane desabou em cima de Luc, e ele a abraou com fora, respirando de forma entrecortada. Apertou-a contra seu peito suado como se quisesse ret-la ali.
Meu Deus sussurrou ao ouvido de Jane respirando com dificuldade. Foi melhor que a ltima vez. E a ltima vez foi sobressalente!
       Ela assentiu com a cabea; estava muito entusiasmada para falar. Tinha passado algo. Algo diferente. Algo melhor. Algo que ia mais  frente do prazer fsico. Algo que no podia descrever.
       Jane.
       ---Sim?
       Nada. S queria me assegurar que continuava viva.
       Ela sorriu e lhe deu um beijo no pescoo. Esse algo devia dizer que ele tambm a sentia em seu interior. No era to tola para dizer que se tratava de amor. Mas era algo. Ficou com isso, porque, fosse o que fosse, era muitssimo melhor que no ter nada absolutamente.





16

Apagar as luzes

       A tarde seguinte, quando Jane entrou nos vestirios do Joe Louis Arena, suas emoes seguiam enterradas no caos. Luc passou a noite em sua habitao, e tomaram o caf da manh na cama antes que ele fosse se treinar. Ele a beijou, acariciou-lhe o cabelo e lhe disse que se veriam depois. Mas de verdade lhe alegraria voltar a v-la?
Ol, meninos disse enquanto caminhava para o centro do vestirio.
       Ol, Piralha.
       Enquanto os jogadores vestiam seus uniformize, ela pronunciou depressa seu discurso enquanto lanava olhares de esguelha a Luc, que estava conversando com o treinador de goleiros e no parecia haver-se precavido de sua presena.
       Deu a mo ao Bressler.
       Boa sorte com a partida, Assassino.
Obrigado. Bressler se deu um golpezinho na mandbula e estudou o rosto de Jane. Hoje parece diferente acrescentou.
       Ps-se um pouco de rmel, tambm um pouco de maquiagem para cobrir as olheiras, e tinha pintado ligeiramente os lbios de cor rosa. Esperava que ele se fixasse nisso e no em seu arroubo.
       E  para bem? ,
 	----Sim.
       Fish e Sutter se uniram ao capito e tambm a elogiaram. Quando foi para Luc, todos seus medos e seus desejos amorosos se mesclaram formando um n em seu estmago.
       Luc estava de p frente a sua bilheteria falando ainda com o treinador de goleiros, e quando ela se aproximou, olhou-a por um instante com o canto do olho e voltou a fixar sua ateno no treinador, que nesse momento estava lhe dizendo:
O tcheco sempre dispara da parte alta. Se te colocar gol ser da.Passou a pgina de sua caderneta. E Federov cortar em diagonal e disparar de perto da parte esquerda do crculo.
Obrigado, Dom disse Luc, e se voltou para Jane quando o treinador de goleiros se afastou.
       O que lhe disseram Fish e Sutter? quis saber.
 	Disseram-me que esta noite parecia mudada. 
       Incomodaram-lhe?
       No. Pedao de tolo.
       Ele olhou ao redor e disse: 
       Estive pensando.
       OH, OH.           
       Luc baixou a voz.
Pensei que para me dar sorte deveria beijar minha tatuagem antes de cada partida.   
Jane tossiu para evitar soltar uma gargalhada.
Acredito que estou comeando a sofrer perseguio sexual.
       Ele esboou um sorriso malicioso.
        obvio. O que opina? Quer beijar minha tatuagem?
Nem pensar respondeu ela, e se voltou antes que algum pudesse ouvir a conversar.
       Chegou  cabine de imprensa e se sentou junto a Darby. Este lhe disse que estava fazendo alguns progressos com certas sugestes que estava levando a  cabo e lhe falou de um defesa que esperava poder contratar antes da data limite para os transpasses, em 19 de maro, para a que faltavam quatro semanas.
Caroline diz que sair comigo quando voltarmos  cidade acrescentou depois de falar de seus negcios. 
       Aonde vais leva-la? 
 Columbia Tower Clube, tal como sugeriu. Ela observou sua gravata com estampa de pimenta-malaguetas muito curta e sorriu. Caroline tinha decidido converter ao Darby Hogue em seu seguinte conserto de altos vos, e tinha o trabalho ideal para faz-lo. Jane tirou seu bloco de papel e tomou algumas notas, tambm anotou sua entrevista na agenda. Assim que comeou a partida, ligou seu computador porttil.
       Luc deteve vrios disparos de forma espetacular. Cobriu os ngulos com brilhantismo, e Jane teve que fazer um esforo para concentrar-se no jogo em lugar de faz-lo no goleiro dos Chinooks.
       Essa noite, no avio em que viajava a equipe, a caminho de Toronto, ela escreveu sua crnica para o Seattle Times. Durante o vo, sentiu que Luc a olhava, e ela tambm o olhou um par de vezes. Estava apoiado contra a parede do avio, com as mos detrs da cabea, observando-a trabalhar. Perguntou-se o que estaria pensando, e decidiu que, provavelmente, fosse melhor no sab-lo.
       Ela seguia sem saber o que era esse algo que tinha mudado em sua relao sexual na noite anterior. Perguntava-se se o tinha imaginado, quando Luc foi ao seuu quarto de hotel, pegou sua mo e a levou a seu proprio quarto. Passou umas quantas horas em sua cama tentando fazer-se  idia. No teve xito essa noite, por isso voltou a tent-lo em Boston, em Nova Iorque e em So Luis. Quando voltaram a estar juntos em Seattle, ela j estava cansada de tentar descobrir no que consistia esse algo e decidiu que no voltaria a analisar uma e outra vez cada palavra e cada gesto. Ia seguir adiante enquanto durasse.
       Tinha tentado no apaixonar-se por Luc, e tinha perdido. Contrariamente ao que ditava o bom julgamento, estava-se deitando com ele. E o estavam fazendo s maravilhas. Suas sesses sexuais punham em perigo seu trabalho, mas sabia que no podia evit-lo apesar das conseqncias que isso poderia supor para sua carreira ou para seu corao. Estava apaixonada por ele e no tinha outra alternativa. Ao longo das seguintes semanas, seu amor cresceu e se expandiu at encher sua vida. De corpo e alma. Estava muito apanhada para livrar-se desse sentimento.
       Uma manh, pouco depois de sua volta de So Luis, chegou a casa com as bolsas da roupa limpa e encontrou ao Luc esperando-a no alpendre. O cu era da mesma cor azul que os olhos do Luc. Parecia levar um pster que rezava: Perigoso para sua sade. Deu-lhe um beijo de boas vindas e a ajudou com as bolsas da roupa. Depois a levou at sua moto, que tinha estacionada na calada.
Com isto ningum ver teu rosto lhe disse mostrando um capacete. Assim no ter que preocupar-se de minha m reputao.
       Se no lhe tivesse conhecido to bem, teria pensado que se sentia ofendido.
No me preocupa sua reputao, a no ser o fato de que as pessoas dem por certo que me deitei contigo para conseguir a entrevista.
       Tinha pensado falar contigo a respeito disso.
       Por que?
       Fixou a correia do capacete de Jane em sua mandbula e roou com os dedos sua garganta.
       Disse que sou distante.
       ---E o que?
No sou distante. O que passa  que no concedo entrevistas.
       Ela arregalou os olhos.
       O que te pareceu o resto do artigo?
       Ele a beijou nos lbios.
Na prxima vez que falar da rapidez de minhas mos, poderia dizer algo a respeito de quo grandes so. E tambm meus ps.
       Ela riu.
       Grandes ps. Grandes mos. Grande... corao.
       Isso.
       Jane se acomodou na moto, detrs dele, e partiram rumo s cataratas do Snoqualmie. No fazia precisamente calor, e Jane usava jeans, um pulver e um jaqueto para um passeio de trinta minutos. As cataratas no eram nada novo para ela. Tinha estado ali umas quantas vezes, quase sempre em excurses escolar, mas nunca se deixou impressionar pelo fascinante poder e a beleza daquele salto de gua de oitenta metros de altura.
       Estavam sozinhos na plataforma de observao, Luc detrs dela e com os braos ao redor de seu corpo. O sol da tarde formava um arco ris na cortina de gua que havia em cima deles. Sob seus ps, a plataforma tremia devido s foras da natureza. Entre os braos de Luc, Jane sentia que lhe tremia o corao.
       Ele apoiou seu queixo na cabea de Jane, e falaram da cascata e da temporada de hquei. Os Chinooks tinham ganhado quarenta das sessenta e uma partidas que tinham disputado, e a menos que ocorresse uma catstrofe antes de 15 de abril, virtualmente tinham uma praa assegurada nos playoffs. A percentagem de paradas do Luc tinha subido at um impressionante 1,96, o melhor de sua carreira.
       Falaram de Marie, que parecia ter feito amizades e haver-se adaptado um pouco mais a viver em Seattle com um irmo ao que at fazia uns meses logo que conhecia. Falaram do internato, e que ele ainda no tinha tomado uma deciso a respeito. E falaram de suas respectivas infncias e, para sua surpresa, Jane se inteirou de que Luc no tinha sido rico e famoso toda a vida.
Conduzia uma caminhonete enferrujadadisse. Economizei durante um ano para comprar uma equipe de msica e umas abas para o pra-lama nos que saa fotografada uma garota do Playboy. Acreditei que era algum. Por desgraa, era o nico em acredit-lo.
No posso acreditar que no fosse um paquerador no colgio.
Dedicava-lhe muito tempo ao hquei para ligar. Tive alguns enrroscos. Mas provavelmente voc teve mais encontros que eu.
       Ela se ps a rir.
Meu penteado era um desastre, por no falar de minha roupa, e conduzia um Mercury Bobcat com um arame a modo de antena.
       Ele a apertou contra seu forte peito.
       Eu teria sado com voc.
       Ela o duvidava.
No acredito. Eu no teria sado com alguma f aficionada parecida com modelos da playboy.
       Comeram algo no Salish Lodge, que se tinha feita fama graas  srie de televiso Twin Peaks. Sob a mesa, ele a agarrou pela mo enquanto lhe sussurrava coisas inapropriadas para ver como lhe avermelhavam as bochechas. De volta pra casa, Jane lhe abraou por debaixo da jaqueta de couro, cruzando os dedos sobre seu ventre. Atravs da camisa pde sentir seus msculos, e atravs dos Levi's sentiu sua poderosa ereo.
Quando chegaram ao apartamento de Jane, ele a ajudou a descer da moto e quase a arrastou at a porta de entrada. Luc jogou seu capacete e sua jaqueta sobre o sof.
Vais arrepender de ter ficado me esquentando na ltima meia hora.
       Ela abriu muito os olhos ao tempo que se tirava o jaqueto e o lanava junto  jaqueta de Luc.
       O que vais fazer? Me preparar o jantar?
J jantamos. O que vou fazer  te dar algo melhor que comida.
       Ela riu.
       O que pode ser melhor que um hambrguer do Salish?
       A sobremesa.
       Sinto muito, no tomo sobremesa. Engorda.
Bom, pois hoje far uma exceo. Luc tomou a o rosto de Jane entre suas mos. Vou ser a cereja de seu bolo.
       E foi. Vrias vezes, alm disso. Duas noites depois, convidou-a a seu apartamento para comer com Marie. Enquanto ele preparava o salmo, Jane ajudou a sua irm com os deveres de ingls. Ao longo da tarde, s se produziu um momento de tenso quando Luc obrigou Marie a beber leite.
Tenho dezesseis anos argumentou a garota. No preciso beber leite.
       Quer ficar baixa e fraca? perguntou-lhe ele.
       Marie entreabriu os olhos.
       No sou baixa nem fraca.
       Agora no, mas pensa em tia Louise.
       Evidentemente, a tia Louise devia ser pouco menos que um monumento a osteoporose, porque sem acrescentar nada em sua defesa, Marie bebeu o copo de leite. Luc centrou ento sua ateno em Jane. Observou seu copo de leite.
       Eu j sou baixa e fraca disse ela.
Embora seja baixa, ainda pode perder altura. Um formoso sorriso iluminou o rosto do Luc, que agarrou seu copo de leite e o bebeu.
 noite antes a que partissem para uma excurso de dez dias, Luc foi a seu apartamento. Quando bateu na porta, ela estava escrevendo a ltima entrega do Bombonzinho de Mel e no estava se saindo muito bem. Em grande medida porque no deixava de pensar em Luc e lhe era muito difcil no inclui-lo na histria. Fechou seu computador porttil e lhe deixou entrar.
       Uma forte chuva tinha molhado seu cabelo e os ombros de sua jaqueta. Remexeu no bolso e tirou uma caixinha branca do tamanho da mo de Jane.
       Vi isto e pensei em voc disse.
       Ela no tinha nem idia do que podia tratar-se. No estava acostumada a receber presentes dos homens, exceto lingerie barata. Sempre tinha acreditado, alm disso, que essa classe de obsquios estavam mais pensados para o que os fazia que para quem os recebia.
       Dentro da caixa, envolta em fino papel branco, havia um pequeno tubaro de cristal. Nem roupa intima comestvel nem calcinhas abertas na frente; era o presente mais atento que lhe dado um homem. E a comovou mais do que nunca.      
       Eu adoro disse estendendo-o para a luz.
       Um arco ris de cores apareceu sobre a jaqueta do Luc e sob garganta.    
       No  grande coisa.
       Estava equivocado. Muito equivocado. Jane fechou a mo ao redor dos retalhos de luz, mas no pde abranger o amor que sentia nesses momentos no centro de sua alma. Quando o viu baixar o zper da jaqueta e joga-la sobre o sof soube que tinha que lhe contar sobre do Bombonzinho de Mel. Devia lhe advertir e depois fazer o amor com ele. Mas se o dizia, corria o risco de perd-lo, essa mesma noite.
       No podia dizer-lhe Em caso de faz-lo, ele provavelmente pusesse fim a sua relao, e por outro lado no podia permitir que ningum dispusesse de semelhante informao. Assim guardou silncio. Ficou com aquilona cabea, onde faria que seguisse lhe remoendo a conscincia, enquanto tentava convencer-se de que, possivelmente, no lhe pareceria mal a histria.
       No havia tornado a l-la desde que a enviou. Talvez no fosse to bvia como ela a recordava. Jogou os braos ao pescoo de Luc. Queria lhe dizer que o lamentava e que lhe amava.
       Obrigado disse. Eu adoro.
       Depois dessas palavras, levou-o a dormitrio e lhe pediu desculpas do nico modo que pde.
       Quando chegou por fim a primeira semana de maro e Luc seguia sem saber nada do Bombonzinho de Mel, comeou a relaxar-se. Em Los Angeles, disse-lhe que no podiam fazer o amor porque veio a regra e no se encontrava muito bem. Ele chegou a seu quarto depois do treino, levando consigo uma balde com gelo em uma mo, e um pacote de M&M's cheios de amendoim na outra.
       - Comprei os doces que voc gosta.
       A noite que a pegou com o pijama de vaquinhas estava comprando M&M's com amendoins. Acordou-se. Ela se ps-se a chorar.
Que demnios aconteceu? perguntou-lhe Luc enquanto derrubava o gelo sobre uma toalha.
Estou um pouco sensvel e chorona respondeu ela, mas se devia a outra coisa muito mais importante.
       Sentaram-se juntos apoiados na cabeceira, e ele colocou um travesseiro sob seu joelho esquerdo e ps em cima deste o gelo. 
       Voc machucou o joelho disse Jane, como tantas vezes.
       Tomou-se vrios Advils.
       S o esquerdo, nesta ocasio. E s um pouquinho.
       Sem dvida era algo mais que um pouquinho, pois se tinha levado o gelo consigo. Durante a entrevista em seu apartamento lhe havia dito que sua velha leso no lhe incomodava. Mas naquele momento no confiava em Jane o suficiente para lhe permitir comprovar o que tinha estado lhe perguntando desde que se conheceram. Seus joelhos lhe incomodavam s vezes. Ela se sentou a seu lado e lhe agarrou a mo.
       O que aconteceu? perguntou.
       Nada respondeu Jane.
       Conheo esse olhar, e sei que ocorre algo.
       Ela tentou esboar um sorriso, mas no o conseguiu.
       Sabe algum mais que te incomoda o joelho?
No. O olhar do Luc se posou na boca de Jane e depois subiu at seus olhos. No vai dizer a ningum, verdade?
       Ela apoiou a bochecha em seu ombro.
Seu segredo est a salvo comigo, Luc. Nunca direi a ningum.
Sei, ou no estaria aqui. Deu-lhe um beijo nos lbios, e ela se apertou contra ele. Talvez sua relao pudesse funcionar. Ele confiava nela, e apesar de que isso a fazia sentir um pouco culpada, tambm lhe dava esperanas pela primeira vez desde que tinham comeado a ficar juntos.
       Possivelmente no tivesse por que acabar. Possivelmente Ken nem sempre escolhesse uma Barbie. Possivelmente no final, escolhesse-a a ela.

       Luc meteu na boca a ltima bolacha salgada e se recostou na cadeira. Ao outro lado da mesa, Assassino estava dando conta de um prato de asinhas de frango. Luc afastou o olhar do capito e o dirigiu para a entrada do bar do hotel.
       Fora, o sol de Phoenix luzia na metade do cu e a temperatura alcanava os trinta graus. Alguns dos moos estavam sozinhos, outros formavam grupos, e Jane se encontrava em sua habitao escrevendo a coluna Solteira na cidade. Havia-lhe dito que se encontrariam no bar quando acabasse. Disso fazia uma hora, e ele comeava a sentir-se tentado de ir a sua habitao. Mas no o fez, porque no acreditava que gostasse da idia, e embora estivesse impaciente, respeitava seu trabalho.
Inteiraste-lhes que suspenderam ao Kovalchuck? perguntou Assassino enquanto limpava os dedos com o guardanapo.
       Quantas partidas?
       Cinco partidas.
Azarento disse Fish, que estava sentado junto ao capito da equipe. Embora eu j tenha visto sanes piores.
       Daniel Holstrom e Grizzel se uniram a eles, e a conversar se centrou nas piores sanes da NHL, lista encabeada pelo jogador dos Chinooks, Rob Sutter. Manchester e Lynch aproximaram suas cadeiras  mesa e se comeou a falar a respeito de quem ganharia em uma hipottica briga entre o Bruce Lee e Jackie Chan. Luc apostava pelo Bruce Lee, mas tinha outras coisas na cabea e no entrou no debate. Voltou outra vez o olhar para a porta do bar.
       O nico momento em que no pensava no Jane era quando estava entre as traves. De algum modo, ao meter-se na cama com ela, a meteu na cabea. s vezes sentia que Jane ocupava todo seu corpo, e lhe surpreendia que gostasse da sensao.
       No podia assegurar que estivesse apaixonado por ela, que experimentasse a seu lado o amor eterno, em um motivo de paz, na classe de amor que sua me nunca tinha encontrado e que seu pai jamais tinha procurado. S sabia que queria estar com ela, e que quando no estavam juntos no podia tirar-se a da cabea. Confiava em Jane o suficiente para hav-la deixado entrar em sua vida e na de sua irm. Desejava com todas suas foras que ela no trasse sua confiana.
       Gostava de observ-la, falar com ela e estar com ela. Gostava dos vaivens de sua mente, e gostava do fato de que podia ser ele mesmo a seu lado. Gostava de seu senso de humor e gostava de fazer amor com ela. No, adorava fazer o amor com ela. Adorava beij-la, toc-la e estar dentro dela, olhando seu rosto enrubescido. Quando estava em seu interior, no deixava de imaginar possveis maneiras de voltar a entrar. Era a nica mulher com a qual havia sentido algo assim.
       Adorava ouvir seus gemidos, e adorava o modo como ela o tocava. Adorava quando ela tomava o controle da situao e ele estava a seu servio. Jane sabia o que fazer com suas mos e sua boca, e adorava como o fazia.
       Mas a amava? Talvez, e lhe surpreendeu o que isso no lhe assustasse.
       Luc?
       Afastou o olhar da entrada e o dirigiu a seus companheiros de equipe. A maioria deles estavam detrs do Stromster, olhando a revista aberta que havia sobre a mesa.
       O que acontece?
       Daniel elevou o exemplar do Him. Estava estudando ingls outra vez. .    
       Viu isto? perguntou-lhe Grizzell.
       No.
       Daniel lhe mostrou a revista, aberta pela seo educativa favorita do sueco.
       L disse.
       Concentrou-se na leitura.

A vida do Bomboncito de Mel
       Um de meus lugares favoritos no mundo  o mirante do Space Needle de Seattle, quando j  de noite. E qualquer um que me conhea sabe do que eu gosto de verdade. Acabava de jantar no restaurante que h debaixo do mirante, deixando a minha entrevista dessa noite, um autntico cavalheiro, sentado na mesa esperando a que retornasse do lavabo. Usava meu pequeno vestido vermelho sem costas nem mangas, com o broche dourado na nuca e a fina cadeia de ouro pendurando na metade de minhas costas. Usava   sapatos de salto de oito centmetros, e gostava de algo mais que peixe-espada do Pacfico. Meu companheiro era bonito, como todos os homens. Mas no gostava de brincar por debaixo da mesa, assim estava comeando a me aborrecer. Todo um perigo para os homens de Seattle.

       Luc deixou de ler e olhou para a porta justo no momento em que entravam duas mulheres. No necessitou mais que um rpido olhar para saber que se tratava de um par de caadoras. Fez caso omisso delas e reatou a leitura.

       A porta do elevador que estava a minha esquerda se abriu, e um homem vestido com um smoking negro saiu dele. Percorri com o olhar os quatro botes de sua jaqueta at chegar a seus olhos azuis. Seu olhar posou em meus seios perfeitos, apenas cobertos pelo vestido vermelho. Esboou um sorriso de aprovao e, de repente, minha sada se fez muito mais interessante.
       Reconheci-o imediatamente. Jogava hquei. Era um goleiro de rpidas mos, clebre por sua mente lasciva. Eu gostava daquele homem. Um milho de mulheres em todo o pas fantasiavam com ele. Eu tambm, em um par de ocasies.
       Ol disse. Bonita noite para olhar as estrelas.
Olhar  uma de minhas atividades favoritas. Seu nome era Lucky, que eu achei apropriado, podia confiar em seu sorriso, porque me pareceu que acabava de ter um golpe de sorte.


       Luc se deteve e olhou seus companheiros.
Cristo bendito disse. No pode ser eu. Mas tinha o mau pressentimento de que sim o era.

       Inclinei-me para diante. A parte de atrs de meu vestido se elevou mostrando minhas longas e torneadas pernas, to prximas  idia do paraso. Olhei-lhe de esguelha e sorri. Seu olhar se cravou em meu decote, e tentei me sentir culpada pelo que ia fazer com ele. Mas a culpa e eu deixamos de nos relacionar faz j uns vinte anos, e tudo o que sentia era o palpitar que crescia em meu peito e entre minhas pernas.
       E a ti? Voc gosta de olhar?
Sou, mais bem dos que atuam. aproximou-se de mim e me afastou uma mecha do rosto. Parece-me mais interessante.
Eu gosto dos tipos ativos. De fato eu gosto de faz-lo em um monto de posies diferentes. Lambi meus vermelhos lbios. Interessa-te?
       Seus olhos azuis tinham um brilho sonhador quando posou sua mo em minhas costas e me acariciou com os dedos, fazendo que minha pele ardesse.
       Como te chama?
       Bombonzinho de Mel.
Eu gosto disse enquanto se colocava atrs de mim. Deslizou as mos por meu ventre e me sussurrou ao ouvido: Voc gosta das experincias diferentes, Bombonzinho de Mel?
       Joguei-me para trs e pressionei meu traseiro contra o que parecia um bom stick de vinte centmetros. Com suas talentosas mos me acariciaram os seios atravs do tecido do vestido e conseguiu que me excitasse.
       Fechei os olhos e arqueei as costas. Ele no sabia, mas estava perdido.
O ltimo homem com o que estive no conseguiu recuperar-se. Disso fazia um par de dias, e Lou seguia em coma depois de deix-lo atirado no elevador de servio do Four Seasons.
       O que lhe fez?
       Tirei-lhe todo o suco do corpo...                    
       Meus mamilos se endureceram contra as clidas palmas de suas mos, e me pus como uma moto. Ningum ia impedir que fizesse o que ia fazer com aquele grandalho jogador de hquei e seu poderoso stick.
Est-me deixando louco com esses lbios vermelhos e seu pequeno vestido. Mordeu-me no pescoo, e sussurrou em meu ouvido: Tem frio ou est excitada?
 
       Que demnios  isto? -disse Luc, perplexo. 

       Estava verdadeiramente brincalhona.
       Faz que me d vontade de te chupar, mais que de te beijar. 
O que? perguntei-lhe agarrando sua mo e levando-a a meu ventre?
       Fiz que me acariciasse por cima do vestido e de minha tanga vermelha.

       Atordoado, Luc deixou a revista e se tornou para trs na cadeira. Sentiu como se um disco tivesse batido contra sua cabea a toda velocidade. No podia acreditar o que acabava de ler. Era completamente impossvel. Estava imaginando coisas que, em realidade, no existiam.
       Conhece  Bombonzinho de Mel? perguntou Bressler.
       No respondeu Luc, mas havia algo familiar nela.
Agora  famoso brincou o capito da equipe. Continue lendo. Bombonzinho de Mel te deixou em estado de erupo.
       O resto dos meninos riram, mas Luc no via graa no comentrio. No, encontrava-o incomodado.
Por que ter escolhido voc? quis saber Fish. Ter te visto jogar e ter querido dar uma olhada de perto em seu stick.
       Luc sentiu que a raiva crescia em seu peito, mas se conteve e disse:
       Posso lhes garantir que no viu nada.
       A raiva s lhe faria sentir pior. Sabia por experincia prpria. Precisava esclarecer seus pensamentos. Sentia-se como se estivesse observando um desses quebra-cabeas que formam uma enorme fotografia uma imagem de sua vida, mas no qual todas as peas estivessem mescladas. Se conseguisse as pr em ordem, tudo voltaria a adquirir claridade.
Acredito que eu gostaria que Bombonzinho de Mel me deixasse em estado de erupo disse algum
       No  real comentou Lynch.
Tem que ser real argumentou Scott Manchester. Algum escreve essas histrias.
       A conversao passou rapidamente a centrar-se nas conjeturas a respeito de onde Bombonzinho de Mel podia ter visto Luc. Todos coincidiram em que devia viver em Seattle, mas no ficavam de acordo a respeito de seu sexo. Perguntavam se Bombonzinho de Mel teria conhecido j Luc, e se em realidade se trataria de um homem. O consenso geral ditava que se no era um homem, pensava como se fosse.
       A Luc importava bem pouco se Bombonzinho de Mel era em realidade um homem ou uma mulher. Passou os dois ltimos anos tentando livrar-se dessa classe de merda, e a estava de novo, avivando o fogo que ele tinha tratado de extinguir. S que nesta ocasio era pior que antes.
 uma inveno disse algum. Mas a Luc no o parecia. Parecia-lhe to familiar que lhe arrepiou o plo da nuca. O vestido vermelho. A parte em que falava dos mamilos eretos. O de ter frio ou estar excitada. As calcinhas vermelhas. A referncia ao chupar mais que beijar.
       Uma das peas do quebra-cabeas se colocou em seu lugar. Tinha que ser Jane. Algum lhes tinha estado espiando, mas no parecia possvel. Faz, que me d vontade de te chupar, mais que de te beijar... Luc recordava ter pronunciado essas palavras, ou outras muito parecidas, quando tocou sua suave pele. Na noite que usava o vestido vermelho, queria lhe deixar uma marca, um chupo. Acaso lhes tinham seguido? Moveu umas quantas peas mais do quebra-cabeas, mas continuava sem aparecer a imagem.
       Ol, meninos. O que esto fazendo?
       Luc elevou a vista das pginas da revista e se fixou nos olhos verdes de Jane. Tinha que dizer-lhe ou ia subir pelas paredes.
       Ol, Piralha disseram os moos.
       Jane viu Luc e sorriu. Depois reparou na revista e seu sorriso se congelou.
Ouviste falar da vida do Bombonzinho de Mel? lhe perguntou Sutter.
       Jane fixou os olhos em Luc.
       Sim. Ouvi falar.
       Bombonzinho de Mel tem escrito sobre Luc.
       Jane empalideceu.
       Esto seguros?
       Absolutamente.        
       Sinto muito, Luc.
       Luc ficou em p. Ela entendia o que significava isso para ele. Entendia o que seus companheiros no podiam entender. Uma vez que se escreve aquilo a respeito dele, citariam a histria do Bombonzinho de Mel e a usariam como desculpa para dissecar sua vida privada. Para escavar em assuntos que nem foram nem lhes vinham. Caminhou at ela e a olhou nos olhos.
       Encontra-se bem?
       Ela assentiu e depois sacudiu a cabea.
       Sem pensar sequer, Luc a agarrou do brao e saram do bar. Cruzaram o vestbulo e subiram no elevador. 
       -Lamento-o, Luc disse quase em um sussurro.
       No  sua culpa, Jane.
       Apertou o boto do andar planta de Jane, depois a olhou. Ela se tinha situado em um canto do elevador. Tinha os olhos midos e, de repente pareciam muito pequenos. Quando chegaram a sua habitao, as lgrimas rodavam por suas bochechas. Nem sequer lhe tinha falado de suas estranhas hipteses e ela j estava chorando.
Jane disse ele assim que fecharam a porta, sei que isto te soa muito estranho... Fez uma pausa para ordenar seus pensamentos. Nessa merda de histria do Bombonzinho de Mel, h certas coisas que esto muito perto da realidade para ser uma coincidncia. Coisas que descrevem o que voc e eu fizemos. No sei como pode saber tanto.  como se algum nos tivesse estado observando e tivesse tomado notas.
       Ela se sentou na borda da cama e colocou as mos entre os joelhos. Permaneceu calada e ele continuou.
Seu vestido vermelho, por exemplo. Descreve seu vestido vermelho com a corrente dourada nas costas.
       OH, Deus...
       Ele se sentou junto a ela e lhe passou um brao pelos ombros. As coisas que sabia a pessoa que tinha escrito a histria lhe inquietavam. Jane tambm parecia contrariada, por isso no entrou em detalhes j que temia assust-la mais do necessrio.
No posso acreditar que tenha voltado a acontecer. Tomei cuidado em me manter afastado dessa classe de lixo. As idias se acumulavam em seu crebro, mas no tinham sentido. Estou fora. Paranico. Talvez contrate um investigador privado para que chegue ao fundo de tudo isto.
       Ela ficou de p de um salto e foi at a cadeira que havia junto  janela. Mordeu o lbio inferior e olhou um ponto por cima da cabea de Luc.
       No se sente lisonjeado? perguntou.
Maldita seja, no! respondeu ele. Sinto-me como se tivessem estado espiando. Aos dois.
       Se algum nos tivesse seguido nos teramos dado conta.
Certamente tem razo, mas no sei como explicar o da revista. Sei que parece uma loucura. E o certo era que o parecia, inclusive para ele. Talvez um dos meninos... Meneou a cabea e prosseguiu: No quero pensar que um dos meninos tenha algo que ver com isto, mas quem poderia ser? encolheu-se de ombros. Talvez me tornei louco.
       Jane o olhou longamente e finalmente disse:
       Eu escrevi.
       O que?
       Sou a autora da srie Bombonzinho de Mel.
       Como?
       Jane respirou fundo e disse:
       Eu sou Bombonzinho de Mel.
       Certo.
       Sou-o repetiu ela entre lgrimas.
       Por que diz isso?
Maldito seja! No posso acreditar que tenha que lhe demonstrar isso Nunca quis que soubesse. Jane se enxugou as bochechas e se cruzou de braos. Quem mais poderia saber que voc me perguntou se tinha frio ou estava excitada? Estvamos sozinhos no apartamento.
       E ento, uma a uma, as peas do quebra-cabeas foram encaixando. As coisas que s ele e Jane sabiam. A nota enganchada em sua agenda lhe recordando algo a respeito do Bombonzinho de Mel... Jane era Bombonzinho de Mel. Mas no podia ser.
       No.
       Sim.
       Luc ficou em p e olhou Jane, do outro lado da habitao. Observou seus cachos escuros, que tanto gostava de tocar, sua suave e plida pele e aquela boca rosada que adorava beijar. Essa mulher se parecia com Jane, mas se realmente era Bombonzinho de Mel, no era a mulher que ele acreditava conhecer.
Agora no ser necessrio que contrate a ningum disse Jane como se isso supusesse um consolo. E j no ter que suspeitar de nenhum dos meninos.     
       Ele a olhou nos olhos como se pudesse ler neles a incrvel verdade. Sentiu um repentino vazio no peito. Tinha confiado nela o bastante para coloc-la em sua casa e em sua vida. E tambm na vida de sua irm. Sentia-se arrasado.
Escrevi-a na noite depois de que me beijasse pela primeira vez. Poderia-se dizer que me inspirou. Jane deixou cair as mos aos lados do corpo, abatida. A escrevi muito antes de que tivssemos uma relao.
No muito antes. Sua prpria voz lhe pareceu estranha. Era uma voz oca, como se esperasse que a raiva a enchesse ao igual a seu peito. Faria-o, mas no naquele momento. Sempre soubeste o que penso dessas idiotices que escrevem sobre mim. Disse-lhe isso.
Sei, mas, por favor, no se zangue. Ou bom, se zangue, porque tem todo o direito de faz-lo. O que passa  que... As lgrimas alagaram seus olhos de novo, e as secou com os dedos. Me sentia to atrada por voc, e me beijou..., e escrevi a histria.
       E a enviou para que a publicassem em uma revista porn.
       Esperava que se sentisse lisonjeado.
Sabia que no seria assim. A raiva que tinha estado contendo encheu o peito de Luc. Tinha que sair dali. Tinha que afastar-se de Jane. A mulher a qual acreditava haver-se apaixonado. Deve ter rido quando te disse que era uma dissimulada. Quando pensei que minhas fantasias lhe impressionariam.
       Ela negou com a cabea.
       No.
       No s o tinha trado, mas tambm tinha conseguido lhe enlouquecer.
       Que mais vou ler sobre mim?
       Nada.
       Bom. Luc caminhou at a porta e se disps a partir.
Espera, Luc! No v. Ele se deteve. A voz chegou at ele; era uma voz chorosa e cheia da mesma dor que lhe formava um n no estmago. Por favor suplicou. Podemos solucion-lo. Posso arrum-lo.
       Luc no se voltou. No queria v-la.
       No acredito, Jane.                      
       Te amo.                                     
       Suas palavras foram como outra adaga que se cravou em suas costas, e a raiva que tinha estado contendo seguro de poder control-la, estalou finalmente.
Ento prefiro no saber o que  capaz de lhe fazer s pessoas que no quer. Abriu a porta. Afaste-se de mim, e se afaste de minha irm.
       Saiu ao corredor. A elaborada sianinha do tapete se fez imprecisa. Jane, sua Jane, era o Bombonzinho de Mel. Teria que passar um tempo at que pudesse assimil-lo.
       Caminhou at sua habitao e apoiou as costas na porta fechada. Durante muito tempo tinha acreditado que Jane era uma dissimulada, a verdade era que escrevia histrias pornogrficas e sabia mais de sexo que ele. Tinham compartilhado muitos momentos, tinha confiado nela, e Jane os tinha passado tomando notas.
       Havia-lhe dito que o amava. No tinha acreditado em suas palavras nem um s segundo. Tinha-lhe usado para escrever sua histria pornogrfica. Sabia como ele se sentiria, mas o tinha feito igualmente.
       Ele se tinha tomado o cuidado de no faz-la sentir-se como uma mulher mais, e entretanto... Quem era Bombonzinho de Mel? Uma ninfomanaca?
       Era Jane uma ninfomanaca? No. Ou sim? No sabia. No sabia nada dela.
       A nica coisa que sabia era que o tinha feito ficar como um tolo.
       
       
       

17

Em dique seco

       Comportou-se como uma estpida. Vrias vezes. Em primeiro lugar, apaixonando-se por Luc, inclusive sabendo que ele ia parti-lhe o corao. Depois, por lhe olhar no rosto e lhe confessar que ela era Bombonzinho de Mel. Ele no sabia, e cabia a possibilidade de que nunca se inteirasse.
       Mas ela sabia, e isso lhe queimava como uma malha ardente. Ao fim das contas, o havia dito para que no se sentisse to mal. Estava to fora de si pensando que algum os tinha espiado... e Jane sabia quem tinha sido. Ela. E o disse para aliviar tambm sua prpria conscincia. Assim, por que no se sentia melhor?
       Jane jogou sua maleta ao cho e ps-se a chorar. Tinha passado quase sete horas entre txis, aeroportos e avies tentando retornar pra casa. Tentando que as coisas no se fossem pelas mos. Mas j no podia mais. A dor que sentia ante a perda de Luc era muito profunda. Sabia que lhe perder doeria, mas nunca imaginou a cota que ia alcanar essa dor.
       A luz da lua atravessava a janela do pequeno dormitrio de seu andar, e fechou a cortina. Ocultava-se na escurido. Tinha pego o primeiro avio disponvel desde Phoenix aquela mesma tarde. Fez escala em So Francisco, onde teve que esperar duas horas para seguir a Seattle. Estava sofrendo um afundamento fsico e emocional. Devia partir. No tinha alternativa. No poderia ter entrado no vestirio na noite seguinte e ver a o rosto de Luc. Teria se desmoronado. Justo ali, em frente a todo mundo.
       Antes de ir, chamou Darby e lhe disse que tinha que atender um problema familiar. Necessitavam-na em casa, e voltaria a cobrir a campanha da equipe quando retornassem a Seattle. Apesar de que no tinha por que faz-lo, Darby ajudou a conseguir o bilhete de avio, e ela se deu conta de que era algo mais que um perito em trambiques. Debaixo daqueles trajes de mil dlares e aquelas horrveis gravatas pulsava um corao. Talvez inclusive fosse uma boa pessoa para Caroline.
       Tambm chamou Kirk Thornton, quem no se mostrou to pormenorizado como Darby. Perguntou-lhe a respeito da urgncia familiar e ela se viu forada a mentir. Disse-lhe que seu pai tinha sofrido um ataque cardaco. Na realidade, era seu prprio corao que havia se quebrado.
       Tombou-se na cama e fechou os olhos. No podia deixar de pensar em Luc, ou de recordar seu rosto quando ela entrou no bar do hotel. Parecia atnito, como se algum lhe tivesse jogado um tijolo na cabea. Podia rememorar cada pequeno detalhe. O pior tinha sido seu interesse por ela. E quando finalmente aceitou que ela era Bombonzinho de Mel, seu interesse se converteu em desprezo. Nesse momento soube que o tinha perdido para sempre.
       Jane deitou de lado e agarrou o travesseiro que tinha mais perto. Luc tinha sido a ltima pessoa a utilizar aquele travesseiro. Acariciou o suave tecido de algodo, depois a aproximou do nariz. Quase pde sentir seu perfume.
       A culpa e a ira se mesclaram com a dor em seu interior, e se arrependeu de lhe haver dito que o amava. Seria melhor que ele no soubesse. Em grande medida, desejava que lhe importasse. Mas no tinha sido assim.
Ento prefiro no saber o que  capaz de fazer s pessoas que no quer, havia dito.
       Lanou o travesseiro a um lado, sentou-se na cama e se enxugou as lgrimas. Vestiu uma camiseta grande, depois foi  cozinha. Abriu a geladeira e olhou dentro. Tinha passado bastante tempo da ltima vez que a limpou. Agarrou uma velha lata de embutidos e a ps na mesa. Encontrou um pote de mostarda vazio e um litro e meio de leite coalhado e os ps junto  lata de embutidos. Doa-lhe o peito e sua cabea parecia cheia de algodo. Teria-lhe agradado dormir at que a dor desaparecesse, mas embora isso tivesse sido possvel, teria que voltar a confrontar o despertar.     
       Soou o telefone e no respondeu, quando cessou o timbre, desprendeu-o. Tirou o cubo do lixo e detergente lquido de debaixo da pia e os colocou sob a luz que saa da geladeira aberta. Limpava para manter-se ocupada. Para manter a raia da loucura. Isso no a estava ajudando muito porque no podia evitar rememorar cada maravilhoso, cada excitante e cada horrvel momento que tinha passado com Luc Martineau. Recordava o modo que tinha de lanar os dardos, como se pudesse acertar no centro graas  fora de seus msculos. O modo em que conduzia sua motocicleta e como se sentou sentada detrs dele. Recordava a cor exata de seus olhos e seu cabelo. O som de sua voz e o perfume de sua pele. O toque de suas mos e a presso de seu corpo sobre ela. O sabor de Luc em sua boca. O modo como a olhava quando faziam o amor.
       Amava tudo o que tinha a ver com Luc. Mas ele no a amava. Sabia que tudo acabaria. Cedo ou tarde. A histria do Bombonzinho de Mel s tinha acelerado o inevitvel. Embora nunca a tivesse enviado, embora nunca a tivesse escrito, a relao entre ela e Luc no teria funcionado, apesar de suas esperanas. Ken sempre acabava junto a Barbie. Mick tinha entrevistas com supermodelos, e Brad se casava com Jennifer. Assim era a vida. Que tivesse acabado no era culpa dela. Ele a teria deixado. Certamente, o melhor era que a tivesse deixado naquele momento, disse-se, em lugar de permitir que acontecessem meses, dando tempo a Jane de descobrir e confirmar que ainda estava mais apaixonada por ele. A dor teria sido maior. Embora no podia imaginar nada mais doloroso. Sentia como se uma parte de si mesmo tivesse morrido.
       Deixou o detergente na mesa e olhou para o outro canto do piso, onde tinha deixado a maleta sobre a mesinha de caf.
Na merda de histria do Bombonzinho de Mel, h certas coisas que esto muito perto da realidade para ser uma coincidncia, havia dito Luc.
       Ela sempre tinha suposto que ele se reconheceria na histria, mas no tinha imaginado que reconheceria a ela. Foi at o sof e se sentou. Coisas que descrevem o que voc e eu fizemos. Tirou seu computador porttil e o ps em marcha. Abriu sua pasta Bombonzinho de mel e pulsou o clique no arquivo Maro. At aquele momento se negou a l-lo. Temia que fosse horrvel e no adulador, no to bom como originalmente pensou que era. Enquanto o lia, chocou-lhe o bvio que era tudo. O realmente surpreendente teria sido que no suspeitasse nada. Quanto mais lia, mais se perguntava se tinha deixado todas aquelas pistas de propsito. Parecia como se tivesse ido saltando de um lado a outro das pginas agitando as mos e gritando: Sou eu, Luc. Sou Jane. Eu tenho escrito esta histria.
       Tinha querido lhe dar a entender que ela era a autora dessa histria? No.  obvio que no. Isso teria sido uma estupidez. Teria significado que prejudicava de propsito sua relao.
       Apoiou as costas no sof e olhou para o suporte que havia sobre a lareira. A foto em que estava com o Caroline. O tubaro de cristal que Luc lhe tinha dado. Quando tinha se apaixonado por ele? Foi na noite do banquete? A primeira noite que lhe beijou? Ou no dia que lhe deu de presente o livro de hquei pacote com uma fita rosa? Possivelmente foi apaixonando-se um pouco por ele em cada uma dessas ocasies.
       Disse-se que o tempo no tinha mais importncia que a grande pergunta. O que era o que sempre dizia Caroline a respeito da verdade? No lhe havia dito que iniciava as relaes com um p na porta? Com um olho fixo no pster da sada? Tinha escrito aquela historia com tantas referncias bvias para acabar com a relao antes de estar muito apaixonada por Luc? Em caso de ser assim, tinha-a escrito muito tarde. Apaixonou-se com mais fora e profundidade que nunca tinha feito antes. Nem sequer poderia ter imaginado que fosse possvel chegar a apaixonar-se assim.
       Soou o timbre da porta e ela ficou de p. Eram duas da manh, e no podia imaginar quem estaria do outro lado da porta. O corao deu um salto, apesar de dizer-se que no podia ser Luc; no teria percorrido o pas de uma ponta  outra como Dustin Hoffman no Graduado.
       Era Caroline.
Telefonei a todos os hospitais disse sua amiga enquanto abraava com fora Jane. Ningum quis informar.
Do que? Jane se liberou dos braos do Caroline e deu um passo  para trs.
Seu pai. Caroline olhou Jane nos olhos. O ataque cardaco. 
       Jane meneou a cabea.
       Meu pai no sofreu nenhum ataque disse.
       Darby me chamou para me dizer isso. 
       OH, no.
Isso  o que expliquei no peridico, mas s queria vir pra casa e necessitava de uma boa desculpa. 
       O senhor Alcott no se est morrendo?
       NO.
Alegra-me ouvi-lo, asseguro-lhe isso. Caroline se deixou cair no sof. Mas me encarreguei flores.                               
       Jane se sentou a seu lado. 
       Sinto muito. Pode cancelar o pedido?
No sei. Caroline se voltou para ela. E por que tiveste que mentir? Por que voltaste para casa? Por que estiveste chorando.
       Tem lido a histria do Bombonzinho de Mel deste ms?
       Caroline estava acostumada a ler tudo o que Jane escrevia.
        obvio.
       Era Luc.
       Imaginava. No se sentiu lisonjeado?
       Nada respondeu Jane, e ento lhe explicou por que.
       Sem deixar de chorar, contou tudo a sua amiga. Quando acabou, Caroline franziu o cenho.
       J sabe o que vou dizer.
       Sim, Jane sabia. E uma vez pensou que sua amiga tinha razo. Jane sempre tinha sido a inteligente. Caroline a bonita. Essa noite, Caroline era a bonita e a inteligente.
       Pode arrum-lo? perguntou Caroline.
       Jane recordou o olhar do Luc quando lhe disse que se separasse dele e de Marie. Tinha-o deixado bem claro.
No. No querer me escutar. recostou-se no sof e olhou para o teto. Os homens so uns casulo. Sacudiu a cabea e olhou sua amiga. Faamos um pacto para passar deles por um tempo.
       Caroline mordeu o lbio inferior.
No posso disse. Estou saindo com o Darby, mais ou menos.
       Jane se incorporou.
       Srio? No sabia que a coisa fosse a srio.
Bom, ele no  o tipo de homem que est acostumado a me interessar. Mas  amvel e me agrada. Eu gosto de falar com ele e tambm o modo que me olha. E bom, a questo  que me necessita.
       Sim, necessitava-a. Jane tinha imaginado que Darby provavelmente afligiria Caroline com uma vida de necessidade.
 manh seguinte, Jane recebeu um buqu de flores da organizao dos Chinooks expressando suas condolncias. A meio-dia, chegaram as flores do Times e, por sua parte, Darby enviou outro ramo. s trs, chegaram as que Caroline tinha encarregado. Todos os Ramos eram preciosos e a fizeram sentir culpada. Prometeu a Deus que se fizesse que deixassem de chegar Ramos de flores nunca voltaria a mentir.
       De noite, viu pela televiso a partida dos Chinooks contra os Coiotes. Atravs de seu protetor facial, os olhos azuis do Luc a olharam com tanta dureza e frieza como o gelo sobre o que estavam jogando. Quando jogavam perto de sua portaria, podia apreciar a apertada linha que formavam seus lbios.
       Olhou  cmara e esta captou toda a raiva que havia em seu olhar. No parecia concentrado. Sua vida pessoal o estava afetando no jogo, e se Jane tinha abrigado alguma esperana a respeito de arrumar sua relao, a esperana morreu nesse instante.
Tudo se tinha acabado.

       Luc cometeu trs faltas, movido pela raiva que sentia.
O que te passa, Martineau? perguntou-lhe um dos jogadores da equipe contrria depois da primeira falta. Tem a regra?
Que lhe dem pelo traseiro lhe respondeu, lhe travando os patins com o stick e fazendo-o cair.
 um idiota, Martineau disse o tipo enquanto o olhava do cho. Montou-se uma comoo e enviaram Bruce Fish ao banco de castigo em lugar de Luc.
       Luc agarrou a garrafa de gua e molhou o rosto. Mark Bressler se aproximou.
Tem problemas para conter sua raiva? perguntou-lhe o capito.
Voc acha isso? A gua correu por seu rosto e pelo protetor facial. Jane no estava na cabine de imprensa. Nem sequer estava no mesmo estdio, mas no conseguia tirar-la da cabea.
Isto  o que penso. Bressler o golpeou no ombro com sua enorme luva. Tenta no fazer mais falta e talvez ganhemos esta partida.
       Tinha razo. Luc precisava concentrar-se mais na partida que na mulher que no estava na cabine de imprensa.
       No mais falta estpidas conveio.
       Mas na seguinte jogada, golpeou um jogador na tbia e o tipo caiu ao cho.
Venha j, que no pode te haver dodo lhe disse Luc enquanto olhava o jogador, que gemia de dor agarrando-a perna. Levante e te ensinarei o que  a dor.
       O pblico comeou a assobiar e Bressler se foi ao banco meneando a cabea.
       Depois da partida, o vestirio parecia mais cinza do normal. Tinham metido dois gols ao final do terceiro perodo, mas no tinha sido suficiente. Perderam por cinco a trs. Os jornalistas esportivos do Phoenix interrogaram os jogadores em busca de declaraes altissonantes, mas ningum falou muito.
       O pai de Jane tinha sofrido um ataque cardaco e todos sentiam a ausncia desta. Luc no tinha acreditado na histria do ataque, e lhe tinha surpreendido que sasse correndo. Isso no era prprio da Jane que conhecia. No constitua a no ser outra prova de que no a conhecia absolutamente. A autntica Jane tinha mentido e lhe tinha humilhado. Sabia coisas dele que Luc no gostava de ler nos peridicos. Sabia que colocava gelo nos joelhos e que no estava cento por cento.
       Era um idiota. Como demnios tinha permitido que uma pequena jornalista de cabelo encaracolado e lngua afiada penetrasse em sua vida? Nem sequer tinha gostado ao princpio. Como tinha se apaixonado por aquela maneira dela? Tinha posto patas acima de sua vida, e ele tinha que descobrir o modo de tirar-la da cabea. De voltar a concentrar-se. Podia faz-lo. Tinha lutado contra coisas similares antes, tinha combatido demnios piores que Jane Alcott. Disse-se que tudo o que precisava era determinao e um pouco de tempo. Darby lhes havia dito que no voltaria para o trabalho at a semana seguinte.
       Uma semana. Uma vez que tinha sado de sua vida fisicamente, no lhe custaria muito tempo faz-la sair de sua cabea e voltar a centrar-se na competio.
       Uma semana depois, soube que estava certo. Ou ao menos em parte. De novo estava concentrado. Voltava a jogar em lugar de deixar-se levar pelas emoes, mas no tinha conseguido afastar completamente Jane de seus pensamentos.
       O dia que retornaram a Seattle, sentia-se machucado por dentro e por fora. Como sempre ocorria com sua irm, quando as coisas pareciam que estavam bem, ao minuto seguinte comeavam a ir mal. Explicou-lhe como lhe tinha ido na escola e a seguir tirou seu largo pulver... Luc ficou boquiaberto depois de ver a justa camiseta que usava lhe marcando os seios. Eram muito maiores que uma semana antes que partisse. No  que se fixou em excesso, mas no pde evitar apreciar a diferena.
       O que tem posto?
       Minha camiseta.
Seus seios esto muito maiores que a semana passada. Usa um suti com enchimento?
       Marie cruzou os braos como se estivesse perante um pervertido.
        um wonderbra.
       No pode pr isso quando sair de casa.
       No podia deix-la sair com aqueles seios que pareciam torpedos.
       Usei-o no colgio toda a semana.
       Merda. Teria apostado o que fosse a que os meninos da escola se fixaram tambm. Toda a semana. Enquanto ele tinha estado de viagem. Cristo bendito, sua vida era um desastre.
Aposto o que queira a que os meninos de seu colgio passaram um bom momento te olhando as pras, e seguro que no tero pensado coisas bonitas sobre voc.
Pras grunhiu ela. Que desagradvel. Por que sempre me diz coisas desagradveis?
       Pras no era uma palavra desagradvel. Ou sim?
Estou te dizendo como pensam os meninos. Se usar esse enorme suti pensaro que  uma qualquer.
       Olhou-lhe como se fosse um pederasta em lugar de seu prprio irmo que tentava protege-la dos pervertidos do colgio.
        um doente.
       Doente
       No, no o sou. S tento te dizer a verdade.
Voc no  minha me nem meu pai. No pode me dizer o que tenho que fazer.
Tem razo. No sou seu pai nem sua me. E possivelmente tampouco seja o melhor irmo do mundo, mas sou o nico que tem.
       As lgrimas comearam a escorrer pelo rosto de Marie e estragaram sua maquiagem.
       Odeio voc, Luc.
No, no me odeia. S est molesta porque no quero que v por a com um suti com enchimento.
Aposto algo que voc gosta das mulheres que usam com um suti com enchimento.
       Nesses momentos, para falar a verdade, Luc tinha uma crescente afeio, ou mas bem uma obsesso, pelos seios pequenos.
 um hipcrita, Luc acrescentou ela. Estou segura de que suas namoradas usam suti com enchimento.
       Entre todas as mulheres que tinha conhecido, a que mais lhe tinha fascinado nem sequer usava suti. Tentou no lhe dar importncia, mas a deu. Sentia que sua cabea era uma panela a presso a ponto de explodir.
Marie, tem dezesseis anos raciocinou. No pode ir por a com um suti que faz que os tios se excitem. Tem que usar outra coisa. Talvez um suti com fechamentos de segurana. Tentava soar engraado.
       Como sempre, Marie no entendeu o senso de humor, e ps-se a chorar.
Quero ir a um internato! gritou antes de sair correndo para sua habitao.
       Luc ficou impressionado. No havia tornado a pensar no internato fazia tempo. Se a enviava a um internato, no teria que preocupar-se de se usava sutis com enchimento quando estivesse fora da cidade. Sua vida seria muito mais simples. Mas, de repente, a idia de t-la longe de si no lhe parecia nada atrativa. Ela tinha um humor vacilante e chorava com freqncia, mas era sua irm. Estava-se acostumando a t-la perto, e pensar no internato j no lhe parecia a melhor soluo.
       Seguiu-a at sua habitao e se apoiou contra o batente da porta. Estava deitada na cama olhando para o teto, com os braos abertos como um mrtir na cruz.  
       A srio quer ir a um internato? perguntou-lhe.
       Sei que no quer que esteja aqui.
Eu nunca disse isso. Tinham tido j uma conversao similar. E no  certo.
Quer te liberar de mim disse ela entre soluos. Assim irei pra longe.
       Luc sabia o que era o que Marie precisava escutar e o que era o que ele precisava dizer. Pelo bem de ambos. Tinha estado indeciso durante tempo suficiente.
Muito tarde disse cruzando-se de braos. No ir a nenhuma parte. Vai viver aqui, comigo. E se voc no gosta, dane-se
       Ela o olhou.
       Inclusive se quiser ir ?
Sim respondeu Luc, e se surpreendeu do muito que lhe importava Marie. Embora queira ir, est atada a esta casa.  minha irm e quero que viva comigo. encolheu-se de ombros.  como um espinho cravado no traseiro, mas eu gosto que esteja por aqui me dando trabalho.
       De acordo sussurrou ela ao cabo de um instante. Ficarei
De acordo, ento. Luc se separou do batente da porta e voltou ao salo. Olhou pela janela para a baa. A relao que tinha com sua irm no era a melhor possvel. Seu modo de vida no era o ideal; ele estava fora tanto tempo como o que acontecia a cidade. Mas queria conhece-la melhor antes que fosse  universidade, crescesse e se convertesse em uma pessoa adulta.
       Deveria hav-la visto mais freqentemente nos ltimos dezesseis anos. No tinha desculpa. Nenhuma boa, em qualquer caso. Tinha estado to ocupado com sua prpria vida, que tinha pensado pouco nela. E isso fazia que se envergonhasse pelas vezes que tinha passado por Los Angeles e no tinha feito o esforo de ir v-la. Para conhec-la. Sempre tinha sabido que isso o convertia em um egosta. Nem sequer tinha pensado que ser egosta fosse algo mau... At agora.
       Ouviu os passos de Marie e se voltou. Com o rosto banhado em lgrimas, abraou-o e apoiou a cabea em seu peito.
       Eu gosto de viver aqui e te dar trabalho.
Bem. Luc a apertou contra si. Sei que nunca poderei ocupar o lugar de sua me ou de seu pai, mas vou tentar te fazer feliz.
       Hoje me sinto feliz.
       Mesmo assim, no pode levar esse suti.
       Ficou quieta um instante, depois deixou escapar um comprido suspiro.
       Vale.
       Permaneceram juntos olhando a vista durante um bom momento. Ela falou de sua me e lhe explicou o motivo pelo qual conservava as flores secas em sua penteadeira. Ele acreditou hav-lo entendido, embora seguia pensando que era um pouco desagradvel. Disse-lhe que tambm tinha falado disso com Jane, e que lhe havia dito que algum dia se livraria delas, quando estivesse preparada.
       Jane. O que ia fazer com o Jane? A nica coisa que queria era viver sua vida em paz. E assim tinha sido, mas no havia tornado a ter um momento de paz desde que tinha conhecido Jane. No, isso no era certo. Durante as poucas semanas que tinham passado juntos se havia sentido melhor que em qualquer outra poca de sua vida. A seu lado se sentiu em casa pela primeira vez desde que vivia em Seattle. Mas tinha sido uma iluso.
       Ela havia dito que o amava. Ele sabia que no era certo, embora no mais profundo de seu ser desejava que aquela mentira fosse verdade. Era um casulo e um imbecil. Ia v-la na noite seguinte pela primeira vez em toda a semana, mas esperava que, como qualquer outra dor, depois da espetada inicial se fizesse imune e no voltasse a senti-la.
       Isso era o que esperava, mas no foi o que aconteceu quando ela entrou no vestirio na noite seguinte. Luc sentiu sua presena antes inclusive de que aparecesse. Ao v-la sentiu um golpe no peito que o deixou sem flego. Quando Jane falou, sua voz penetrou em seu interior, e apesar de sua frrea vontade, absorveu-a como se de uma esponja se tratasse. Estava apaixonado por ela. No podia neg-lo por mais tempo. Apaixonou-se por Jane, e no tinha nem idia do que fazer a respeito. Quando se sentou com os ps metidos nos patins, com os cordes nas mos, viu-a caminhar para ele, e com cada passo notou que seu corao se acelerava um pouco mais.
       Vestida de negro, com aquela fina e plida pele, parecia a mesma de sempre. Seu cabelo escuro lhe caa sobre o rosto, e Luc se obrigou a atar os patins, quando em realidade o que queria era sacudi-la, e depois abra-la com fora at absorv-la por completo.

       O mais difcil que Jane tinha tido que fazer em sua vida foi atravessar o vestirio e deter-se em frente a Luc. Quando se estava aproximando, ele agachou a cabea e comeou a atar os patins. Durante uns quantos segundos, ela o observou, e ao ver que no elevava a vista, disse:
       Pedao de tolo.
       Ele teve que apertar os punhos para refrear seu desejo de acarici-la.
Quero que saiba disse que no tenho a menor inteno de escrever nada mais sobre voc acrescentou Jane.
       Finalmente, Luc elevou a vista. Tinha o cenho franzido sobre seus olhos azuis.
       Espera que acredite? disse com o cenho franzido.
       Ela negou com a cabea. Seu corao chorava por ele. Por ela. Por isso que podiam ter compartilhado.
No. No o espero, mas tinha que lhe dizer isso de todos os modos.
       Olhou-lhe de novo e partiu. Reuniu-se com Darby e Caroline na cabine de imprensa e tirou seu computador porttil para tomar notas.
Que tal est seu pai? perguntou Darby, lhe fazendo sentir um pouco mais culpada.
       Muito melhor. J est em casa.
Sua recuperao foi assombrosa acrescentou Caroline com um sorriso de reconhecimento.                       
       No primeiro perodo, os Chinooks fizeram colocaram um gol nos Ottawa Senators, mas estes saram com fora no segundo tempo e tambm marcaram. Quando soou a buzina assinalando o final, os Chinooks ganhavam por dois gols de diferena.
       Enquanto Jane caminhava para o vestirio de novo, perguntou-se o quanto poderia resistir. Ver Luc constantemente era mais do que seu corao podia resistir. No sabia quanto tempo poderia seguir cobrindo os partidos dos Chinooks, embora isso significasse deixar o melhor trabalho que tinha tido e a oportunidade de melhorar sua carreira.
       Respirou fundo e entrou no vestirio. Luc estava sentado frente a sua bilheteria habitual. Estava nu de cintura para acima. Tinha os braos cruzados, e a observava como se estivesse tentando resolver um quebra-cabea. Ela fez o menor nmero de perguntas possveis aos jogadores e saiu dali a toda pressa antes de tornar-se a chorar diante de toda a equipe. Eles dariam por certo que chorava pela enfermidade de seu pai e, com toda probabilidade, enviariam-lhe mais flores.
       Quase saiu correndo do vestirio, mas quando estava a meio caminho da porta de sada, deteve-se. Se alguma vez tinha havido algo ou algum em sua vida pelo que lutar, esse era Luc. Apesar de que lhe havia dito que a odiava, ao menos o comprovaria.
       Voltou-se e apoiou o ombro na parede cinza, no mesmo lugar que Luc a tinha esperado uma ocasio. Foi o primeiro a aparecer no tnel, e seu olhar se encontrou com Jane quando caminhava para ela, com aquele aspecto to obscenamente atrativo, vestido com traje e gravata vermelha. Com o corao na garganta, lhe encarou.
       Tem um minuto?
       por que?
Quero falar contigo. Tenho algo que te dizer, e acredito que  importante.
       Deu uma olhada ao tnel vazio, abriu a porta do quarto da limpeza no qual j tinham estado uma vez, e a empurrou dentro. Acendeu a luz ao tempo que fechava a porta a suas costas, jogou o ferrolho e ficaram encerrados no lugar no que ele a tinha beijado apaixonadamente. Quando olhou seu rosto, comprovou que Luc nem sorria nem parecia zangado, seus olhos transmitiam cansao mas no pareciam distantes. Nenhuma emoo das que ela tinha percebido no vestirio.
       Acreditava que tinha que me dizer algo.
       Jane assentiu com a cabea e se apoiou na porta. O aroma da pele do Luc a alcanou lhe devolvendo antigos momentos e despertando nela um profundo desejo. Uma vez que tinha chegado o momento, no sabia como comear.
Quero te dizer o muito que sinto muito pela histria do Bombonzinho de Mel. Sei que  muito possvel que no me acredite, e no o culpo. Sacudiu a cabea. No momento em que a escrevi, estava me apaixonando por voc, e simplesmente me sentei e deixei voar minha imaginao. Nem sequer estava segura de envi-la ou no. Limitei-me a escrev-la, e ao acabar soube que era o melhor que tinha escrito separou-se da porta e caminhou pelo pequeno quarto. No podia lhe olhar e lhe dizer ao mesmo tempo tudo o que tinha que lhe dizer. Quando a acabei, disse-me que no podia envi-la, porque sabia que voc no gostaria. Sabia como se sentia respeito a todas as mentiras que se escrevem sobre voc. Deixou-me isso bem claro. lhe dando as costas, passou o brao depois de uma estante de metal. Mas a enviei igualmente.
       por que?
       Por que? Isso era o mais duro de explicar.
Porque te amava e voc no me amava . No sou o tipo de mulher com a qual est acostumado a sair. Sou baixa e no tenho peito, e logo no sei me vestir. Acreditava que nunca pensaria em mim do modo como eu pensava em voc.
       Ou seja, se vingou de mim?
       Olhou-lhe por cima do ombro e se forou a voltar-se. Para confrontar a questo tinha que lhe olhar nos olhos de novo.
No. Se simplesmente tivesse querido me vingar porque no estava apaixonado por mim, me teria mantido no anonimato. cruzou-se de braos para evitar que a dor a fizesse cair ao cho. O fiz para pr fim a nossa relao antes que comeasse. Assim poderia jogar a culpa na histria do Bombonzinho de Mel. Assim no me comprometeria muito.
       Ele negou com a cabea.
       Isso no tem sentido.
No. Estou segura de que no o tem para ti, mas sim o tem para mim. 
        a desculpa mais estpida que ouvi em minha vida. 
       Seu corao se afundou. No acreditava.
Estive dando muitas voltas ao longo da semana, e me dei conta de que em todas minhas relaes com homens sempre deixei uma via de escapamento por medo de que me ferissem. A histria do Bombonzinho de Mel era minha via de escapamento. O problema foi que no pude sair to depressa como queria. Respirou fundo e acrescentou: Te amo, Luc. Apaixonei-me por voc, e tinha medo de que nunca me quisesse. Em lugar de pensar que uma relao contigo no tinha nenhum futuro deveria ter lutado por obter que funcionasse. Deveria... No sei o que. Mas agora sei que o danifiquei. Sei que a culpa  minha, e te peo desculpas. Ao ver que no dizia nada, seu corao caiu em picado. No tinha nada mais que dizer, exceto: Esperava que pudssemos seguir sendo amigos.
       Ele arqueou uma sobrancelha com expresso de dvida. 
       Quer que sejamos amigos?
       ---Sim.
       NO.
       Nunca tinha imaginado que uma s palavra pudesse ferir daquele modo.
       No quero ser seu amigo, Jane.
Entendo-o. Jane inclinou a cabea e caminhou para a porta. No acreditava ter mais lgrimas para chorar. Acreditava que j tinha chorado tudo possvel, mas estava equivocada. No lhe importava se o resto da equipe dos Chinooks estava no tnel; tinha que sair dali e afastar-se. Agarrou a maaneta da porta e a girou, mas no aconteceu nada. Girou com mais fora, mas a porta no se moveu. Desprezou o ferrolho, mas mesmo assim no se abriu. Viu ento que a mo de Luc, apoiada na parte de acima da porta, impedia que se abrisse.
O que est fazendo? perguntou-lhe Jane voltando-se para lhe olhar de frente. Estava to perto, que seu nariz ficou a escassos centmetros de seu peito e pde cheirar o aroma do algodo limpo da camisa misturado com o do desodorante.
       No brinque comigo, Jane.
       No estou brincando.
Ento, por que me diz que est apaixonada por mim e imediatamente diz quer que sejamos amigos? Luc colocou os dedos sob o queixo de Jane e a obrigou a lhe olhar. J tenho amigos. Eu quero algo mais que isso. Sou um tipo egosta, Jane. Se no poder ser seu amante, se no poder ter tudo de voc, ento no quero nada.
       Inclinou a cabea e a beijou, foi uma ligeira presso em seus lbios, e as lgrimas que ela tinha estado tentando conter lhe encheram os olhos. Agarrou ento a camisa de Luc e apertou forte. Queria ser seu amante, e nesta ocasio no inventaria razes para acabar contudo. Queria-o com todas suas foras.      
       Ele deslizou sua boca pela bochecha do Jane e lhe sussurrou ao ouvido:
Te amo, Jane. E senti sua falta. Minha vida  uma merda sem voc.
       Lhe empurrou e o olhou no rosto.
       Diga-o outra vez.
       Ele elevou as mos at seu rosto acariciou as bochechas com os polegares.
Eu te amo, e quero estar contigo porque a seu lado me sinto melhor. Colocou-lhe o cabelo detrs da orelha. Uma vez me perguntou o que era o que via quando olhava para meu futuro. Pegou sua mo. Eu vejo voc adicionou, e lhe beijou os ndulos.
       No est zangado comigo? perguntou Jane.
       Ele negou com a cabea e seus lbios roaram o reverso de sua mo.
Acreditei que o estava. Acreditei que ia estar zangado contigo para sempre, mas no o estou. No entendo realmente suas razes para enviar a histria do Bombonzinho de Mel, mas j no me importa. Acredito que me incomodou mais o fato de me sentir enganado que a histria em si. Apoiou a mo em seu peito. Quando te vi me esperando, minha raiva se evaporou e soube que seria o homem mais tolo do mundo se te deixasse ir. Quero passar o resto de minha vida conhecendo seus segredos.
       No tenho mais segredos.
Est segura de que no h outro mais? Passou um brao por suas costas e a beijou no pescoo.
       A que se refere?
       No ser ninfomanaca?
       Fala a srio?
       Pois...
       Jane negou com a cabea e disse em voz baixa:
       No antes de tornar a rir.
Cristo. Luc a separou de si e a olhou  cara. Algum poderia te ouvir, e seria nosso fim.
       Ela no podia parar de rir, por isso ele a silenciou com um beijo. Seus lbios eram mornos e acolhedores, e ela se abandonou a seu beijo como uma autntica ninfomanaca. Porque h vezes na vida em que Ken no escolhe a Barbie. E por esse motivo, Luc tinha que ser recompensado.
       
       

Eplogo

Lana e anota!

       Luc saiu do elevador ao mirante do Space Needle e olhou a sua esquerda. Uma mulher vestida de vermelho olhava para o brilhante centro de Seattle. O cabelo, encaracolado e escuro, caa-lhe sobre os ombros e a clida brisa de agosto tinha arrojado algumas mechas sobre seu rosto. Acabavam de jantar no restaurante que havia debaixo e, enquanto ele esperava a conta, ela tinha subido at o mirante.
       Enquanto lhe observava caminhar para ela, as linhas de seus vermelhos lbios se curvaram formando um sedutor sorriso.
       Bonita noite para olhar as estrelas disse ele.
       Ela mordeu o lbio inferior, depois sussurrou:
       Voc gosta de olhar?
Mas bem prefiro fazer. Rodeou-a com os braos e a atraiu por volta de seu peito. E justo agora quero te fazer minha esposa.
       Isso no estava no guia disse Jane.
       Fazia cinco semanas que se casaram. Cinco semanas de despertar a seu lado cada manh. De olh-la ao outro lado da mesa da cozinha, e de levar juntos os pratos a pia. De v-la escovar os dentes e vestir meias trs-quartos. Nunca, nem em um milho de anos, teria imaginado que todas essas atividades cotidianas podiam ser to excitantes.
       E o melhor de tudo era que gostava de v-la trabalhar. Imaginar todas essas histrias erticas, ver alm de seu rosto sem maquiar, e ver a autntica mulher.
       Desde seu compromisso, deixou de escrever sobre o fato de ser solteira em Seattle. E Chris Evans retornou a seu posto depois do tratamento mdico. O Times a deixou partir e ela se converteu na nova cronista esportiva do peridico rival: o Seattle Post-Intelligencer.
       Tiveram que planejar as bodas durante os playoffs, e como Luc esteve fora da cidade a metade desse tempo, Jane, Marie e Caroline tiveram que fazer a maior parte do trabalho. O qual lhe caiu muito bem. Tudo o que teve que fazer foi dizer: Sim quero. Resultou-lhe bastante fcil. V-la danar com o mascote da equipe na recepo no foi tanto.
       Poucos meses antes das bodas, os Chinooks chegaram a final, mas ficaram sem a Stanley Cup porque caram derrotados ante os Colorados Avalanche na terceira partida. Luc inclinou a cabea e enterrou o nariz no cabelo de Jane. Sempre poderiam tent-lo no prximo ano.
       Quer ir a algum outro lugar? perguntou Jane.
       Tinham passado muito tempo percorrendo Seattle juntos. Ele, Jane e Marie. Jane conhecia todos os lugares destacados e os que teria que evitar.
Quero ir pra casa disse. Marie ia passar a noite com a Hanna, e Luc queria aproveitar esse tempo a ss com sua esposa. O que me diz?
       Ela se voltou e lhe abraou.
       Nossa casa  meu lugar favorito.
       Tambm o era para Luc. Mas sua casa era para ele ali onde estivesse Jane. Nunca em toda sua vida tinha amado a ningum tanto como a amava. Tanto que s vezes lhe dava medo.
       Ele a apertou com fora e olhou para a cidade. Estava apaixonado por sua mulher. Sim, sabia o que isso significava. Que se tinha retirado, caado por uma mulher baixa de carter forte.
       Sim, isso era o que significava, e no lhe importava.
       
   
   Fim




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